Trivia Trens: falhas e incêndio criam caos em SP; confira imagens

Concessionária enfrenta problemas iniciais com falhas e incêndio, impactando o serviço na Linha 11 Coral da CPTM.
Redação NC News
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No segundo dia de operação plena da Trivia Trens nas antigas linhas da CPTM, uma sequência de falhas técnicas e um incêndio em trem desorganiza a rotina de quase 1 milhão de passageiros na Grande São Paulo.

Falha de via, incêndio e plano de guerra no Metrô

Após assumir oficialmente as linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade à meia-noite de terça-feira, a concessionária do Grupo Comporte enfrenta, já na manhã seguinte, a primeira falha na Linha 12-Safira. Um equipamento de via apresenta problema entre Tatuapé e Engenheiro Goulart e obriga os trens a rodar com velocidade reduzida.

Em nota, a empresa afirma deslocar equipes de manutenção para o trecho e tenta minimizar o impacto. “A ocorrência é pontual e não impacta o tempo total da viagem dos passageiros”, sustenta a Trivia Trens.

Horas depois, o cenário piora. Um trem pega fogo na região do Belém e paralisa simultaneamente as linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade, eixo central da nova concessão. Plataformas lotam, passageiros são obrigados a abandonar estações e buscar alternativas em ônibus e metrô.

O Metrô de São Paulo aciona um plano especial de contingência na Linha 3-Vermelha. A companhia coloca mais trens em circulação, faz manobras intermediárias em Tatuapé e Penha e reforça o número de funcionários nas plataformas para orientar o público. “A integração nas estações Tatuapé e Corinthians-Itaquera com os trens está aberta gratuitamente neste horário de pico da manhã”, informa o Metrô. Isso causa uma superlotação nos metrôs da Linha 3-Vermelha e maior lentidão no horário de pico.

É possível ver pessoas caminhando nos trilhos da CPTM próximo à Estação Tatuapé em vídeo.

A Trivia Trens não se manifesta sobre o incêndio até o momento. A ausência de explicações públicas alimenta a irritação de usuários e acende o alerta no governo estadual, que vende a concessão como vitrine da política de parcerias na malha sobre trilhos.

Do estatal ao privado: o peso da promessa de R$ 14,3 bilhões

A troca de comando representa uma inflexão na gestão do transporte metropolitano sobre trilhos em São Paulo. A CPTM deixa de operar as linhas 11, 12 e 13 e se concentra apenas na Linha 10-Turquesa, enquanto a Trivia Trens passa a responder por mais de 100 km de trilhos, 92 trens e o Expresso Aeroporto entre Barra Funda e Guarulhos.

O contrato prevê investimentos de R$ 14,3 bilhões ao longo de 25 anos. No papel, isso inclui oito novas estações, reconstrução de outras quatro, expansão de 25,8 km da malha e redução dos intervalos entre composições.

Durante os 60 dias de “operação assistida”, em que a concessionária já conduzia os trens sob supervisão da CPTM, o sistema dá sinais de fragilidade. A Linha 11-Coral, a mais carregada da rede, registra pelo menos 11 falhas entre junho e julho e acumula alta de 275% no número de ocorrências no primeiro semestre em comparação com igual período anterior à transição.

A empresa reage exibindo números de treinamento e planejamento. “Como parte do processo de transição, a empresa realizou um robusto programa de capacitação teórica, prática e de campo para as equipes… acumulando mais de 1.300 horas de treinamento”, afirma a Trivia Trens, em nota. A concessionária diz contar com muitos funcionários oriundos da CPTM e descreve um mapa detalhado da malha, com planos de trocar 35 km de trilhos, 10 mil dormentes e atacar cerca de 300 pontos com restrições operacionais.

No discurso, a promessa é de um serviço “cada vez mais seguro, previsível e confiável”. Na prática, o início sob falhas e um incêndio coloca essa narrativa em xeque e reforça a percepção de que a transição para o modelo privado, por si só, não resolve gargalos históricos de manutenção e gestão.

