Quem pensa que debate eleitoral precisa ser morno para ser previsível não assistiu ao confronto entre Tarcísio de Freitas e Fernando Haddad em São Paulo.
O primeiro debate entre os dois, realizado pela Band, teve uma característica que chama atenção: a eleição para o governo paulista rapidamente deixou de ser apenas uma disputa sobre São Paulo. Lula e Bolsonaro entraram no palco. E, quando os dois aparecem, a eleição estadual passa a carregar o peso da disputa presidencial.
Haddad tentou nacionalizar o confronto. Tarcísio tentou fazer o movimento contrário. Em determinado momento, inclusive, disse que o adversário estava muito focado em Bolsonaro e deveria lembrar que não disputava mais contra o ex-presidente.
A relação entre Tarcísio e Bolsonaro
Só que há uma contradição interessante aí. Tarcísio pode tentar transformar a eleição em uma avaliação da própria administração, mas ele não consegue simplesmente retirar Bolsonaro da equação. A própria trajetória política do governador passa por essa relação.
No debate, quando questionado sobre o ex-presidente, Tarcísio fez questão de dizer que não tem vergonha de Bolsonaro e que mantém gratidão por quem o levou ao Ministério da Infraestrutura.
Ou seja, ele não rompeu com Bolsonaro. Mas também não fez do ex-presidente o centro da sua campanha.
A estratégia de Tarcísio
Essa talvez seja uma das principais marcas da estratégia de Tarcísio neste momento. Ele tenta ocupar um espaço que lembra, em certa medida, aquele estilo de Geraldo Alckmin em São Paulo, de falar como gestor, apresentar números, defender obras, segurança, educação, infraestrutura e evitar transformar cada discussão em uma guerra ideológica.
É uma estratégia racional para quem está na frente. A pesquisa Genial/Quaest divulgada no fim de julho mostrava Tarcísio com 41% e Haddad com 26% no primeiro turno. No segundo turno, o governador aparecia com 48%, contra 32% do petista.
O Datafolha de julho havia mostrado uma vantagem ainda maior, 46% para Tarcísio e 30% para Haddad no primeiro turno. Considerando apenas os votos válidos, Tarcísio chegava a 52%.
Pesquisa não é resultado eleitoral
Mas isso não autoriza ninguém a carimbar uma vitória em primeiro turno. Pesquisa é fotografia, não resultado eleitoral.
E aqui está o ponto político mais importante. Tarcísio não precisa, neste momento, transformar cada debate em uma batalha.
Quem está na frente normalmente tem mais interesse em administrar a vantagem do que em criar uma situação que possa produzir um fato negativo.
Haddad tenta mudar a temperatura da eleição
Haddad, por outro lado, precisa mudar a temperatura da eleição. E foi exatamente isso que apareceu no debate.
O petista atacou Tarcísio em segurança pública, privatizações, educação e relação com o governo Lula. Também tentou associar o governador ao bolsonarismo e explorar a rejeição ao ex-presidente.
Tarcísio respondeu defendendo os resultados da administração e tentando devolver a discussão para a gestão paulista.
Segurança pública e privatizações
Na segurança, por exemplo, Haddad apresentou uma narrativa de problemas e questionamentos sobre feminicídios, câmeras corporais e combate ao crime organizado. Tarcísio respondeu com indicadores de redução de crimes e com a defesa das políticas adotadas pelo governo.
Nas privatizações, aconteceu algo semelhante. Haddad tentou transformar Sabesp e outros processos de desestatização em uma vulnerabilidade política. Tarcísio respondeu defendendo a lógica econômica das medidas e atacando o histórico do PT na administração de empresas públicas.
Isso mostra uma diferença importante entre os dois. Haddad precisa transformar a eleição em julgamento do governo Tarcísio. Tarcísio quer transformar a eleição em julgamento da própria gestão. É aí que está a disputa de narrativa.
O peso de São Paulo para o PT
E existe ainda um detalhe de bastidor que não pode ser ignorado. Para o PT, São Paulo não é apenas mais um governo estadual. É o maior colégio eleitoral do país.
Manter um candidato competitivo no segundo turno significa preservar um palanque importante para Lula em uma eventual disputa nacional contra Flávio Bolsonaro.
Por isso, para Haddad, chegar ao segundo turno já é uma batalha estratégica. Não significa apenas disputar o Palácio dos Bandeirantes. Significa manter o PT vivo em uma das principais vitrines eleitorais do país.
O desafio de Tarcísio
Para Tarcísio, a equação é diferente. Quanto mais a eleição parecer decidida pela avaliação da sua gestão, melhor.
Quanto mais a disputa se transformar em Lula contra Bolsonaro, maior a possibilidade de o governador ser empurrado para uma polarização que ele parece querer controlar, e não necessariamente protagonizar.
A moderação será testada
Só que há um problema para essa estratégia. Campanha eleitoral não fica congelada.
O governador pode escolher um tom moderado agora, mas será submetido a ataques cada vez mais específicos, principalmente sobre segurança, privatizações, educação, relação com Bolsonaro e resultados administrativos.
E, quando a campanha apertar, será preciso saber se essa moderação continuará sendo uma escolha ou se começará a parecer uma fuga do confronto.
Esse é o teste político de Tarcísio.
O equilíbrio entre três eleitorados
Ele está tentando ganhar a eleição falando como governador, enquanto Haddad tenta fazer o eleitor votar como quem escolhe entre dois projetos políticos.
Até aqui, os números favorecem Tarcísio. Mas o debate deixou uma coisa clara: Bolsonaro continua sentado à mesa, mesmo quando Tarcísio tenta mudar de assunto. E Haddad sabe disso. Por isso, a tendência é que o ex-ministro continue tentando trazer Bolsonaro para dentro da eleição paulista, enquanto Tarcísio tentará manter Lula e Bolsonaro fora do centro da disputa e colocar sua administração no lugar deles.
O que está em jogo
A questão agora não é saber se Tarcísio consegue vencer. As pesquisas mostram que ele parte de uma posição muito confortável.
A questão é saber se consegue chegar até a reta final mantendo esse equilíbrio entre três eleitorados: o eleitor que aprova sua gestão, o eleitor conservador que mantém vínculo com Bolsonaro e o eleitor que prefere uma imagem mais administrativa e menos ideológica.
É uma equação delicada. Porque, em uma eleição, ninguém consegue controlar indefinidamente a temperatura do ambiente. E o primeiro debate mostrou justamente isso. Tarcísio pode até querer uma campanha sobre resultados. Haddad já mostrou que pretende fazer uma campanha sobre escolhas políticas.
A partir de agora, São Paulo começa a decidir qual dessas duas narrativas vai prevalecer.