Mato Grosso tem 84,6 mil eleitores que não sabem ler ou escrever

Mato Grosso conta com um eleitorado diversificado, incluindo milhares de analfabetos aptos a votar nas próximas eleições.
Redação NC News
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Mato Grosso entra na disputa eleitoral de 2026 com 84.610 eleitores analfabetos aptos a votar, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O maior grupo do eleitorado no estado é formado por pessoas com ensino médio completo, que somam 715.865 registros.

Eleitorado diverso e impacto nas urnas

O retrato educacional do eleitorado mato-grossense revela uma base ampla e desigual. Enquanto mais de 700 mil eleitores concluem o ensino médio, centenas de milhares ainda não completam as etapas básicas da escolaridade.

Os números do TSE mostram 526.048 eleitores com ensino fundamental incompleto e 485.883 com ensino médio incompleto. Em seguida aparecem 362.953 pessoas com ensino superior completo e 173.647 com nível superior incompleto, além de 142.937 eleitores que concluíram apenas o ensino fundamental.

Nesse mosaico, 146.172 eleitores declaram saber apenas ler e escrever, sem escolaridade formal consolidada. Os 84.610 analfabetos fecham a contagem de um grupo que, sozinho, não decide uma eleição, mas ajuda a definir disputas apertadas em municípios médios e pequenos.

A presença desses eleitores obriga partidos e candidatos a rever estratégias. Campanhas precisam falar com quem não lê panfletos, não acompanha debates pela TV ou redes sociais e se informa, sobretudo, pela conversa em família, na igreja ou no trabalho.

Um século de exclusão, quatro décadas de retomada

O direito de pessoas analfabetas votarem volta a valer no Brasil com a Emenda Constitucional nº 25, de 1985. A medida encerra mais de um século de veto, em vigor desde 1881, e recoloca uma parcela importante da população dentro do processo eleitoral.

Para tornar esse voto viável, a Justiça Eleitoral passa a identificar candidatos por números nas cédulas, em vez de apenas pelos nomes escritos. A mudança parece simples, mas abre caminho para reduzir a dependência da leitura na hora da escolha.

A adoção da urna eletrônica, em 1996, aprofunda essa virada. O teclado numérico, parecido com o de um telefone, facilita a vida de quem não lê, mas reconhece números com segurança. A tela confirma o voto com foto, sigla e nome do candidato, o que reduz erros e anulações.

No interior de Mato Grosso, esse desenho institucional encontra a prática cotidiana de famílias que aprendem a contornar limitações da escola. A cada eleição, a combinação entre números, memória e tecnologia garante que o eleitor analfabeto não seja apenas um figurante na democracia.

A rotina de quem vota sem saber ler

A aposentada Cleonice de Jesus, 53 anos, moradora de Poxoréu, é um desses rostos por trás das estatísticas. Ela nunca aprende a ler e escrever, mas não abre mão de comparecer a todas as votações.

Cleonice não acompanha propaganda eleitoral nem estuda propostas em detalhes. As decisões passam pelo filtro do que muda, ou não, dentro de casa. Programas sociais que aliviam o orçamento familiar acabam pesando mais que discursos de palanque.

“Não acompanho eleição, não acompanho candidato, não acompanho nada. Minhas filhas tinham faculdade para pagar e era muito dinheiro. Teve um plano que ajudou elas a conseguirem pagar. Eu não sei explicar como foi, mas deu certo e foi bom para elas”, conta.

Dias antes da votação, a família se organiza. O marido e uma das filhas montam uma “colinha” com os números dos candidatos escolhidos e treinam com ela a ordem dos votos na urna eletrônica.

“Eles fazem os números e vão me explicando. Eu não sei ler, mas conheço os números. Aí eu levo a colinha e vou conferindo”, diz.

A prática é permitida pela Justiça Eleitoral, desde que o eleitor entre sozinho na cabine.

Cleonice reforça que ninguém pode acompanhá-la no momento do voto, o que torna a preparação ainda mais importante. “Na hora de votar ninguém pode ir comigo. Então eu já levo a colinha certinha e consigo votar. Enquanto eu puder votar, eu vou votar. Acho importante participar. Nem tudo melhora, mas uma hora melhora.”

Desafios para inclusão e disputa política

A presença de 84.610 eleitores analfabetos em Mato Grosso pressiona a administração eleitoral a manter e aprimorar mecanismos de acessibilidade. Isso inclui campanhas de orientação claras, treinamento de mesários e comunicação visual simples nos locais de votação.

O desafio também recai sobre políticas públicas de educação e inclusão social. Os dados do TSE mostram que grande parte do eleitorado ainda carrega marcas da exclusão escolar, o que limita o acesso a informações e a capacidade de acompanhar o debate público de forma autônoma.

Para candidatos competitivos, ignorar esse contingente se torna arriscado. Mensagens em linguagem direta, presença física em comunidades com maior índice de analfabetismo e uso de símbolos fáceis de memorizar ganham peso na estratégia.

Ao mesmo tempo, cresce a responsabilidade de organizações da sociedade civil e da própria Justiça Eleitoral em evitar que a vulnerabilidade educacional se converta em voto manipulado. A linha entre convencer e explorar a falta de informação é fina e permanente.

Os próximos meses testam até que ponto o sistema político consegue transformar números de cadastro em participação efetiva. O eleitorado mato-grossense, diverso e desigual, continua a funcionar como um espelho do país: mais escolarizado que no passado, mas ainda marcado por lacunas profundas. A forma como esse grupo será ouvido nas urnas ajuda a definir a qualidade da democracia que sai das próximas eleições.

Quantos eleitores analfabetos podem votar em Mato Grosso?

84.610 eleitores analfabetos estão aptos a votar nas eleições de 2026 em Mato Grosso, segundo dados atuais do Tribunal Superior Eleitoral, integrando um eleitorado diversificado que inclui ainda 146.172 pessoas que apenas leem e escrevem e mais de 1,9 milhão de cidadãos com diferentes níveis de escolaridade formal.

Quem é o maior grupo do eleitorado de Mato Grosso?

715.865 eleitores com ensino médio completo formam hoje o maior grupo do eleitorado de Mato Grosso, de acordo com o Tribunal Superior Eleitoral, superando em muito os 526.048 cidadãos com fundamental incompleto e os 485.883 com ensino médio incompleto, além dos 362.953 que concluíram o ensino superior no estado.

Como eleitores analfabetos conseguem votar sozinhos?

Eleitores analfabetos conseguem votar sozinhos combinando o uso da urna eletrônica, baseada em números, com estratégias simples como a “colinha” de papel com os códigos dos candidatos, preparada antes da votação com ajuda da família, já que a legislação não permite acompanhantes dentro da cabine no momento do voto.

 

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