Thiago Almada, meia argentino de 25 anos do Atlético de Madri, está no centro de uma disputa de mercado em que o Flamengo aparece em desvantagem. O jogador hoje demonstra preferência pelo River Plate, enquanto o clube carioca tenta mantê-lo na mesa sem romper seus limites financeiros.
Viagem à Argentina e recado duro sobre dinheiro
José Boto, diretor de futebol do Flamengo, volta da Argentina na madrugada desta terça-feira e abre o jogo no desembarque do Galeão. Confirma que tratou da possível contratação de Almada, mas insiste que o clube não se submete a leilões.
“Aquilo que eu fui lá dizer é que nós não entraríamos em leilões. Aquilo que já tínhamos combinado é aquilo que vai ser, se ele quiser vir para o Flamengo”, afirma o dirigente. A frase resume a estratégia rubro-negra: interesse alto, disposição para gastar, mas dentro de um teto claramente definido.
Boto nega que tenha viajado para fazer charme ou campanha pessoal junto ao atleta. “O motivo da minha ida à Argentina não foi convencer o Almada, porque isso seria estúpido da parte do Almada se eu tivesse que ir para convencê-lo. Ele jogou aqui seis meses e sabe da grandeza do Flamengo, assim como nós todos”, diz, lembrando a passagem do meia pelo Botafogo.
Conta não fecha: de 20 milhões a 36 milhões de euros
Por trás do discurso público, está uma equação financeira pesada. A pedida gira em torno de 20 milhões de euros, mas, na prática, o número explode quando entram impostos e prazos de pagamento. “Uma coisa é pagar 20 milhões em um ano. Outra é pagar em dois, três ou cinco. Isso faz toda a diferença numa negociação”, explica Boto.
Ele detalha o impacto da carga tributária em operações internacionais. “Quando falamos de uma transferência de 20 milhões, não são 20 milhões. São quase 24 milhões por causa dos impostos. Se são 30, passam para 36.” A referência mostra o patamar da discussão, em um cenário em que o Flamengo tenta conciliar ambição esportiva com responsabilidade fiscal.
O dirigente admite que poucos clubes brasileiros suportam esse tipo de operação. Por isso, insiste na ideia de que o Flamengo não pagará “preço de promessa” por um jogador consolidado na Europa. “Nós não podemos querer jogadores no auge da carreira e pagar como se fossem promessas. Comer lagosta a preço de sardinha não existe. E comer sardinha pensando que está a comer lagosta também não”, dispara.
Almada inclina a balança para Buenos Aires
Enquanto o Flamengo calcula cada centavo, Thiago Almada olha para outro lado. O meia prioriza o River Plate neste momento, mesmo com o clube argentino em má fase, eliminado da Copa da Argentina, lanterna da liga local e apenas disputando a Sul-Americana.
A escolha, segundo relatos da imprensa argentina, vai além do campo. Fatores pessoais e familiares pesam na decisão. Gastón Pestarino, jornalista especializado na cobertura do River, afirma que a vivência recente de Almada no Brasil influencia o cenário. “Conhecendo a realidade de viver tanto no Rio quanto em Buenos Aires, ele escolhe Buenos Aires”, resume.
O passado no Rio, onde defendeu o Botafogo por seis meses, não deixou traumas, mas também não criou laços definitivos. Almada conhece a estrutura de clubes grandes, sabe da visibilidade do Flamengo e do potencial esportivo de um elenco que acumula títulos nacionais e continentais. Mesmo assim, o conforto de ficar perto de casa e da família fala mais alto neste momento, se não surgir uma proposta europeia atraente.
Flamengo evita dependência e testa o limite da torcida
No Ninho do Urubu, a diretoria tenta blindar o planejamento esportivo de um possível “não” de Almada. Boto insiste que o clube trabalha com mais de um alvo para reforçar o meio-campo. “O Flamengo não se fixa só num jogador. Joga, às vezes, em vários tabuleiros”, afirma, em clara referência a nomes como Luiz Henrique, monitorado no mercado.
O dirigente admite, porém, que o tempo também pesa. Há um limite para esperar a definição de Almada e do Atlético de Madri. “Não vamos esperar eternamente. Contratações deste nível exigem paciência para não se pagar mais do que se deve. Mas também não vamos esperar para sempre”, alerta.
A mensagem mira o vestiário e a arquibancada. A comissão técnica deseja um reforço de impacto para qualificar o meio, enquanto o departamento financeiro tenta evitar um rombo de dezenas de milhões de euros. A torcida, que acompanha cada passo da negociação, é chamada à compreensão. “Pode vir o Almada, pode vir outro, pode não vir ninguém. Mas, se vier algum jogador, vai ser nas condições que o Flamengo quer, e não em leilões”, reforça Boto.
A disputa por Thiago Almada expõe o choque entre desejo e realidade no futebol brasileiro. De um lado, um clube com orçamento robusto para padrões nacionais, mas pressionado por impostos e limites de caixa. De outro, um jogador de 25 anos em posição confortável, capaz de escolher entre permanecer perto de casa, voltar ao Brasil ou buscar nova chance na Europa.
O desfecho ainda está em aberto. O Flamengo mantém a porta entreaberta para Almada, mas já prepara caminhos alternativos para não ficar refém de uma única negociação. O River tenta se aproveitar da preferência do atleta para superar sua crise esportiva com um nome de peso. A decisão final do meia deve redesenhar o mercado sul-americano neste meio de temporada e testar até onde clubes da região conseguem ir para competir com a Europa sem romper a própria saúde financeira.