Nico Williams e Lamine Yamal, hoje ídolos da seleção espanhola campeã do Mundial de Seleções, carregam no uniforme a medalha e, na pele, a história de duas travessias africanas. Aos 24 e 19 anos, respectivamente, eles transformam a trajetória dos pais em símbolo de uma Espanha mais diversa, que aprende a se reconhecer nos rostos dos filhos de imigrantes.
Medalha para a mãe e um país em transformação
Quando recebe a medalha de campeão mundial, em 19 de julho, Nico não hesita. Caminha até a arquibancada, procura a mãe, María, e coloca o metal dourado em seu pescoço. O gesto resume três décadas de medo, fome e caminhada no deserto.
Naquela arquibancada não está apenas a mãe de um atacante rápido e decisivo pelo lado esquerdo. Está a mulher que atravessa o Saara grávida, descalça em parte do percurso, saindo de Gana ao lado do marido, Félix, em 1994. O destino é a Europa, mais especificamente a Espanha, onde o casal acredita que pode reinventar a própria história.
A ascensão de Nico e de Lamine Yamal acontece enquanto o país debate imigração, racismo e identidade. O sucesso desses jovens, protagonistas de títulos e campanhas recentes, pressiona o futebol a lidar com preconceitos antigos e oferece ao restante da sociedade um espelho incômodo: a Espanha vence com filhos de quem um dia bateu à sua porta pedindo asilo.
Família Williams: do Saara ao gramado
A saga da família Williams começa em 1994, quando María e Félix deixam Gana com um bebê a caminho. Fazem quase toda a viagem a pé, enfrentam o Saara e chegam exaustos a Melilla, enclave espanhol no norte da África. Para conseguir asilo político, orientados por intermediários, dizem às autoridades que fogem da Libéria, então em guerra.
Em Melilla, são acolhidos por organizações ligadas à Igreja Católica, entre elas a Cáritas. O governo decide distribuir parte daquele grupo de recém-chegados por diferentes regiões, e María e Félix seguem para Bilbao. Ali conhecem o sacerdote Iñaki Mardones Aja, hoje responsável pelo serviço de assistência religiosa católica do Hospital Marqués de Valdecilla.
“Os pais de Nico chegaram a Bilbao por meio da Cáritas. Fui buscá-los na estação. Eles quase não falavam castelhano, só se acalmaram quando passei ao inglês”, recorda Mardones. Pouco depois, María sente dores. O padre a leva ao hospital; os médicos avisam que o parto começou. Nasce Iñaki, o primogênito, batizado em homenagem ao religioso. “Quando perguntam se podem dar o seu nome a uma criança que está para nascer, é um presente enorme, uma grande honra. E ver esse garoto chegar onde chegou é algo impressionante”, diz.
A família passa por uma fazenda, muda-se depois para Pamplona, onde vem ao mundo, em 2002, o caçula Nicholas Williams Arthuer, o Nico. O pai, sem trabalho estável, migra de novo. Vai para Londres, limpa mesas em praça de alimentação em Chelsea, trabalha como segurança, inclusive nas entradas do estádio do Chelsea. Fica uma década longe da família.
Em casa, a responsabilidade se reparte entre María, que chega a ter três empregos, e o jovem Iñaki, que assume papel quase paternal. Ele busca Nico na escola, garante comida, explica o que significa se comportar como atleta profissional. “É uma referência pra mim. Ele é tudo pra mim”, diria mais tarde Nico. “Ele me corrige, me aconselha. É meu irmão, mas também exerce um pouco o papel de pai.”
Aos poucos, os dois irmãos transformam o futebol em passaporte definitivo para a integração. Em 2021, entram juntos em campo pelo Athletic de Bilbao, contra o Real Valladolid, e se tornam os primeiros irmãos a atuar lado a lado pelo clube desde 1986. Iñaki escolhe defender a seleção de Gana, como tributo às origens. Nico veste a camisa da Espanha e se torna um dos rostos da nova campeã do Mundial.
A cada entrevista, ele volta à mesma cena: a mãe no deserto, grávida e descalça. “Meu pais arriscaram a vida para que nós, meu irmão e eu, tivéssemos um futuro melhor. E eles conseguiram. Sempre serei grato ao que meu pai e minha mãe fizeram por nós: são lutadores, nos ensinaram o valor do respeito e do trabalho duro, mostrando que ninguém conquista nada de graça”, afirma. “Ninguém vem para cá para tirar nada de ninguém. As pessoas vêm para ter um pedaço de pão, um teto, um futuro melhor para seus filhos.”
