Pagamentos feitos pela empresária e lobista Roberta Luchsinger ao ex-chefe de Gabinete de Luiz Inácio Lula da Silva, Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, acendem um novo foco de crise no Planalto e na campanha à reeleição do presidente. As transferências, reveladas em meio à investigação da Polícia Federal sobre fraudes bilionárias no INSS, já levaram à saída de Marcola da equipe eleitoral e aproximam o inquérito do núcleo político e familiar de Lula.
Pagamentos sob suspeita e saída de Marcola
A PF rastreia transferências de Roberta para contas ligadas a Marcola, estimadas em cerca de R$ 80 mil, dentro de um pacote que o próprio ex-assessor descreve como um empréstimo pessoal de R$ 249 mil. Ele afirma que o dinheiro é lícito e que a operação está encerrada. “Se trata de um empréstimo pessoal” e “foi uma movimentação de natureza estritamente privada”, declarou.
As apurações ganham peso político porque Marcola ocupa, até recentemente, um dos postos mais sensíveis do governo: o comando do gabinete presidencial. Homem de confiança de Lula há anos, ele cuidava da agenda do presidente e filtrava ligações e pedidos que chegavam ao Planalto. Com a revelação das transferências, ele comunicou Lula e a cúpula da campanha e pediu para sair, numa tentativa de conter o desgaste.
Dentro do comitê eleitoral, o episódio virou assunto dominante desde a convenção que oficializa a candidatura de Lula à reeleição em 1º de agosto de 2026. Petistas admitem, reservadamente, preocupação com o efeito corrosivo de mais um caso envolvendo suspeitas de corrupção às vésperas da disputa. Lula, segundo interlocutores, reagiu com irritação. Ao ser informado dos pagamentos, teria sido categórico com o ex-assessor: “Não pode mais ficar aqui”.
Roberta, Lulinha e o rastro do INSS
Roberta Luchsinger é peça antiga do xadrez de Brasília e aparece com destaque na investigação sobre fraudes na Previdência Social. A PF apura um esquema estimado em R$ 6 bilhões em prejuízos ao INSS, com atuação de lobistas, servidores e empresários. Entre eles está Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, preso em 12 de setembro de 2025, apontado como articulador de contratos e benefícios irregulares.
Roberta prestou serviços a Careca e é citada em relatórios policiais que mapeiam a rede de influência em torno do sistema previdenciário. Há registros de pagamentos de R$ 1,5 milhão entre uma empresa ligada ao lobista e uma companhia associada a ela. A defesa nega irregularidades e afirma que todas as operações têm lastro contratual.
O caso ganha outra camada porque Roberta mantém relação próxima com Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha. Filho do presidente, ele responde hoje a três inquéritos no Supremo Tribunal Federal, um deles por suspeita de tráfico de influência, o que rejeita. A PF vê os dois como personagens relevantes na engrenagem política em torno da Previdência e de empresas públicas.
Mensagens apreendidas em celulares na operação Sem Desconto, que mira as fraudes no INSS, mostram uma rotina de conversas entre Roberta e Lulinha sobre negócios, contratos e perspectivas de ganhos. Em um dos diálogos, ela pergunta se deve seguir adiante com uma operação, e ele responde de forma objetiva: “Pode fechar”. Relatórios internos indicam que investigadores enxergam ali indícios de atuação coordenada para influenciar decisões e acessar recursos públicos.
Viagens, offshores e a pressão sobre o governo
Os inquéritos também expõem a proximidade pessoal entre os dois. A PF identificou ao menos seis viagens em que Roberta e Lulinha aparecem com o mesmo código de reserva em companhias aéreas, incluindo deslocamentos a Portugal e diversos trechos domésticos. Os deslocamentos, segundo a investigação, reforçam o vínculo e a frequência de encontros presenciais.
Nos diálogos interceptados, há comentários sobre como receber e guardar dinheiro fora do radar da Receita Federal. Um dos destinos cogitados é Luxemburgo, conhecido como paraíso fiscal europeu. Roberta aparece sugerindo o país como opção “segura” para blindar valores, em conversas que agora são esmiuçadas por delegados e procuradores.
