Cada minuto conta: como o trânsito pode comprometer o atendimento de emergência

Corrida contra o tempo até o hospital mostra como minutos perdidos no trânsito podem influenciar o atendimento de pacientes em situações graves
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O vídeo de dois motoboys abrindo caminho no trânsito para uma jovem com suspeita de infarto emocionou milhares de pessoas nas redes sociais nesta quinta-feira (6). A mobilização aconteceu nas ruas do Centro de Belo Horizonte e terminou com a chegada da paciente ao Hospital João XXIII.

Mais do que uma história de solidariedade, o episódio escancara um problema enfrentado diariamente nas grandes cidades: o trânsito pode colocar vidas em risco quando atrasa o atendimento de pessoas em situação de urgência.

A jovem, identificada como Maria Eduarda, de 18 anos, passou mal enquanto dava aula em uma escola. Colegas decidiram levá-la imediatamente ao hospital. No caminho, um motoboy percebeu o desespero dos ocupantes do carro, assumiu a dianteira da viagem e começou a abrir passagem entre os veículos, buzinando e gritando “emergência”. Outro motociclista também se juntou à ação.

O percurso entre a Praça Raul Soares e o Hospital João XXIII levou cerca de dez minutos. Segundo o motoboy Delzim, sem a ajuda dos dois motociclistas, a viagem poderia ter demorado muito mais. Veja o video:

Cada minuto pode fazer diferença entre a vida e a morte
Em situações como infarto, acidente vascular cerebral (AVC), parada cardiorrespiratória e traumas graves, o tempo é considerado um dos principais fatores para aumentar as chances de sobrevivência e reduzir sequelas.

Segundo estudos e especialistas da área da saúde, os congestionamentos representam um dos maiores desafios para os serviços de urgência e emergência. O trânsito intenso aumenta o tempo de resposta das ambulâncias, dificulta o deslocamento das equipes de resgate e compromete a chamada “janela de ouro”, período considerado decisivo para o início do tratamento.

As pesquisas apontam que, em casos de infarto e AVC, poucos minutos de atraso podem reduzir significativamente as chances de recuperação e aumentar o risco de sequelas permanentes ou até mesmo de morte.

Os impactos não se limitam ao paciente. O trânsito congestionado dificulta as manobras das ambulâncias, obriga equipes a reduzir a velocidade ou até interromper o deslocamento e aumenta o desgaste físico e emocional dos profissionais de saúde. Também há maior consumo de combustível, desgaste mecânico das viaturas e aumento do risco de acidentes durante o atendimento.

Especialista: abrir passagem não é favor, é obrigação
Para a especialista em trânsito Muriel Dutra, o trânsito deve ser visto como parte do sistema de proteção à vida.

“Em ocorrências graves, cada minuto influencia diretamente nas chances de sobrevivência da vítima. Abrir passagem é um dever legal, previsto pelo Código de Trânsito Brasileiro, e um ato de cidadania”, afirma.

Segundo Muriel, muitos motoristas ainda deixam de facilitar a passagem de veículos de emergência por distração ou desconhecimento da legislação.

“Os principais fatores são distrações, uso de celular ao volante, falta de atenção, desconhecimento da legislação e, em alguns casos, falta de empatia com a situação de emergência”, explica.

Ela lembra que impedir a passagem de ambulâncias e demais veículos prioritários é infração gravíssima.

“O artigo 189 do Código de Trânsito Brasileiro estabelece que deixar de dar passagem a ambulâncias e demais veículos em situação de emergência, quando estiverem com sinais sonoros e luminosos acionados simultaneamente, é uma infração gravíssima, punida com multa de R$ 293,47 e sete pontos na Carteira Nacional de Habilitação”, destaca.

Ao comentar o caso dos motoboys, Muriel elogia a iniciativa, mas ressalta que situações como essa não deveriam depender da boa vontade de terceiros.

“Foi uma atitude de solidariedade e responsabilidade social. No entanto, essa intervenção não deveria ser necessária. O ideal é que todos os condutores cumpram espontaneamente as obrigações previstas pela legislação de trânsito e pelo Código de Trânsito Brasileiro”, afirma.

Muriel Dutra alerta que o maior prejuízo provocado pela falta de passagem para veículos de emergência não é a multa prevista na legislação, mas sim o impacto para quem precisa de atendimento imediato. Segundo a especialista, poucos minutos de atraso podem comprometer o socorro e reduzir significativamente as chances de recuperação da vítima, especialmente em ocorrências graves.

Ela também defende que o trânsito seja encarado como um sistema de proteção à vida. Para Muriel, permitir a passagem de ambulâncias e outros veículos de emergência é um ato de solidariedade, humanidade e responsabilidade social. A orientação é que, ao perceber uma ambulância com sirene e luzes acionadas, o motorista mantenha a calma, sinalize a manobra, desloque o veículo para a direita sempre que possível e deixe a faixa da esquerda livre, já que uma atitude simples pode contribuir para salvar vidas.

Nem toda emergência acontece dentro de uma ambulância
O caso registrado em Belo Horizonte também evidencia uma realidade pouco discutida. Nem sempre uma vítima grave consegue esperar pela chegada de uma ambulância.

Em muitos casos, familiares, amigos ou colegas de trabalho optam por levar o paciente diretamente ao hospital, acreditando que essa será a forma mais rápida de conseguir atendimento. Foi exatamente o que aconteceu com Maria Eduarda.

Sem prioridade legal no trânsito, esses veículos enfrentam os mesmos congestionamentos que qualquer outro motorista. Nesses momentos, a colaboração de quem está ao redor pode ser decisiva.

Foi justamente essa corrente de solidariedade que permitiu que a jovem chegasse mais rapidamente ao Hospital João XXIII.

O trânsito também faz parte do atendimento
Embora o vídeo tenha viralizado pela atitude dos motoboys, especialistas afirmam que a cena também serve como alerta para um problema estrutural das grandes cidades.

Quando um congestionamento impede ou atrasa a chegada de um paciente ao hospital, o prejuízo vai muito além da mobilidade urbana. Em situações de emergência, o trânsito passa a fazer parte do atendimento médico.

A história que emocionou Belo Horizonte termina com uma lição simples: abrir caminho para quem luta pela vida pode ser um gesto de poucos segundos, mas capaz de mudar completamente o destino de uma pessoa.

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