Lamine Yamal: a estrela que nasce em Rocafonda
Enquanto os Williams cruzam o Saara, outra história começa a ser escrita a milhares de quilômetros dali, no Marrocos. A avó paterna de Lamine Yamal, Fátima, decide partir sozinha rumo à Espanha. Vem de ônibus, cruza Algeciras e Granada, aceita qualquer trabalho. O objetivo é juntar dinheiro para trazer o filho, Mounir Nasraoui.
Mounir chega criança à Espanha, aos 3 anos. A família se instala na região de Barcelona. Anos depois, ele conhece Sheila Ebana, da Guiné Equatorial. Nasce ali a dupla origem de Lamine Yamal: pai marroquino, mãe da África Central, infância em um bairro operário catalão. É uma biografia que atravessa fronteiras antes mesmo de ele tocar na bola.
A família se muda para Rocafonda, periferia de Mataró, marcada por blocos simples, comércio popular e alta presença de imigrantes. Em vez de esconder o endereço, o clã o transforma em bandeira. “Este bairro é o melhor do mundo e o melhor da Espanha, porque todos somos iguais e todos nos queremos”, diz o pai, orgulhoso.
É em uma quadra de concreto de Rocafonda que começa a história esportiva do garoto que se tornaria um dos jogadores mais valiosos do planeta. Desde cedo, Lamine exagera no tempo de bola. Aparece em todos os jogos, com todas as turmas. Enfrenta crianças de 7 anos, adolescentes de 15, quase adultos de 17 e 18. “Ele é um caso especial. Sempre ia ao poliesportivo jogar, com todo mundo. E sim, amadureceu antes dos outros”, lembra o pai, em entrevistas recentes.
Mounir nunca esconde a convicção. “Quando meu filho nasceu, eu sabia que ele seria uma estrela”, conta. Hoje, a profecia se cumpre diante de milhões de torcedores. Lamine, aos 19 anos, se consolida como protagonista da seleção campeã do Mundial e símbolo de uma geração que não conhece outra Espanha senão a dos bairros mistos e das múltiplas raízes.
Humildade, talento e uma “nova Espanha”
O professor Moisés Ruiz, especialista em Liderança e Comunicação da Universidade Europeia, vê em Yamal e Nico a materialização de uma mudança mais profunda. “São dois jovens espanhóis com uma história familiar marcada pelo esforço e pela dificuldade. São exemplos de humildade e talento”, afirma.
Esse elogio não é mero adjetivo. No vestiário da seleção, os dois convivem com colegas que nasceram em lares espanhóis há gerações e com outros filhos de migrantes recentes. Juntos, constroem uma equipe em que a mistura é regra, não exceção. A vitória no Mundial, com papel decisivo dos dois, torna inevitável a pergunta: qual é, afinal, a cara da Espanha campeã?
Nos clubes, a resposta aparece nas categorias de base. Observadores e dirigentes se voltam com mais atenção para bairros como Rocafonda ou cidades que receberam fluxos intensos de imigração, como Bilbao e Pamplona. O sucesso dos filhos de Gana e do Marrocos-Guiné Equatorial funciona como argumento concreto em favor de projetos de inclusão, escolinhas em periferias e programas que enxergam o futebol como ferramenta de integração.
O movimento, porém, não é pacífico. Setores contrários à imigração se veem desafiados por ídolos que agradecem publicamente a pais sem documentos regulares no passado ou a redes de acolhimento como a Cáritas. Cada gol comemorado com danças africanas ou frases em dialetos locais testa os limites de um nacionalismo que ainda prefere a ilusão de uma Espanha homogênea.
O que muda além do placar
A trajetória das famílias Williams e Yamal vai além do futebol profissional. Em Melilla, Bilbao, Pamplona, Rocafonda, voluntários, padres e assistentes sociais descobrem, anos depois, que aquele bebê do alojamento se tornou campeão mundial, que o menino da quadra de cimento é astro global. A história devolve sentido a um trabalho muitas vezes invisível.
Em um hospital de Bilbao, Mardones ainda se emociona ao lembrar o dia em que ouviu o choro do recém-nascido Iñaki. Em Rocafonda, pais que chegaram sem falar castelhano assistem pela TV ao filho driblar zagueiros pela seleção. O caminho que vai do deserto do Saara e de um ônibus noturno vindo de Marrocos até o topo do Mundial mostra que políticas públicas e redes de acolhimento não produzem apenas estatísticas: produzem craques, cidadãos, referências.
Nos próximos anos, a tendência é que histórias como as de Nico e Lamine ganhem ainda mais visibilidade. Clubes e federações já entendem que a diversidade não é concessão, mas ativo esportivo. Para a Espanha, a questão deixa de ser se aceita ou não os filhos da imigração. A seleção campeã, com seus gols africano-ibéricos, anuncia que o futuro do futebol e da própria identidade nacional passa, inevitavelmente, por eles.