O voto dos brasileiros com 60 anos ou mais vira alvo central da campanha presidencial. Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL-RJ) disputam, voto a voto, os 37,5 milhões de eleitores idosos do país.
Esse grupo representa 23,5% dos 158,7 milhões de eleitores aptos a votar, segundo a Justiça Eleitoral, e pode definir uma eleição em que a diferença entre os principais candidatos aparece apertada nas pesquisas.
Eleitor idoso cresce e pode decidir eleição apertada
Pesquisas recentes indicam cenário de empate técnico no país e vantagem de Lula entre os mais velhos. Levantamento Nexus para um eventual segundo turno dá 46% ao petista e 45% a Flávio Bolsonaro, dentro da margem de erro de 2 pontos percentuais.
No recorte dos idosos, o quadro muda. Pesquisa Datafolha mostra Lula com 55% entre eleitores com mais de 60 anos, contra 37% de Flávio, em um universo com margem de erro de 5 pontos percentuais. Entre aposentados, a distância é ainda maior: 60% a 35% para o presidente, com margem de 6 pontos.

A força numérica e a inclinação atual desse segmento ajudam a explicar a guinada das campanhas. Em uma disputa em que cada ponto percentual pode significar milhões de votos, um grupo que concentra quase um quarto do eleitorado ganha peso estratégico imediato.
O envelhecimento acelerado da população e o aumento contínuo do número de idosos registrados pela Justiça Eleitoral desde 2010 criam um novo mapa eleitoral. Candidatos precisam falar de aposentadoria, saúde, combate a fraudes e acesso a serviços com mais detalhe e menos generalidades.
Lula explora memória afetiva e promete envelhecimento ativo
No campo governista, a aposta é na combinação de nostalgia política e novas promessas sociais. Aliados de Lula resgatam símbolos de campanhas passadas, como o jingle “Lula Lá”, e procuram acionar lembranças dos primeiros mandatos, quando muitos atuais idosos ainda estavam no mercado de trabalho.
A equipe também recoloca em cena memórias da ditadura militar. A avaliação é que parte dos eleitores idosos viveu a censura e a repressão, e pode ser mobilizada por um discurso que associa democracia, direitos sociais e proteção à velhice.
Em convenção recente do PT, Lula vocaliza a estratégia ao direcionar frases diretamente a esse público. “Quero pagar uma dívida com os idosos deste país”, afirma o presidente, em tom de reparação histórica. Em seguida, amplia o argumento para o campo afetivo, ao dizer que “nem sempre o filho que a mãe pariu cuida dela, quando ela está velha, da mesma forma que ela cuidou dele quando ele fazia xixi e fazia cocô nas fraldas”.

O discurso se apoia em propostas concretas de convivência e lazer. “Nós precisamos criar um programa para o idoso. Não para ele ficar trancado. Queremos que ele tenha um lugar onde possa nadar, dançar, ler, ver filmes, caminhar. Possa fazer o que quiser. Até namorar, se encontrar uma parceira”, afirma Lula.
Auxiliares admitem, porém, um desafio logístico: parte dos eleitores com 60 anos ou mais tem dificuldade de mobilidade ou está distante do debate político cotidiano. A campanha discute formas de oferecer razões fortes para que esses eleitores saiam de casa, enfrentem filas e cheguem à urna.
Flávio aposta em CPI do INSS e no vice Alfredo Gaspar
No campo bolsonarista, a resposta vem com foco em fraudes contra aposentados e no discurso de proteção ao dinheiro do idoso. Flávio Bolsonaro escalou o deputado federal Alfredo Gaspar (PL-AL) como vice justamente para reforçar essa imagem.
Gaspar foi relator da CPI mista do INSS que investigou um esquema nacional de descontos associativos não autorizados em aposentadorias e pensões. A apuração teve origem em dados da Controladoria-Geral da União, que apontou R$ 6,3 bilhões subtraídos de beneficiários entre 2019 e 2024.
Flávio explora esse histórico ao apresentar a chapa. Ao anunciar seu vice, disse que Gaspar “enfrentou e defendeu os nossos aposentados na CPI do INSS”. Em outro trecho, elevou o tom ao classificar a corrupção ligada ao episódio: “Talvez a coisa mais hedionda que pode ter acontecido nos últimos anos, nas últimas décadas, no nosso país foi um governo corrupto que não respeitou nem os aposentados, não poupou nem as aposentadorias. As senhorinhas, os senhorzinhos contam ali os reais no fim do mês”.

Comunicação da campanha promete dar ao vice espaço privilegiado em redes sociais e propaganda eleitoral. A ideia é transformar a CPI em vitrine permanente, associando Gaspar a um “xerife” dos direitos dos aposentados e, por tabela, ligar Lula e seu entorno à imagem de descuido com o dinheiro dos idosos.
A escolha do vice, porém, não é isenta de cálculo paralelo. Inicialmente, Flávio buscava uma mulher para a chapa, numa tentativa de reduzir sua rejeição entre eleitoras idosas e de outras faixas etárias. A opção por Gaspar frustra esse gesto simbólico em relação às mulheres, mas auxiliares afirmam que o ganho entre aposentados pode compensar.
Disputa reconfigura agenda de direitos do idoso
A corrida pelo voto idoso já altera a pauta pública. Temas como reajuste de aposentadorias, combate a golpes financeiros, fila no SUS e acesso a atividades culturais voltadas à terceira idade deixam o rodapé dos programas de governo e sobem ao topo das prioridades.
Setores como previdência social, saúde, cultura e assistência social sentem o movimento. Propostas de centros de convivência, programas de envelhecimento ativo, ampliação da rede de atenção básica e endurecimento das regras contra descontos abusivos em benefícios previdenciários entram no discurso de palanque e de televisão.
Quem ganha, ao menos neste momento, é o próprio eleitor idoso, que se vê mais cortejado e ouvido. Candidatos que ignoram esse público correm o risco de perder uma fatia decisiva de votos e de parecer alheios a um Brasil cada vez mais envelhecido.

A Justiça Eleitoral, por sua vez, monitora com atenção o tema do combate a fraudes, dado o peso que os golpes contra aposentados assumem no debate. O foco é garantir que denúncias e promessas não se transformem em desinformação ou em exploração indevida do medo de perder a renda.
Nas próximas semanas, a tendência é de intensificação de eventos específicos para idosos, caravanas em associações de aposentados, visitas a centros de saúde e campanhas educativas sobre direitos do idoso, carteira de benefícios e canais de denúncia de abusos. Pesquisas segmentadas por idade devem orientar ajustes finos nas mensagens.
O desfecho dessa disputa pode redesenhar não só o resultado eleitoral, mas também a agenda do próximo governo. Um eleitorado idoso mais organizado e consciente do próprio peso tende a cobrar, ao longo dos próximos anos, a execução das promessas feitas agora, em horário eleitoral e comícios, sob o calor da campanha.