O secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, transforma o Brasil em epicentro de sua estratégia para as Américas e acirra o confronto direto com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva às vésperas da eleição de outubro. A ofensiva mistura sanções econômicas, revogação de vistos de autoridades brasileiras e um discurso de hegemonia regional que reativa o fantasma da “diplomacia de quintal”.
No Palácio do Planalto, a leitura é cristalina: Rubio tenta evitar a reeleição de Lula e fazer do país a “joia da coroa” de uma guinada à direita na América do Sul. A escalada já respinga na economia, na política externa e no clima da campanha presidencial.
Vídeo sobre domínio americano dispara alarme em Brasília
A crise ganha novo patamar com a publicação, neste mês, de um vídeo oficial do Departamento de Estado defendendo uma versão atualizada da antiga doutrina de domínio dos EUA sobre as Américas. No material, a pasta de Rubio afirma que o controle americano no continente “nunca mais será questionado” e cita ações contra o regime de Nicolás Maduro, na Venezuela.
Assessores de Lula enxergam no vídeo um recado direto ao Brasil. Para eles, Washington deixa claro que está disposto a agir para proteger seus interesses estratégicos, hoje ameaçados pela presença crescente da China na região. “Rubio quer ampliar a presença de governos alinhados à direita na América do Sul, e o Brasil é a joia da coroa dessa estratégia”, resume um interlocutor do Planalto. Outro assessor afirma que o republicano “transformou a América Latina em uma das principais bandeiras de sua atuação política”.
No entorno de Lula, a ala ideológica do governo Donald Trump, comandada por Rubio, é comparada de forma sarcástica aos “Pinguins de Madagascar pilotando o Air Force One”. A ironia tenta ilustrar o que veem como mistura de improviso, ideologia e demonstração de força, agora projetada sobre a maior economia da região.
Sanções, vistos revogados e o peso de 25% em tarifas
A retórica vem acompanhada de medidas concretas. Os Estados Unidos impõem tarifas de 25% sobre produtos brasileiros, atingindo diretamente exportadores que dependem do mercado americano. Setores como agronegócio, indústria manufatureira e tecnologia relatam aumento de custos, perda de competitividade e revisão de investimentos. Empresários calculam que contratos de médio prazo ficam em risco, com impacto em empregos e arrecadação.
No front diplomático, Rubio revoga o visto da embaixadora do Brasil em Washington, Maria Luiza Viotti, num gesto raríssimo entre países com relações históricas próximas. Em seguida, caem também os vistos do ministro Alexandre de Moraes e do advogado-geral da União, Jorge Messias. Em Brasília, o movimento é visto como resposta à demora do governo brasileiro em aceitar o novo embaixador americano, Daniel Perez, e às negativas de vistos a funcionários dos EUA.
Perez, de origem latina e alinhamento público a Rubio, ganha o apelido de “Mini Rubio” em círculos diplomáticos. Sua indicação é interpretada no Itamaraty como prova de que a linha dura não é um gesto isolado, mas parte de um plano de longo prazo para redesenhar a influência americana na América do Sul e conter a aproximação brasileira de Pequim.
Doutrina Donroe e interferência eleitoral no radar
Analistas em Washington e em capitais sul-americanas classificam a estratégia como “Doutrina Donroe” – uma releitura da antiga Doutrina Monroe adaptada ao século 21. A fórmula combina pressão política, tarifas, revogação de vistos e nomeação de embaixadores ideológicos, em vez de diplomatas de carreira. Na Argentina e no Peru, representantes próximos de Rubio já são acusados de interferência em disputas internas.
No Brasil, o cálculo do secretário de Estado mira diretamente a eleição de outubro. Ao enquadrar Lula como aliado de regimes autoritários e excessivamente próximo da China, Rubio oferece munição à oposição brasileira e ao entorno da família Bolsonaro, com quem mantém relacionamento estreito. A classificação de facções como PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas completa o pacote de pressão, ao aproximar o debate sobre segurança pública brasileira da agenda de combate ao terrorismo de Washington.
