Candidatos da direita ao Senado por São Paulo chegam à disputa deste ano com patrimônios muito maiores do que nas últimas eleições gerais. Dados atualizados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostram que Guilherme Derrite (PP-SP), Ricardo Salles (Novo-SP) e André do Prado (PL-SP) ampliam, em alguns casos mais que o dobro, os bens declarados em apenas quatro anos.
Os números, já corrigidos pela inflação, expõem um salto patrimonial de 67% a 130% desde 2022 e reposicionam a campanha paulista num patamar de recursos em que imóveis de alto valor, aplicações financeiras volumosas e propriedades rurais, inclusive no exterior, ganham centralidade.
Saltos de até 130% e liderança de Salles em bens
Pelos registros parciais do TSE, “ex-secretário de Segurança do governo Tarcísio e ex-ministro do Meio Ambiente de Bolsonaro mais do que dobraram bens declarados ao TSE”, como descreve relatório citado por O GLOBO. São as situações de Derrite e Salles, hoje entre os principais nomes da direita na disputa pelo Senado paulista.
“Derrite e Salles conseguiram aumentos de 130% e 110%, respectivamente, em dados corrigidos para inflação”, informa o mesmo material. Ou seja, em quatro anos, o patrimônio declarado por Derrite mais que dobra, enquanto o de Salles sobe pouco mais que o equivalente a uma multiplicação por dois.
No grupo dos três candidatos alinhados à direita, André do Prado registra o crescimento mais moderado, ainda que robusto. “André do Prado teve 67% de ganho”, diz o texto de referência. Em qualquer cenário, trata-se de uma expansão bem acima da simples correção monetária do período.
Mesmo sem liderar em variação percentual, Ricardo Salles se firma como o mais rico. “O candidato a senador por São Paulo com maior patrimônio entre os já confirmados é Salles, que possui R$ 9,05 milhões em bens”, registra O GLOBO. O montante está distribuído entre sua residência na capital e duas propriedades rurais, uma em Portugal e outra no interior paulista.
Imóveis, aplicações e justificativas das campanhas
O perfil dos bens ajuda a explicar parte da disparada. No caso de Derrite, a maior fatia da fortuna recente se concentra num terreno de R$ 1,17 milhão, adquirido no intervalo entre uma eleição e outra. O restante está espalhado em contas bancárias, investimentos e itens de menor valor, como veículos e aplicações de menor liquidez.
A campanha do ex-secretário de Segurança de Tarcísio de Freitas tenta blindar o crescimento patrimonial de suspeitas sobre a origem dos recursos. “Todos os bens e valores do candidato foram devidamente declarados à Justiça Eleitoral, com total transparência e em conformidade com a legislação”, afirma a coordenação, em nota enviada. “A evolução patrimonial registrada no período decorre de rendimentos lícitos e da própria composição do patrimônio familiar, incluindo investimentos e aquisição/valorização de bens ao longo dos últimos anos.”
André do Prado aparece no outro extremo do trio em valor absoluto. Com R$ 692 mil em bens, é o que declara o menor patrimônio entre os três nomes da direita já registrados, segundo o levantamento. Não há imóveis em seu nome, de acordo com a declaração ao TSE. O patrimônio se divide basicamente entre um carro e recursos em contas bancárias.
A campanha de Prado argumenta que não há nada de extraordinário na variação de 67%. “Os valores declarados por André do Prado ao TSE refletem seu patrimônio declarado em cada eleição e são totalmente compatíveis com sua renda e sua trajetória profissional e pública”, diz nota encaminhada ao jornal. “Portanto, a variação apresentada entre as declarações é compatível com sua renda, com sua capacidade de poupança e com a organização de seu patrimônio ao longo dos anos.”
Salles volta a advogar e diz que juros impulsionam aplicações
Entre os três, Ricardo Salles é quem oferece o histórico mais longo de declarações ao TSE, por disputar cargos há mais de duas décadas. Os dados mostram oscilações para cima e para baixo ao longo desse período, com fases de retração e de expansão patrimonial. Hoje, ele declara menos do que no início da carreira política, se considerado o efeito da inflação, mas mantém um colchão financeiro robusto para a disputa atual.
O ex-ministro associa a guinada mais recente a uma combinação de fatores financeiros e profissionais. “Desde 2023, eu voltei a advogar, e com juros de 15% ao ano os valores em aplicações crescem bastante”, afirma, ao comentar o aumento de 110% no patrimônio registrado no TSE.
Especialistas em finanças pessoais destacam que períodos prolongados de juros elevados, como o brasileiro, favorecem a multiplicação de grandes patrimônios em renda fixa e fundos de investimento. No caso de Salles, a presença de imóveis valorizados em dólar, como a propriedade rural em Portugal, adiciona um componente cambial que potencializa ganhos nominais na conversão para reais.
O impacto eleitoral vai além da contabilidade. Com R$ 9,05 milhões em bens e alta liquidez, Salles dispõe de margem maior para financiar estrutura de campanha, comunicação profissionalizada e equipes de mobilização em larga escala no estado mais populoso do país. O mesmo vale, em menor escala, para Derrite e Prado, que emergem deste ciclo eleitoral com capacidade financeira ampliada.
Pressão por transparência e impacto na disputa ao Senado
A ampliação repentina de patrimônios de figuras centrais da direita ocorre em meio a um ambiente de desconfiança do eleitor em relação à classe política. Organizações da sociedade civil e adversários tendem a usar os números para reforçar discursos sobre desigualdade, concentração de renda e suposto distanciamento dos candidatos em relação ao cotidiano do eleitor médio.
Os dados também rearranjam o tabuleiro entre os concorrentes ao Senado por São Paulo. Marina Silva e Simone Tebet, que orbitam o campo de centro e centro-esquerda e aparecem como alternativas à direita bolsonarista no estado, ainda não formalizam suas candidaturas. “Marina Silva e Simone Tebet ainda não registraram suas candidaturas, e têm até dia 15 para fazê-lo”, registra O GLOBO. Quando isso ocorrer, as duas também precisarão entregar declarações públicas de bens.
Os números que Marina e Tebet apresentarem podem calibrar o debate sobre riqueza, ética e representação política na campanha paulista. Se declararem patrimônios menores, terão espaço para contrapor seu perfil ao dos adversários de direita, reforçando um discurso de proximidade com o eleitor comum. Se exibirem fortunas comparáveis, o debate pode se deslocar para a origem e a transparência dos recursos.
No curto prazo, a multiplicação patrimonial de Derrite, Salles e Prado alimenta discursos cruzados. De um lado, as campanhas defendem que valorização de imóveis, rendimentos profissionais e juros altos explicam quase todo o salto dos últimos anos. De outro, opositores e entidades de controle podem pressionar por mais detalhes sobre investimentos, rendimentos e operações imobiliárias, inclusive no exterior.
À medida que se aproxima o prazo de 15 de agosto para registro das candidaturas, o TSE se firma como palco central dessa disputa de narrativas. Cada nova declaração de bens publicada no sistema da Justiça Eleitoral tende a virar munição nas redes sociais, nos programas de rádio e TV e nos debates, num cenário em que o tamanho da conta bancária dos candidatos passa a pesar quase tanto quanto o tempo de TV e o apoio partidário.
No médio prazo, a principal incógnita é como o eleitor paulista reage a esse desequilíbrio de recursos. A multiplicação de patrimônios pode garantir campanhas mais profissionais aos três candidatos de direita, mas também reforçar a percepção de que o Senado, uma das casas do Congresso mais cobiçadas, continua sendo território de quem chega à urna com milhões já acumulados.