Tatuador é preso no RS por crimes contra 20 mulheres em 4 cidades

Vinícius Roig é investigado por violência contra mulheres em diversas cidades do Rio Grande do Sul.
Redação NC News
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O tatuador Vinícius Roig, 47, está preso preventivamente e vira alvo central de uma série de investigações por estupro, agressões físicas, violência psicológica, perseguição e violência sexual contra mulheres no Rio Grande do Sul. A prisão é decretada para garantir a ordem pública, proteger as vítimas e evitar novos crimes.

O caso envolve ao menos 19 ocorrências em quatro cidades gaúchas e mais de 20 mulheres que relatam abusos em diferentes períodos da vida. A mobilização nas redes sociais, liderada por uma ex-companheira e pela irmã do suspeito, transforma relatos privados em um processo criminal de grande repercussão.

Relato nas redes desencadeia onda de denúncias

A virada começa quando Michele Duarte, professora de Torres, decide tornar público o que afirma ter vivido ao lado de Roig após o fim do relacionamento. Ela descreve uma escalada de controle e violência que, segundo conta, termina em espancamentos. “Ele destruiu meu rosto. […] Eu olhei meu corpo cheio de marca, de hematomas. Todo doído, todo”, relata.

O depoimento de Michele circula nas redes e inspira a criação da página “Verdade Seja Dita”, que passa a reunir relatos de outras mulheres que dizem ter se relacionado com o tatuador. Em pouco tempo, aparecem dezenas de histórias, algumas mencionando abusos desde a adolescência, entre 14 e 15 anos.

Juliana Roig, irmã do investigado, decide apoiar publicamente Michele e compartilhar o conteúdo. A escolha rompe o silêncio dentro da própria família e incentiva novas manifestações. “A gente nunca imaginou que as coisas fossem tomar essa proporção, porque começaram a surgir dezenas de mulheres com relatos brutais, muito impactantes”, afirma.

Investigação se espalha por quatro cidades

Os relatos motivam um pente-fino de autoridades em registros anteriores envolvendo o nome de Roig. A Polícia Civil informa que, hoje, investiga 19 ocorrências em que o tatuador aparece como suspeito em um intervalo de cerca de dois anos. Os casos se concentram em Torres, Novo Hamburgo, Sapucaia do Sul e Cachoeirinha.

Em Torres, a delegacia local conduz um inquérito específico sobre suspeita de estupro contra a última ex-companheira. O delegado Marcos Veloso explica que o foco imediato é acolher as mulheres e colher provas com o mínimo de revitimização possível. “A gente precisa acolher essas vítimas da melhor maneira possível pra que elas relembrem essas histórias muito pesadas para elas, mas que a gente precisa fazer algumas perguntas para fazer a devida instauração dos inquéritos policiais”, afirma.

Paralelamente, o Ministério Público já apresenta três denúncias contra Roig, por crimes cometidos contra mulheres em municípios como Torres e Sapucaia do Sul. As peças são protocoladas em 1º de setembro, 1º de abril e 9 de junho e aguardam análise do Judiciário. O promotor de Justiça de Torres, Márcio Roberto Silva de Carvalho, faz questão de ressaltar que a atuação não nasce apenas da pressão nas redes.

“A repercussão pública ocorreu agora em razão das manifestações e denúncias divulgadas nas redes sociais. Contudo, é importante destacar que o Ministério Público já vinha atuando no caso desde o momento em que tomou conhecimento dos fatos”, diz o promotor.

Prisão preventiva busca evitar novos episódios

Com o avanço das investigações e o volume de relatos, a Justiça decreta a prisão preventiva de Vinícius Roig. A medida tem três pilares: preservar a ordem pública, proteger as vítimas e evitar novos crimes, além de afastar o risco de fuga do suspeito. Ele é localizado e detido em Balneário Camboriú, em Santa Catarina.

Ao justificar a necessidade de mantê-lo preso, a decisão leva em conta o padrão reiterado descrito nos inquéritos. Segundo o Ministério Público e a Polícia Civil, há relatos de agressões físicas, humilhações, controle psicológico, perseguição e violência sexual. A rede de apoio “Juntas por Todas”, de Porto Alegre, já acompanha mais de 20 mulheres ligadas ao caso.

A psicóloga Nádia, integrante do movimento, descreve um roteiro comum entre os depoimentos. “Muitas vítimas relataram um ciclo de violência que começou com controle psicológico e culminou em agressão física e sexual”, afirma. O grupo oferece acolhimento psicológico, orientação jurídica e apoio na formalização de boletins de ocorrência.

Defesa tenta reagir, e Justiça barra censura

Enquanto cresce a pressão por responsabilização, Roig tenta conter a exposição. Nas redes, publica um texto em que reconhece que há “acontecimentos que precisam ser enfrentados com seriedade”, mas sustenta que parte das informações estaria distorcida ou fora de contexto. Ele registra ainda ocorrência contra algumas mulheres por calúnia e tenta retirar do ar a página que concentra os relatos.

A Justiça nega o pedido liminar para derrubar o perfil. Na decisão, a juíza aponta que as manifestações não são “produzidas no vácuo” e que existe “substrato fático concreto” que dá suporte aos relatos. O entendimento reforça o peso dos depoimentos já colhidos por delegacias e pelo Ministério Público.

O Tribunal de Justiça informa que os processos tramitam sob segredo, o que impede a divulgação de detalhes sobre as investigações e as denúncias já oferecidas. A defesa do tatuador ainda não se manifesta publicamente sobre o mérito das acusações.

Rede de apoio fortalece vítimas e pressiona sistema

O caso expõe a engrenagem da violência de gênero e a distância entre o primeiro episódio e a denúncia formal. Muitas mulheres só procuram a polícia depois que veem outras vítimas se manifestando. A combinação entre redes sociais, movimentos de mulheres e familiares do agressor cria um ambiente em que o silêncio deixa de ser a única opção.

Para Juliana Roig, a mobilização tem um objetivo claro. “A gente não pensa em vingança. A gente pensa em justiça. Porque isso tem que ser parado”, diz. Michele, que hoje tem medida protetiva contra o ex-companheiro, reforça o mesmo recado. “Não imaginava parar nas redes. Mas, já que parou, quero justiça. Quero que a Justiça cumpra o papel dela”, afirma.

Autoridades e grupos de apoio orientam que novas vítimas procurem ajuda. No Rio Grande do Sul, denúncias podem ser feitas pelo telefone 181, na Delegacia da Mulher ou pela Delegacia Online da Polícia Civil. O entendimento compartilhado por promotores, policiais e psicólogos é que o número de relatos ainda pode crescer.

As próximas semanas devem ser decisivas para o futuro de Vinícius Roig. O Judiciário precisa decidir se recebe as três denúncias já apresentadas pelo Ministério Público e se amplia ou não o alcance da prisão preventiva diante de novos elementos. A forma como o sistema de Justiça responde a esse caso tende a influenciar a disposição de outras mulheres, em todo o estado, a romper o silêncio e procurar proteção institucional.

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