A Polícia Federal aponta que Anna Catarina Viana Rocha, filha do senador Weverton Rocha Marques de Sousa (PDT-MA), assume papel central na gestão financeira de dois postos de combustíveis ligados à família e na circulação de R$ 7 milhões entre empresas do grupo. A suspeita, segundo decisão recente do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), é de lavagem de dinheiro associada a contratos públicos e possível corrupção passiva.
A apuração, que avança nesta semana com novas quebras de sigilo e buscas autorizadas pelo STF, mira a movimentação interna dos postos Petro São Francisco e Petro São José, no Maranhão, e o caminho do dinheiro até empresas e contas vinculadas ao entorno político e familiar do senador.
PF vê Anna como gestora financeira dos postos
De acordo com a representação enviada ao STF, Anna Catarina “exerceria a gestão operacional e financeira dos postos Petro São Francisco e Petro São José”. A Polícia Federal descreve que ela acompanha saldos, monta listas de pagamentos, realiza transferências bancárias e trata diretamente com contadores das empresas.
Os investigadores afirmam que a atuação da filha do senador vai muito além da participação societária formal, considerada minoritária. “Sua atuação é mais intensa do que a participação societária formal minoritária poderia indicar”, registra o documento submetido ao ministro André Mendonça.
O material encaminhado ao Supremo aponta ainda que Anna Catarina se insere em um núcleo familiar com funções distribuídas na estrutura patrimonial ligada a Weverton Rocha. A PF descreve papéis específicos para esposa, irmãs e filha do senador em diferentes frentes de negócios, da administração de propriedades rurais a operações financeiras.
Contratos de mútuo após repasses de R$ 5 mi e R$ 2 mi
Um dos trechos mais sensíveis da representação trata de duas transferências de alto valor partindo da Petro São Francisco. Segundo a PF, Anna Catarina “teria encaminhado contratos de mútuo após transferências de R$ 5.000.000,00 da Petro São Francisco à DJ Agropecuária e de R$ 2.000.000,00 à Rocha Holding”. Os documentos, em tese, serviriam para formalizar a destinação de um total de R$ 7.000.000,00.
As duas empresas aparecem no inquérito como peças de um arranjo societário que, na visão dos investigadores, pode servir à circulação de recursos de origem ainda não esclarecida. A DJ Agropecuária é descrita como receptor de parte relevante dos repasses, enquanto a Rocha Holding surge como instrumento para movimentar valores de interesse do senador.
Na narrativa policial, esses contratos de mútuo se encaixam em uma dinâmica financeira “não linear”, com fragmentação de valores entre pessoas físicas e jurídicas, depósitos em espécie e compensações internas. Em tese, o objetivo seria dificultar o rastreamento da origem e do beneficiário final dos recursos.
Depósito em espécie e caminho até contas do senador
A decisão do STF menciona ainda um episódio específico envolvendo dinheiro vivo. De acordo com a PF, Anna Catarina “teria organizado logística para depósito de numerário em 24/4/2023, com posterior transferência às contas de Weverton”. O documento não detalha o valor do depósito, mas associa a operação ao fluxo de recursos sob suspeita.
Os investigadores descrevem uma engrenagem em que o senador, em tese, formula demandas, indica beneficiários, acompanha repasses e interfere em decisões patrimoniais, enquanto operadores financeiros, empresas e familiares executam as ordens. O possível crime antecedente à lavagem, ainda em apuração, estaria ligado a vantagens indevidas no ambiente do INSS, em contratos de descontos associativos sobre benefícios previdenciários.
A PF sustenta que, a partir da análise do celular de Weverton Rocha, emergiu um quadro mais amplo de movimentação de dinheiro em espécie, pagamento de despesas pessoais e familiares, aquisição de imóveis e investimentos em bens de alto valor, inclusive por meio de terceiros. O caminho do dinheiro também alcançaria empresas contratadas por prefeituras maranhenses, construtoras e outros agentes políticos locais.
STF autoriza buscas focadas em documentos e mensagens
Para aprofundar a linha de investigação que envolve os postos de combustíveis e as empresas do grupo, o ministro André Mendonça autorizou nova rodada de medida sigilosa. A decisão libera a Polícia Federal a realizar buscas com foco em “planilhas, agendas, contratos, arquivos contábeis e comunicações com Weverton”, especificamente em endereços ligados a Anna Catarina e outros alvos.
O relator ressalta, no entanto, que se trata de exame provisório, baseado em hipóteses investigativas, e que a decretação de medidas cautelares não implica reconhecimento de culpa. O despacho delimita a atuação da PF e veda uma devassa indiscriminada, determinando que sejam apreendidos apenas documentos relacionados à investigação em curso.
Os investigadores também obtêm autorização para acesso a dados de localização de aparelhos celulares, por meio das chamadas Estações Rádio-Base, com o objetivo de reconstruir deslocamentos e encontros entre os envolvidos. A medida, segundo o despacho, busca reforçar ou afastar suspeitas sobre a participação de cada personagem no circuito financeiro descrito.
Efeitos políticos e próximos passos da apuração
A ofensiva da PF sobre o núcleo familiar de Weverton Rocha pressiona o senador no campo político. A suspeita de que ele seja beneficiário econômico das movimentações ligadas aos postos e às empresas do grupo expõe o parlamentar a desgaste público e a questionamentos no Congresso, ainda que não haja, neste momento, denúncia formal nem condenação.
A investigação também lança luz sobre a relação entre negócios privados e contratos com o poder público em cidades do Maranhão. Em tese, empresas citadas na decisão se beneficiariam de vínculos com agentes políticos locais para obter contratos municipais, com parte dos recursos depois redirecionada por uma teia de empresas, mútuos e operações em espécie.
A defesa de Weverton Rocha e de Anna Catarina ainda não se manifesta nos autos citados, mas deve contestar as suspeitas e defender a legalidade das operações financeiras. A reportagem procura os representantes do senador e de sua filha e mantém espaço aberto para as versões de todos os citados.
Os próximos meses devem ser decisivos para o rumo do caso. A PF precisa analisar planilhas, contratos, mensagens e extratos bancários apreendidos, além de cruzar os novos dados com o conteúdo do celular do senador e de outros alvos. O material pode sustentar uma futura denúncia por lavagem de dinheiro e corrupção passiva ou, ao contrário, levar ao arquivamento parcial de linhas de apuração.
O avanço ou recuo da investigação tende a influenciar o ambiente político maranhense e nacional, em meio a debates sobre transparência no uso de recursos públicos e a pressão por regras mais rígidas de controle sobre operações entre empresas de famílias de políticos e entes estatais.
O que exatamente a PF investiga no caso de Anna Catarina?
A Polícia Federal investiga se Anna Catarina Viana Rocha, filha do senador Weverton Rocha, centraliza a gestão financeira dos postos Petro São Francisco e Petro São José e participa de repasses de R$ 7 milhões, incluindo contratos de mútuo com DJ Agropecuária e Rocha Holding, em um contexto de suspeita de lavagem de dinheiro.
Essa decisão do STF já condena o senador ou sua filha?
A decisão recente do ministro André Mendonça, no STF, não condena o senador Weverton Rocha nem sua filha, Anna Catarina; ela apenas autoriza buscas, quebras de sigilo e outras medidas cautelares para aprofundar a investigação da PF, em caráter provisório, sem julgamento do mérito nem reconhecimento de culpa.
A investigação está em andamento e as suspeitas descritas são hipóteses da apuração. Nenhuma das pessoas citadas foi denunciada ou condenada, e todas têm direito à presunção de inocência. O espaço segue aberto para manifestação das defesas.