Ela, porém, tenta conter o estrago público. Em entrevista anterior, afirmou que apenas apresentou Lulinha a Careca do INSS por cordialidade, sem qualquer propósito comercial: “Jamais apresentei os 2 com intuito de negócio. Tanto que eles nunca tiveram transações comerciais”, disse. O elo, para ela, seria de circulação comum em Brasília, não de sociedade oculta.
Seu advogado, Roberto Podval, reforça a linha de defesa e adota silêncio calculado. “Roberta Luchsinger desconhece o assunto e responderá só nos autos do processo”, afirma. A estratégia é empurrar todas as explicações para o inquérito sigiloso, longe da arena política e da cobertura diária.
Campanha em alerta e próximos passos da PF
No entorno presidencial, a avaliação é que a crise tem potencial de se expandir. A ligação entre uma lobista investigada, o ex-chefe de gabinete e o filho do presidente forma uma equação explosiva em ano eleitoral. O PT tenta demonstrar reação rápida com o afastamento de Marcola, mas sabe que a narrativa da oposição tende a explorar as suspeitas sobre o entorno familiar de Lula e o histórico de escândalos de corrupção no partido.
A PF, por sua vez, avança na análise de documentos, quebras de sigilo bancário e telemático e fluxos de dinheiro dentro e fora do país. O foco imediato é rastrear a origem dos recursos movimentados por Roberta, a natureza exata das transferências a Marcola e o papel de empresas ligadas a Careca do INSS em contratos com a Previdência e outras estatais.
Investigadores não descartam novos depoimentos, conduções coercitivas e possíveis indiciamentos à medida que o rastreamento financeiro evoluir. Os relatórios devem esclarecer se os pagamentos a Marcola são, como ele sustenta, uma operação privada isolada ou se se inserem em um circuito mais amplo de influência sobre decisões governamentais.
Enquanto isso, o Planalto tenta blindar Lula de impactos diretos, restringindo manifestações públicas ao discurso de respeito às instituições e à autonomia da PF. Nos bastidores, ministros e dirigentes partidários já mapeiam cenários de agravamento da crise, de eventual denúncia formal contra aliados e até de necessidade de ajustes mais profundos na estrutura política da campanha.
O rumo do caso nos próximos meses pode redefinir não apenas o tom da disputa eleitoral, mas também o espaço real de manobra do governo na agenda de Previdência e combate a fraudes. O ponto central, agora, é se a investigação confirmará um circuito ilegal de dinheiro e influência no entorno do presidente ou se os personagens conseguirão sustentar a versão de negócios privados sem conexão com o poder público.
Quem é Roberta Luchsinger e qual sua relação com Lulinha?
Roberta Luchsinger é empresária e lobista atuante em Brasília, citada em investigação da Polícia Federal sobre fraudes de R$ 6 bilhões no INSS, e mantém relação próxima com Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, com quem troca mensagens sobre negócios, faz viagens em comum e discute possíveis operações financeiras, segundo autos da operação Sem Desconto.
Por que Roberta Luchsinger fez pagamentos a ex-assessor de Lula?
Roberta Luchsinger fez pagamentos estimados em cerca de R$ 80 mil ao ex-chefe de Gabinete de Lula, Marco Aurélio “Marcola”, que afirma se tratar de um empréstimo pessoal de R$ 249 mil já quitado, sem relação com sua função pública, enquanto a Polícia Federal apura a origem, frequência e contexto dessas transferências dentro do inquérito sobre fraudes no INSS.
Qual a ligação de Roberta Luchsinger com a campanha de Lula?
Roberta Luchsinger não integra formalmente a campanha, mas sua relação com o ex-chefe de Gabinete de Lula, Marcola, e com o filho do presidente, Lulinha, afeta diretamente o ambiente eleitoral, porque os pagamentos ao ex-assessor e as suspeitas de participação em fraudes no INSS alimentam narrativas de corrupção e pressionam a coordenação política da candidatura à reeleição.
Qual foi a reação de Lula ao saber das transações envolvendo Roberta Luchsinger?
Lula reage com forte irritação ao ser informado dos pagamentos de Roberta Luchsinger a Marco Aurélio “Marcola” e, segundo relatos de bastidores, encerra a permanência do assessor ao dizer que ele “não pode mais ficar aqui”, determinando na prática o afastamento imediato de um aliado histórico do gabinete e da equipe de campanha para tentar conter o desgaste político.