Banco Central investiga vazamentos e suspeitas de corrupção no caso Banco Master

Depoimento à Polícia Federal colocou sob suspeita relações entre funcionários do BC e integrantes do grupo de Daniel Vorcaro; apuração também envolve a Mastercard e o Will Bank
Redação NC News
ouça este conteúdo
00:00 / 00:00
1x

O Banco Central passou a enfrentar uma crise que vai além dos problemas que levaram à liquidação do Banco Master. Uma investigação da Polícia Federal apura suspeitas de vazamento de informações sigilosas, possíveis conflitos de interesse e eventuais pagamentos indevidos envolvendo servidores da área de fiscalização da instituição.

O caso ganhou força a partir de um depoimento sigiloso prestado à PF pelo diretor de Fiscalização do Banco Central, Ailton de Aquino. Segundo o relato, informações reservadas sobre a situação do Master teriam circulado fora do órgão antes da liquidação decretada em novembro de 2025.

A apuração também alcança relações entre servidores do BC e o empresário Daniel Vorcaro, ligado ao grupo Master, além de episódios envolvendo o Will Bank e a Mastercard.

 

Por que os vazamentos preocupam o Banco Central?

Segundo Ailton de Aquino, a circulação de informações internas provocou preocupação dentro do próprio Banco Central. O diretor relatou que o presidente da instituição, Gabriel Galípolo, passou a restringir o acesso a informações relacionadas à possível liquidação do Master para reduzir o risco de novos vazamentos e de interferências externas.

A preocupação é considerada especialmente sensível porque o Banco Central exerce a função de regulador e fiscalizador do sistema financeiro.

Informações antecipadas sobre uma eventual intervenção ou liquidação podem ter impacto sobre instituições financeiras, investidores, credores e outros agentes do mercado.

A liquidação do Banco Master foi decretada em novembro de 2025, depois do agravamento dos problemas financeiros e regulatórios enfrentados pelo conglomerado.

A medida buscou reduzir os riscos para o sistema financeiro e proteger os interesses de depositantes e investidores.

 

Quais servidores entraram na mira da investigação?

A investigação passou a concentrar atenção em dois servidores da área de fiscalização do Banco Central: Bellini Santana e Paulo Sérgio Neves de Souza.

De acordo com o depoimento de Aquino à Polícia Federal, os dois mantinham contato frequente com Daniel Vorcaro.

O diretor afirmou que a relação teria ultrapassado o nível considerado adequado entre um órgão regulador e uma instituição submetida à fiscalização.

Segundo o relato, os servidores não apenas cobravam informações do grupo Master, mas também teriam antecipado questionamentos e ajudado na elaboração de explicações que seriam apresentadas pelo banco.

Essa proximidade passou a ser analisada como possível conflito de interesse.

As defesas dos servidores negam irregularidades e afirmam que a atuação deles foi técnica. Segundo os advogados, ambos defendiam a liquidação do Master diante da deterioração da situação financeira da instituição.

 

Quais negócios privados estão sendo investigados?

A Polícia Federal também analisa negócios privados envolvendo os servidores e pessoas ligadas ao grupo Master.

Entre os episódios citados na investigação está uma consultoria de R$ 2 milhões atribuída a Bellini Santana e prestada a Leonardo Palhares, ligado ao conglomerado.

Outro negócio sob análise envolve Paulo Sérgio Neves de Souza. Segundo as informações apresentadas na investigação, ele teria vendido um imóvel rural por R$ 4,5 milhões para uma pessoa próxima a Daniel Vorcaro.

As transações passaram a ser examinadas justamente por causa da proximidade entre os servidores e integrantes do grupo financeiro.

A existência desses negócios, porém, não significa por si só que tenha ocorrido crime. A investigação precisa determinar a natureza das operações, suas circunstâncias e se houve qualquer relação com as funções exercidas pelos servidores no Banco Central.

 

Reunião no Banco Central aumentou a tensão

Um dos episódios considerados importantes na apuração ocorreu em 7 de janeiro de 2026, durante uma reunião no gabinete da presidência do Banco Central.

