A Polícia Federal descreve, em decisão do ministro André Mendonça, um circuito de entregas em dinheiro vivo e voos privados ligado ao senador Weverton Rocha Marques de Sousa. O documento aponta movimentação de valores que chegam a R$ 1,5 milhão por vez, associada a operadores financeiros, empresas de táxi aéreo e deslocamentos entre Brasília e o Maranhão.
O caso ganha peso político e econômico porque atinge o entorno de um senador em exercício e põe sob suspeita contratos públicos municipais no Maranhão. A investigação mira tanto a origem dos recursos, ligada em tese a corrupção e fraudes, quanto a forma como o dinheiro circula em espécie, por terra e pelo ar, até chegar a beneficiários finais.
Dinheiro vivo, planilhas e aeroportos
De acordo com a decisão, a apuração nasce de dados extraídos do celular atribuído a Weverton, cruzados com informações da Operação Sem Desconto. A PF trabalha com a hipótese de que o parlamentar se beneficie de lavagem de dinheiro ligada, entre outros pontos, a descontos associativos em benefícios do INSS e a contratos de prefeituras maranhenses.
A representação descreve uma engrenagem que mistura contas de pessoas físicas e jurídicas, uso recorrente de numerário em espécie, pagamento de despesas pessoais e familiares e investimentos em imóveis, veículos, propriedades rurais e empresas de radiodifusão. Segundo o documento, os valores não seguiriam um caminho único: seriam fragmentados, compensados e deslocados por meio de empresas diferentes, parentes, operadores e depósitos em dinheiro.
Dentro dessa estrutura, a PF aponta o advogado Willer Tomaz de Souza como peça central na sustentação financeira e logística. A decisão relata que ele é associado a empresas, imóveis, aeronaves, pilotos, funcionários e operadores financeiros. Para os investigadores, a rede ligada a Willer funcionaria como um “verdadeiro hub financeiro, patrimonial e logístico” colocado à disposição de beneficiários, “dentre os quais estaria Weverton Rocha”.
Trechos da decisão relatam movimentação de grandes quantias em espécie associadas à logística aérea entre Brasília e Maranhão e mencionam apreensão de R$ 1 milhão em 2026, que seria destinado a ex-assessor do senador. O ministro registra que “a possível utilização de dinheiro em espécie também é associada à logística aérea”, com “lançamentos e repasses em espécie de R$ 500.000,00, R$ 1.000.000,00, R$ 1.500.000,00”, entre outros valores, controlados por uma funcionária identificada como Fayla.
R$ 1 milhão apreendido e códigos em mensagens
Entre maio e julho de 2024, planilhas atribuídas a Fayla registrariam, segundo a PF, sucessivas entregas em espécie nesses valores. As anotações aparecem, de acordo com a decisão, próximas a tratativas sobre aviões privados, pilotos, hangares e deslocamentos entre Brasília e o Maranhão. A suspeita é que parte desse dinheiro viajasse em aeronaves ligadas ao grupo investigado.
Em um trecho citado por Mendonça, a PF afirma que “a possível utilização de dinheiro em espécie também é associada à logística aérea” e relaciona esse fluxo aos voos operados por empresas de táxi aéreo e pilotos vinculados a Willer Tomaz. O documento registra que “a representação menciona fato superveniente de apreensão de R$ 1.000.000,00 em espécie, em 11/5/2026, em poder de pessoa que, em tese, destinaria o numerário a ex-assessor de WEVERTON”.
O episódio reforça, para os investigadores, a suspeita de que uma rede de intermediários movimenta grandes quantias em dinheiro vivo fora do sistema bancário. A apreensão de R$ 1 milhão ocorre em paralelo às negociações sobre voos e logística, o que, em tese, liga a circulação física do dinheiro à estrutura de aviação privada.
A PF destaca ainda diálogos que relacionam o núcleo familiar do senador ao fluxo financeiro. A filha, Anna, aparece em mensagens como responsável por postos de combustíveis. Em um dos trechos, “PF registra episódio em que WEVERTON orienta ANNA a ir à residência de DANIEL, com referências a ‘processo’ e ‘páginas’, interpretadas como valores em espécie”.
Na mesma linha, o documento afirma que, em 24/4/2023, teriam ocorrido depósitos em dinheiro nas contas de postos de combustíveis, seguidos de transferências para a conta pessoal de Weverton. Para a PF, movimentos como esse sugerem uso de empresas do grupo familiar como canais de passagem de recursos.