Lula reage tentando transformar o conflito em ativo político. Em discursos e conversas reservadas, acusa Rubio de ser “bolsonarista” e arrogante, empenhado em recolocar o Brasil sob tutela externa. A campanha aposta em uma narrativa de defesa da soberania nacional, na tentativa de conectar a disputa geopolítica ao sentimento de independência do eleitorado, mais preocupado com inflação, emprego e serviços públicos.
Incidente com ‘avião isca’ expõe estilo Rubio
O estilo confrontacional de Rubio também aparece em episódio recente envolvendo o Air Force One. Durante uma viagem internacional que inclui passagem pela Turquia, uma ameaça do Irã leva o governo Trump a montar uma operação sigilosa. O presidente troca de avião em segredo e deixa a aeronave oficial, enquanto mais de 100 pessoas, entre assessores, diplomatas e jornalistas, seguem viagem sem serem informadas do risco. Rubio está entre os passageiros do avião transformado em “isca”.
O caso provoca reação dura em Washington. “É preciso haver um informe ao Congresso, pois a questão não envolve apenas a segurança do presidente”, cobra o senador Richard Blumenthal. O apresentador Jake Tapper, da CNN, resume a perplexidade:
“Obviamente, a vida do presidente é primordial, mas nunca ouvi falar do uso de um Air Force One lotado de funcionários e jornalistas como isca”.
Para José Zamora, diretor regional do Comitê para a Proteção dos Jornalistas, “os repórteres devem ser informados sobre ameaças reais à segurança para que possam tomar decisões conscientes”.
O ex-agente da CIA Steven Cash vai além:
“Ao que parece, a ideia era reduzir o perigo para o presidente Trump oferecendo cerca de 100 pessoas para serem mortas pelos iranianos em seu lugar”.
O episódio alimenta críticas sobre o grau de risco que a equipe de Rubio está disposta a assumir em nome de operações de força e marca a percepção de que a atual política externa americana mistura cálculo eleitoral com demonstrações espetaculosas de poder.
Impacto na economia, na segurança e na disputa com a China
No Brasil, a ofensiva tem efeitos imediatos. As tarifas de 25% dificultam a vida de exportadores e pressionam o câmbio. Investidores estrangeiros reavaliam planos, atentos ao risco de uma escalada que atinja setores estratégicos, como energia e tecnologia. A possibilidade de retaliações brasileiras, ainda tímida no discurso oficial, preocupa empresas que dependem de insumos e financiamento internacionais.
A cooperação em segurança transnacional também entra em zona cinzenta. Operações conjuntas contra o crime organizado e o tráfico de drogas ficam sob escrutínio, enquanto o clima político azedo ameaça canais de inteligência construídos ao longo de décadas. Especialistas alertam que o preço de uma ruptura pode ser alto para ambos os lados, embora a assimetria de poder entre as economias coloque o Brasil em posição mais vulnerável.
No tabuleiro global, o vácuo deixado por uma relação deteriorada abre espaço para a China aprofundar laços comerciais e tecnológicos com Brasília. Justamente o cenário que Rubio diz querer evitar com sua Doutrina Donroe. A resposta brasileira a essa encruzilhada, somada ao resultado das urnas em outubro, tende a definir o rumo da presença americana na América do Sul pelos próximos anos.
A poucos meses da votação, nenhuma das partes recua. Lula aposta na narrativa de soberania e tenta blindar a economia dos efeitos mais duros das sanções. Rubio segue elevando o tom, certo de que a pressão sobre o governo petista fortalece seu próprio capital político interno e consolida sua imagem de guardião da influência americana no continente. O próximo capítulo dessa disputa será escrito nas urnas brasileiras, mas os efeitos da crise já ultrapassam o calendário eleitoral.