Segundo Ailton de Aquino, Gabriel Galípolo teria relatado, na presença do procurador do BC, Cristiano Cozer, que havia recebido informações de interlocutores anônimos sobre supostos pagamentos feitos por Daniel Vorcaro a Paulo Sérgio e Bellini Santana.

O relato provocou uma reação dentro do Banco Central.

A instituição passou a aprofundar a apuração interna, ouviu servidores e posteriormente afastou os dois funcionários.

A partir daí, a investigação passou a analisar não apenas a possibilidade de vazamento de informações, mas também se houve pagamentos indevidos e eventual utilização de dados sigilosos em benefício de interesses privados.

Até o momento, essas suspeitas permanecem sob investigação e não representam uma conclusão definitiva sobre a responsabilidade dos envolvidos.

O que a Mastercard tem a ver com o caso?

Outro capítulo da investigação envolve a Mastercard e o Will Bank, braço digital do grupo Master.

Segundo o depoimento de Aquino, os próprios servidores que posteriormente entraram na mira da investigação levaram à diretoria do Banco Central informações de que a Mastercard poderia encerrar sua parceria com o Will Bank.

A possibilidade era considerada relevante porque o banco digital dependia do arranjo de pagamentos para manter suas operações com cartões.

A situação também teria chegado a Daniel Vorcaro, que, segundo o relato, procurou interlocutores no Banco Central na tentativa de reverter o cenário.

Aquino também afirmou ter conversado diretamente com Marcelo Tangioni, presidente da Mastercard no Brasil, sobre o assunto.

Posteriormente, a Mastercard decidiu interromper a aceitação de transações do Will Bank e acionou garantias relacionadas a empresas oferecidas como colateral.

 

Defesa apresenta outra versão sobre as tratativas

A defesa de Paulo Sérgio apresenta uma versão diferente sobre a atuação posterior dos envolvidos.

Segundo o advogado Odel Antun, as tratativas realizadas depois da liquidação do Banco Master tinham como objetivo preservar as operações da Will Financeira e garantir recursos para que a instituição pudesse cumprir suas obrigações.

A defesa também sustenta que a atuação do servidor era técnica e que ele não teria cometido irregularidades.

As versões apresentadas pelos envolvidos fazem parte da apuração e deverão ser confrontadas com documentos, contratos, registros de comunicação e movimentações financeiras analisados pelos investigadores.

 

O que a Polícia Federal está investigando?

 

Por que o caso é tão delicado para o Banco Central?

O problema para o Banco Central não está apenas nas suspeitas envolvendo os servidores.

A investigação também coloca em discussão a segurança das informações produzidas dentro do próprio órgão.

O BC lida diariamente com dados sensíveis sobre instituições financeiras, operações de mercado e situações que podem provocar fortes impactos econômicos.

Por isso, um eventual vazamento pode comprometer não apenas uma investigação específica, mas a confiança nos mecanismos utilizados pelo órgão para proteger informações e tomar decisões.

O caso também reacende discussões sobre conflitos de interesse, relacionamento entre reguladores e empresas fiscalizadas e regras aplicadas a servidores que trabalham diretamente com informações estratégicas.

 

ENTENDA O CONTEXTO

O Banco Master entrou em uma grave crise financeira e regulatória antes de ter sua liquidação decretada pelo Banco Central, em novembro de 2025.

Depois da liquidação, a atenção das autoridades também se voltou para o próprio processo de fiscalização.

A Polícia Federal passou a investigar relatos de vazamentos de informações sigilosas e a relação entre servidores do Banco Central e pessoas ligadas ao grupo Master.

Dois funcionários da área de fiscalização, Bellini Santana e Paulo Sérgio Neves de Souza, foram afastados e passaram a ser citados na apuração.

O caso também envolve negócios privados, suspeitas de pagamentos e a crise relacionada à parceria entre o Will Bank e a Mastercard.

Agora, os investigadores precisam esclarecer se houve apenas relações profissionais e operações privadas sem irregularidades ou se as transações e contatos tiveram alguma ligação indevida com informações e decisões do órgão regulador.

A resposta pode ter consequências não apenas para os envolvidos, mas também para os mecanismos de controle e segurança do Banco Central.

Carregar Comentários