A seleção brasileira feminina de vôlei derruba a Itália em uma semifinal dramática da Liga das Nações, em Macau, e avança à decisão em busca de um título inédito. O time de José Roberto Guimarães vence por 3 sets a 2, com reação após sair atrás e brilho da ponteira Ana Cristina, autora de 23 pontos.
Reação em cinco sets e triunfo no limite
O jogo nasce tenso e equilibrado. A Itália, atual bicampeã da Liga das Nações e referência do vôlei mundial, confirma o favoritismo inicial e leva o primeiro set por 25 a 21. O Brasil sente, mas não desmonta.
A resposta vem imediata. Com bloqueio mais agressivo e melhor aproveitamento no passe, a seleção devolve o placar: 25 a 21 na segunda parcial. O terceiro set vira um teste de nervos. As duas equipes se alternam na frente, ponto a ponto, até o Brasil fechar em 24 a 26, mantendo viva a chance de eliminar as campeãs.
A Itália reage no quarto set, volta a controlar as ações e outra vez crava 25 a 21, forçando o tie-break. O desempate começa com ace da levantadora Roberta, que dá o tom da ousadia brasileira. A equipe abre quatro pontos, permite o empate, mas retoma o controle na reta final. Com defesas decisivas e bolas pesadas de Ana Cristina na saída e na ponta, o Brasil fecha em 15 a 12 e transforma a quadra em palco de comemoração.
Ana Cristina lidera, elenco supera dores e desfalques
Aos 22 anos, Ana Cristina assume o protagonismo ofensivo da campanha brasileira na VNL 2026 e confirma o papel na semifinal. Com 23 pontos, é a maior pontuadora da partida e símbolo de uma seleção que decide sob pressão.
Ao final do jogo, a ponteira mistura alívio e ambição. “É até difícil falar. São muitas emoções. No ano passado, eu não estava nas finais por causa de lesão no joelho. Agora tento me divertir dentro de quadra, chamar o time. Acreditamos que podíamos bater a Itália. Estou muito feliz, muito orgulhosa das meninas”, diz.
O discurso expõe a realidade de um elenco reduzido. Gabi, principal referência técnica, nem atua na VNL por conta de dores na lombar. A central Júlia Kudiess se machuca na fase classificatória. A oposta Tainara também sofre lesão durante o torneio. A líbero Nyeme permanece no Brasil para cuidar da filha pequena.
Mesmo assim, o time sustenta o nível contra a seleção que domina o cenário recente, campeã olímpica e mundial. “Nunca é fácil jogar contra as italianas, ainda mais nas condições em que estamos. O campeonato é muito longo, desgastante. Muitas meninas estão com dores. Mas temos um objetivo em comum e queremos chegar lá”, completa Ana.
Trabalho de grupo e virada de chave para a final
A vitória carrega o peso simbólico de uma vingança esportiva. A Itália acumula títulos e resultados recentes sobre o Brasil, inclusive em decisões da própria Liga das Nações. Hoje, porém, a seleção brasileira controla melhor a ansiedade, suporta momentos de domínio rival e executa com precisão no fim.
Julia Bergmann, uma das vozes mais ativas em quadra, traduz o clima de um time que se alimenta da própria intensidade. “Mostra que o trabalho está dando resultado. Acreditamos, desde o primeiro ponto, que podíamos ganhar, mesmo com a Itália sendo um time muito forte. Vamos comemorar e já pensar na final de amanhã. Foi um triunfo de equipe, com uma gritando na cara de outra”, afirma.
O técnico José Roberto Guimarães elogia a dedicação, concede apenas uma hora de celebração no vestiário e logo recoloca o grupo em modo competitivo. A final, marcada para a manhã deste domingo, coloca o Brasil diante de Turquia ou China, em outro duelo de alto nível. O saque agressivo, a consistência de bloqueio e a gestão do desgaste físico voltam a ser decisivos.
Impacto para o vôlei feminino e peso histórico da final
Desde a criação da VNL feminina, em 2018, o Brasil acumula quatro vice-campeonatos. A seleção chega mais uma vez à decisão com a chance de, enfim, converter protagonismo em ouro. Uma eventual conquista encerra o jejum de títulos intercontinentais que se arrasta desde o Grand Prix de 2017 e reabre uma era de confiança para o ciclo de grandes torneios, incluindo o próximo Mundial de Seleções.
O efeito vai além da quadra. A presença do Brasil na final eleva a audiência da competição na TV paga e nas plataformas digitais, impulsiona a negociação de patrocínios e reforça o apelo comercial do vôlei feminino. A modalidade, que já ocupa espaço relevante no calendário esportivo do país, ganha nova vitrine para atrair jovens atletas, especialmente meninas, para os clubes e projetos de base.
A derrota da Itália, favorita e bicampeã da Liga das Nações, tende a provocar uma reavaliação interna da seleção europeia. O time que chega ao topo com o ouro olímpico e o título mundial agora precisa entender por que cede a virada em um jogo que parecia sob controle em vários momentos.
Para o Brasil, o recado é o oposto. Mesmo sem força máxima, a equipe comprova profundidade de elenco, capacidade de adaptação tática e maturidade emocional. A renovação, simbolizada por nomes como Ana Cristina e Julia Bergmann, convive com a experiência de um treinador tricampeão olímpico e pavimenta o caminho para novos objetivos.
A final deste domingo, às 8h30 (horário de Brasília), em Macau, é o próximo capítulo. O título inédito pode reposicionar a seleção no topo do vôlei internacional e redefinir metas para o próximo ciclo de grandes torneios. Em caso de nova prata, o torneio ainda assim consolida um time em transição, capaz de derrubar a melhor seleção da atualidade e recolocar o Brasil no centro da conversa sobre o futuro do vôlei feminino mundial.