Crise no PT-RJ: Marcelo Freixo desafia Quaquá por número 1313

Conflito interno no PT-RJ envolve disputa pelo número 1313 para deputado federal, com acusações de favorecimento e ameaça de ação judicial.
Redação NC News
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O número 1313, o mais cobiçado entre os candidatos a deputado federal do PT, vira estopim de uma crise aberta no partido no Rio de Janeiro. Marcelo Freixo e Lindbergh Farias acusam a direção estadual de fraudar as próprias regras internas ao entregar o número diretamente a Diego Quaquá, filho do prefeito de Maricá e vice-presidente nacional do PT, Washington Quaquá.

Manifesto, boicote à convenção e ameaça de ação judicial

A disputa explode de vez na convenção estadual do PT, realizada neste sábado no Clube de Engenharia, no Centro do Rio. Enquanto o auditório lota para homologar alianças e candidaturas, Freixo e Lindbergh decidem não aparecer em protesto contra o que chamam de “manobra” da direção fluminense.

Os dois assinam um manifesto intitulado “O PT não é capitania hereditária”, que ganha versão impressa e é distribuído dentro do evento. No texto, acusam o diretório estadual de ignorar as regras da Executiva Nacional e de submeter a estratégia eleitoral a interesses familiares. “É inaceitável que interesses familiares orientem as decisões estratégicas do PT. Nosso partido não pode se apequenar”, afirma o documento.

Freixo e Lindbergh anunciam que vão recorrer simultaneamente à Executiva Nacional e à Justiça comum para tentar reverter a decisão que deu o 1313 a Diego Quaquá. “Decisões arbitrária e ilegais são inaceitáveis e contradizem os princípios que orientam o PT. Não somos um partido de caciques. Se opor à normalização dessas manobras é obrigação de quem acredita no PT de hoje e de amanhã”, escrevem os dois líderes.

Regra nacional ignorada e disputa por símbolo eleitoral

O conflito não é apenas numérico. No PT, o 1313 funciona como símbolo de identidade e atalho para o eleitor que vota na sigla em massa. O número, que já esteve nas urnas com Washington Quaquá na eleição de 2022, costuma ser tratado como trunfo estratégico para puxar votos de legenda e ajudar a eleger a bancada.

A Secretaria Nacional de Organização do PT enviou aos diretórios estaduais um ofício, datado do dia 22, com regras claras para a escolha dos números de urna. Quando houver disputa, deve haver prioridade a quem já usou o número nas últimas eleições. Se ninguém tiver preferência, a orientação é buscar consenso. Persistindo o impasse, a regra manda realizar sorteio entre os interessados.

Freixo e Lindbergh afirmam que nada disso foi respeitado no Rio. Segundo eles, a direção estadual simplesmente atribuiu o 1313 a Diego Quaquá, presidente do PT fluminense, sem discussão coletiva, sem consulta e sem sorteio. O gesto é classificado como “arbitrário” no manifesto. “É lamentável que o debate sobre a estratégia do PT para as eleições legislativas seja submetido a interesses menores e familiares, como se o nosso partido fosse uma capitania hereditária”, dizem os autores.

Quaquá reage e disputa ganha contornos nacionais

Alvo direto da ofensiva, Washington Quaquá reage publicamente. Nas redes sociais, o prefeito de Maricá defende o filho e exalta o bastião eleitoral que construiu na cidade. Diz que Diego é “representante do município símbolo do que o PT tem de melhor” e ironiza os críticos: “O choro é livre! E os que abandonaram o barco no passado e falavam mal do PT que baixem a bola!”.

A fala mira Freixo, que construiu a carreira política no PSOL antes de migrar para o PT e assumir a presidência da Embratur. Hoje, ele é um dos principais puxadores de votos projetados pela federação PT-PV-PCdoB para a Câmara. Lindbergh, deputado federal e líder da federação, também aparece no núcleo central da estratégia petista para reforçar a base do governo Lula no Congresso.

