Quer apagar seu histórico sexual? Retiro espiritual promete te ajudar

Experiência combina rituais e reflexão para propor um recomeço emocional. Segundo a psicóloga Rose Villela, a prática também levanta questionamentos sobre culpa, autoestima e a ideia de transformar o histórico sexual em uma espécie de pontuação
Redação NC News
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Uma proposta inusitada começou a chamar atenção nas redes sociais: um retiro no Brasil que promete ajudar participantes a “zerarem” o chamado body count, expressão popular na internet usada para falar sobre o número de parceiros sexuais que uma pessoa já teve. Para participar da experiência, é preciso desembolsar R$ 5,5 mil.

A ideia, porém, não significa apagar literalmente experiências passadas ou alterar o histórico de ninguém. A proposta funciona como uma experiência simbólica de recomeço, com atividades voltadas para reflexão, espiritualidade e processamento de sentimentos relacionados a relacionamentos anteriores.

O assunto ganhou repercussão justamente pela maneira como a experiência é apresentada. Para alguns internautas, seria uma espécie de “reset” do passado. Mas, por trás da expressão que viralizou, existe uma discussão mais profunda: por que tantas pessoas sentem que precisam apagar ou compensar experiências que fazem parte da própria história?

O que acontece no retiro?

A experiência reúne diferentes práticas em uma espécie de imersão pessoal. Entre as atividades estão momentos de meditação, aconselhamento, rituais e exercícios simbólicos de purificação.

O objetivo é criar um ambiente no qual os participantes possam olhar para experiências anteriores e tentar deixar para trás sentimentos como culpa, vergonha, arrependimento ou sofrimento associados a relacionamentos passados.

Nesse sentido, o chamado “zerar o body count” deve ser entendido muito mais como uma metáfora para um novo começo do que como uma alteração concreta do passado.

O número de parceiros continua sendo o mesmo. O que a experiência pretende mudar é a maneira como a pessoa se relaciona emocionalmente com essa história.

Por que a proposta mexe tanto com as pessoas?

Em entrevista ao NC News, a psicóloga, Rose Villela, avalia que a proposta encontra espaço porque toca em uma dor que, para algumas pessoas, é bastante real. Segundo ela, muita gente cresce carregando vergonha e culpa relacionadas à própria vida sexual por causa de julgamentos sociais construídos desde cedo.

É justamente nesse ponto que estaria a força de uma proposta como essa: ela oferece uma experiência ritualizada de recomeço para quem já deseja se libertar de sentimentos negativos relacionados ao passado.

O problema, na avaliação da profissional, aparece quando a ideia de “zerar” passa a sugerir que existe uma espécie de número ideal capaz de determinar se alguém é mais ou menos digno, correto ou “limpo”.

A proposta de “zerar” o body count também levanta um debate sobre culpa, autoestima e a forma como a sociedade julga o histórico sexual. Para a psicóloga, transformar esse passado em algo que precisa ser apagado pode apenas trocar uma forma de cobrança por outra.

“Prometer zerar o body count é vender a ideia de que existe um número mágico de parceiros que te torna uma pessoa limpa de novo. E isso, para mim, já é um problema. O verdadeiro trabalho não é apagar o passado, é desconstruir a ideia de que ele te definiu”, afirma a psicóloga.

Rose também chama atenção para o risco do retiro criar uma nova forma de cobrança para quem busca superar sentimentos relacionados ao passado. Segundo ela, a promessa de um “reset” pode fazer com que a pessoa continue enxergando o histórico sexual como uma espécie de medida de valor pessoal.

“Eu gosto muito de retiros que trabalham com desenvolvimento pessoal. Mas esse tipo de retiro, especificamente, ele funciona por quê? Porque ele mexe com uma dor real. Muita gente carrega vergonha e culpa por causa do próprio histórico sexual, por conta de um julgamento social que a gente carrega desde muito cedo, desde lá da infância. E, diante dessa dor, a promessa de um recomeço ritualizado parece uma solução rápida, mágica”, avalia a especialista.

Rose Villela também alerta que questões mais profundas podem exigir acompanhamento profissional e não apenas uma experiência pontual.

“Você acaba delegando questões que você precisaria trabalhar em psicoterapia. O risco é isso alimentar mais ansiedade, mais autovigilância e manter a autoestima da pessoa dependente de uma aprovação externa, que antes era do julgamento social. E agora é da validação do grupo do retiro”, conclui a psicóloga Rose Villela.

 Entenda o contexto

O termo body count se popularizou nas redes sociais para representar o número de parceiros sexuais que uma pessoa teve ao longo da vida. Em meio a discussões sobre relacionamentos, o termo também passou a ser usado como uma espécie de indicador para julgar comportamentos.

O retiro que viralizou no Brasil se apropria dessa ideia para propor um ritual de recomeço. A experiência, contudo, não altera o passado nem apaga experiências vividas. O debate levantado pela psicóloga vai além do retiro: questiona a própria necessidade de transformar a vida afetiva e sexual em uma espécie de pontuação.

Para quem participa, o ritual pode representar simbolicamente uma nova fase. Mas, do ponto de vista psicológico, o desafio mais profundo pode estar em compreender que a história de uma pessoa não é definida por um número.

 

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