Rede empresarial e bens de luxo sob suspeita
O relatório descreve uma divisão de tarefas entre parentes do senador: a esposa ligada à Rocha Holding, a filha Anna na operação de postos, irmãs na gestão de propriedades rurais e empresas de radiodifusão. A suspeita é que parte do patrimônio circule em nomes de terceiros ou de pessoas jurídicas diferentes do beneficiário econômico.
Um exemplo é um imóvel de alto padrão no Lago Sul, em Brasília, apontado como residência de Weverton. Segundo a decisão, o senador participa das tratativas, em que se mencionam R$ 4 milhões de sinal e R$ 2 milhões de saldo. A compra, porém, é formalizada em nome da WT Administração de Imóveis e Bens S/A, empresa ligada a Willer Tomaz, pelo total de R$ 6 milhões. Essa dissociação entre uso do bem e registro formal é tratada como um dos pontos centrais da apuração.
A PF aponta ainda que, a partir de fevereiro de 2024, parte relevante da movimentação passa a circular por três empresas: Jota Comunicação S/A, Rocha Holding Patrimonial Ltda. e DJ Agropecuária Comércio e Prestação de Serviços Ltda. A hipótese é que essas pessoas jurídicas funcionem como nós de redistribuição de recursos, conectando o núcleo familiar de Weverton à estrutura de Willer.
Para aprofundar a investigação, o ministro André Mendonça autoriza buscas e o afastamento do sigilo de dados telefônicos, restrito à localização por antenas de celular. A decisão permite “apreensão de dinheiro em espécie, obras de arte, joias, veículos e itens de luxo, desde que haja indícios de relação com os crimes” sob apuração. O foco declarado é seguir o rastro do dinheiro sem transformar os escritórios de advocacia em alvo genérico, preservando outros clientes e profissionais não relacionados ao caso.
Alcance político e próximos passos
Pelo que o documento descreve, a investigação não se limita ao entorno direto do senador. A PF afirma que o suposto esquema alcança empresas contratadas por prefeituras maranhenses, construtoras locais e agentes políticos vinculados a contratos municipais. A suspeita de que parte do dinheiro em espécie venha desse ambiente amplia o potencial de impacto sobre a administração pública no Estado.
No plano político, a apuração tende a pressionar o senador e seus aliados em Brasília e no Maranhão. A análise de novas quebras de sigilo, movimentações bancárias e registros de voo pode levar a pedidos de bloqueio de bens e a novas medidas cautelares. Eventuais denúncias criminais ainda dependem do avanço das diligências e da concordância da Procuradoria-Geral da República.
A decisão ressalta que o exame é provisório e não implica culpa dos investigados. Nenhuma das pessoas citadas é considerada culpada, e a hipótese de lavagem e corrupção passiva ainda passa por verificação. A defesa de Weverton Rocha, de Willer Tomaz e dos demais mencionados é ouvida pela PF e pelo Supremo ao longo do processo. A reportagem procura os representantes dos investigados e mantém espaço aberto para manifestação.
O caso tende a alimentar debates sobre controle do uso de dinheiro em espécie, fiscalização da aviação executiva e transparência em contratos municipais. A forma como o Supremo e os órgãos de controle lidarem com essa rede de repasses e logística aérea pode influenciar futuras medidas legislativas e investigações em outras regiões do país.
O que é a investigação sobre Weverton Rocha e a PF?
A investigação descrita na decisão do ministro André Mendonça apura, neste momento, suspeitas de lavagem de dinheiro e possível corrupção passiva envolvendo o senador Weverton Rocha, operadores financeiros e empresas ligadas a contratos públicos no Maranhão, sem que haja condenação ou prova definitiva de crime contra os citados até agora.
Por que a PF fala em voos privados e dinheiro em espécie?
A Polícia Federal aponta, na representação, que entre maio e julho de 2024 controles de Fayla registram repasses em espécie de R$ 500 mil, R$ 1 milhão e R$ 1,5 milhão, ligados a tratativas sobre aviões privados, pilotos e hangares entre Brasília e Maranhão, sugerindo uso da aviação executiva para transportar valores fora do sistema bancário.
O que se sabe sobre o R$ 1 milhão apreendido em 2026?
A decisão relata que, em 11 de maio de 2026, a PF apreende R$ 1 milhão em espécie com uma pessoa que, em tese, destinaria o dinheiro a um ex-assessor de Weverton Rocha, fato usado como indício de que grandes quantias em espécie seguem circulando em benefício do grupo investigado, ainda sem prova definitiva de crime.