Existe uma ironia política na posição que Nunes Marques ocupa hoje. O ministro indicado por Jair Bolsonaro está à frente do TSE justamente no momento em que o campo político ligado ao ex-presidente volta a colocar o sistema eleitoral sob suspeita.
Isso muda o tamanho da responsabilidade. Nunes Marques não precisa convencer bolsonistas, petistas ou qualquer outro grupo político de que a urna eletrônica é confiável. Essa não é a função de um ministro da Justiça Eleitoral. A tarefa é mais difícil: fazer com que as regras sejam conhecidas, fiscalizadas e aplicadas de maneira previsível, inclusive quando o resultado desagradar a quem estiver do outro lado.
A eleição antes do voto
O problema é que a eleição de 2026 começa a ser travada também sobre aquilo que ainda não aconteceu. Flávio Bolsonaro voltou a levantar dúvidas sobre o sistema eleitoral e, depois da repercussão, reafirmou confiança nas urnas.
Politicamente, esse movimento revela algo importante. A suspeita sobre o processo eleitoral continua sendo uma ferramenta disponível no debate político, mesmo quando não se sustenta como denúncia formal.
É aí que o TSE entra em uma zona particularmente delicada. Uma eleição pode ser contaminada não apenas por fraude, mas pela percepção de que houve fraude. E essa percepção pode ser fabricada antes da votação, impulsionada por vídeos manipulados, áudios falsos, cortes fora de contexto e conteúdos produzidos por inteligência artificial.
O eleitor pode receber uma mentira às oito da manhã e descobrir que era mentira às oito da noite. O dano, porém, já terá ocorrido.
O desafio das redes sociais
Esse é o terreno em que Nunes Marques terá de atuar. Em uma eleição cada vez mais marcada pela velocidade das redes sociais, o tempo de resposta das instituições passa a ser parte do próprio desafio.
A dificuldade está em encontrar o equilíbrio entre combater conteúdos falsos e preservar o espaço legítimo do debate político. Uma atuação considerada excessiva pode alimentar acusações de censura. Uma resposta tardia, por outro lado, pode permitir que uma informação falsa se consolide como fato político.
A dimensão internacional
Há ainda uma dimensão externa que merece atenção, mas sem transformar suspeita em acusação. O governo Donald Trump elevou o tom da disputa política na América Latina, e Marco Rubio passou a ocupar papel importante nessa estratégia.
O Brasil, por seu peso regional e pela presença de um governo de esquerda comandado por Lula, naturalmente entra nesse radar. A questão relevante não é afirmar que existe uma operação estrangeira para interferir na eleição brasileira sem apresentar provas.
A pergunta mais séria é outra: até onde vai o posicionamento diplomático de uma potência e em que momento a pressão política externa começa a interferir no ambiente eleitoral de outro país? Essa fronteira será observada com atenção.
A indicação de Bolsonaro e a presidência do TSE
Existe ainda uma razão adicional para Nunes Marques ser cobrado de maneira diferente. Sua indicação ao STF veio de Bolsonaro. Agora, ele preside o tribunal que organizará uma eleição na qual Flávio Bolsonaro está diretamente envolvido. Isso não autoriza concluir que haverá parcialidade. Mas torna cada decisão politicamente mais sensível.
O ministro terá de conviver com uma equação incômoda. Se o TSE agir com excesso, poderá alimentar a narrativa de censura. Se agir tarde demais, poderá permitir que uma mentira se transforme em fato político. Se responder a cada provocação, corre o risco de entrar no jogo dos próprios provocadores.
Talvez esteja aí a parte mais difícil da função. Nunes Marques terá de escolher cuidadosamente quando falar, quando responder e quando deixar que os mecanismos institucionais façam o trabalho. Em uma eleição dominada pela velocidade das redes, a autoridade de um tribunal não pode depender da velocidade com que reage a cada publicação.
O que está em disputa, portanto, não é apenas a urna. É a autoridade sobre a versão dos fatos. Quem controlar a narrativa sobre o que aconteceu antes, durante e depois da votação terá enorme capacidade de influenciar a interpretação do resultado. E essa disputa pode começar muito antes de o eleitor apertar qualquer tecla.
A eleição brasileira sempre foi uma disputa pelo voto. Em 2026, também será uma disputa pela confiança no que acontece depois que o voto termina. É nesse ponto que Nunes Marques será testado.