No manifesto, os dois sublinham esse papel e vinculam a disputa interna à batalha mais ampla contra a direita no estado. Argumentam que o Rio é decisivo para enfrentar o bolsonarismo e manter sustentação parlamentar ao Planalto. A leitura é que um erro na escolha do número mais visível da chapa pode comprometer a performance da federação nas urnas.

Risco de racha na federação e pressão sobre direção nacional

A briga pelo 1313 escancara fissuras antigas no PT do Rio, onde caciques locais se enfrentam por espaço, verbas e símbolos de poder. O gesto de Freixo e Lindbergh, ao levar o caso à Justiça, sobe o tom e transforma o que poderia ser apenas uma disputa de bastidores em crise aberta, com repercussão nacional.

Na prática, a decisão de privilegiar o filho de Quaquá mexe com a lógica de montagem das chapas proporcionais. Números mais fáceis de memorizar, como o 1313, tendem a concentrar votos de legenda e fortalecer quem os carrega. Ao tirar da disputa figuras com visibilidade pública e potencial de puxar votos, como Freixo e Lindbergh, o diretório fluminense assume o risco de reduzir o desempenho coletivo da federação.

Dentro do partido, cresce a pressão para que a Executiva Nacional intervenha. Aliados dos dois parlamentares argumentam que, se a direção central se omitir, abre-se precedente para que outras seções estaduais tratem as listas como propriedade pessoal de seus dirigentes. A crítica mira o coração do discurso histórico do PT sobre democracia interna.

Apesar do embate, Freixo tenta separar a disputa eleitoral da relação com o governo federal. Mantém o compromisso de apoiar o presidente. “Estarei nas ruas todos os dias fazendo campanha para Lula. Isso é o mais importante. Mas não podemos fechar os olhos para tamanha arbitrariedade”, afirma.

O que vem agora para o PT no Rio

O próximo capítulo se desloca para dois tabuleiros: o jurídico e o político. No primeiro, a expectativa é que Freixo e Lindbergh ingressem com ação questionando a validade da decisão do diretório estadual, usando como base o ofício da Secretaria Nacional de Organização e a legislação eleitoral.

No campo político, a incógnita é como a Executiva Nacional vai reagir. Uma intervenção direta para rever o número 1313 pode ampliar a insatisfação do grupo de Quaquá, mas ignorar o protesto de duas das principais vitrines eleitorais do partido também cobra preço alto. Em plena montagem das chapas para as eleições de 2024, o PT do Rio se vê dividido entre manter a autoridade de uma liderança local poderosa e preservar a imagem de que segue regras democráticas, sem ceder a arranjos familiares.

Enquanto o 1313 segue no centro da disputa, a convenção no Clube de Engenharia tenta exibir normalidade, com discursos sobre unidade e enfrentamento ao bolsonarismo. Nos corredores, porém, a sensação é de que o número virou mais que um código de urna: tornou-se teste de até onde o PT está disposto a ir para conciliar pragmatismo eleitoral e coerência com o discurso de democracia interna.

O que é o número 1313 e por que ele é tão disputado?

O 1313 é um dos principais números de urna associados ao PT para deputado federal. Por ser fácil de memorizar e ligado diretamente à sigla, tende a concentrar votos de legenda e a ajudar a puxar a eleição de outros candidatos da mesma chapa.

Quem são os principais envolvidos na disputa pelo 1313?

De um lado estão Marcelo Freixo e Lindbergh Farias, principais puxadores de votos da federação PT-PV-PCdoB no Rio. Do outro, Washington Quaquá, prefeito de Maricá e vice-presidente nacional do PT, e seu filho Diego Quaquá, presidente estadual do partido e atual detentor do número 1313 definido pelo diretório fluminense.

O que dizem as regras do PT sobre a escolha de números de urna?

De acordo com ofício recente da Secretaria Nacional de Organização, quando há disputa por um número, tem prioridade quem já o usou nas últimas eleições. Se não houver preferência clara, os diretórios devem buscar consenso e, não sendo possível, realizar sorteio entre os interessados. Freixo e Lindbergh alegam que essa regra foi ignorada no caso do 1313 no Rio.


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