Pressão diária para quase 1 milhão de passageiros

As três linhas sob responsabilidade da Trivia Trens somam demanda diária próxima de 1 milhão de pessoas. A Linha 11 liga o extremo leste à zona oeste da capital e municípios da Grande São Paulo; a 12 percorre a Zona Leste até o Alto Tietê; a 13 conecta à região do Aeroporto de Guarulhos.

Quando esses ramais param ao mesmo tempo, como ocorre após o incêndio na região do Belém, o impacto se espalha por todo o sistema. A Linha 3-Vermelha, já uma das mais lotadas do Metrô, vira único eixo ferroviário funcional em boa parte da Zona Leste e recebe um volume adicional de passageiros sem precedentes neste início de concessão.

O reforço de trens, manobras especiais e gratuidade na integração nas estações Tatuapé e Corinthians-Itaquera aliviam parte do estrangulamento, mas não evitam atrasos, vagões superlotados e filas prolongadas nos acessos. Na prática, a população paga o preço da instabilidade operacional justamente no momento em que o governo vende a concessão como solução para viagens mais rápidas e previsíveis.

No bastidor, áreas de manutenção, operação e comunicação das empresas envolvidas trabalham sob pressão para conter danos. A cada falha ou incidente relevante, cresce o risco de desgaste político para a gestão estadual e de questionamento ao modelo de transferência de ramais da CPTM para operadores privados.

Linha 10-Turquesa fica para depois, mas segue cheia

Enquanto a Trivia Trens tenta estabilizar as linhas recém-assumidas, a CPTM se mantém responsável pela Linha 10-Turquesa, que atende cinco das sete cidades do Grande ABC. O ramal transporta em média 538,1 mil passageiros por dia útil em junho e, sozinho, ilustra a dimensão do desafio de mobilidade na região metropolitana.

O governo paulista decide adiar a concessão da Linha 10 para o primeiro semestre de 2027. A Secretaria de Parceria em Investimentos justifica a postergação como um movimento de ajuste de prioridades. “O projeto da concessão da Linha 10-Turquesa permanece em fase de estudos e estruturação… a prioridade do governo paulista é acompanhar os investimentos previstos nos contratos já concedidos”, afirma a pasta.

Até lá, a estatal promete investir cerca de R$ 1,4 bilhão em revitalização, acessibilidade, sinalização e infraestrutura. O modelo em estudo projeta R$ 19 bilhões em aportes ao longo de 30 anos, incluindo a futura Linha 14-Ônix, planejada para ligar Santo André à Zona Leste de São Paulo e a Guarulhos.

A decisão de empurrar a licitação para frente revela prudência, mas também expõe uma encruzilhada. De um lado, o governo quer consolidar as concessões em andamento, como a da Trivia Trens; de outro, mantém sob gestão direta justamente o ramal que conecta o ABC, região estratégica do ponto de vista econômico e político.

Concessão à prova e próximos passos

Os episódios desta semana transformam a Trivia Trens em alvo imediato da opinião pública. Falhas de via, aumento de ocorrências recentes na Linha 11 e um incêndio com paralisação completa das três linhas colidem com o discurso de modernização rápida financiada pelo setor privado.

Nos próximos meses, a concessionária precisa mostrar serviço em duas frentes. Na operação diária, reduzir o número de falhas visíveis ao usuário, dar respostas rápidas a incidentes e melhorar a informação em tempo real. No investimento, iniciar obras de via permanente, estações e sistemas de sinalização que hoje só existem nos planos e nos números do contrato.

O governo estadual, por sua vez, será cobrado a apresentar indicadores claros de desempenho e transparência sobre metas e penalidades. A forma como linhas 11, 12 e 13 se estabilizarem — ou não — vai influenciar diretamente o debate sobre a futura concessão da Linha 10-Turquesa e o próprio modelo de reorganização da malha ferroviária metropolitana.

No curto prazo, a pergunta central para quem depende de trem é menos sobre o desenho do contrato e mais sobre o dia a dia: se o trem vai chegar, se vai caber todo mundo e quanto tempo a viagem vai demorar.

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