Lula segue à frente na corrida presidencial, mas vê Flávio Bolsonaro encostar no segundo turno e transformar a disputa em um jogo de margens apertadas e alianças rarefeitas.
Pesquisas expõem disputa mais apertada e eleitorado dividido
Levantamento CNT/MDA com 2.002 entrevistados mostra Lula com 48% das intenções de voto em um eventual segundo turno, contra 39,1% de Flávio Bolsonaro. A vantagem do presidente cai de 12 para 9 pontos em relação à rodada anterior, e sinaliza que o bolsonarismo recupera terreno.
No primeiro turno, Lula lidera com 42,4%, enquanto Flávio aparece com 28,7%. Outros nomes somam percentuais discretos, e o cenário espontâneo reforça a polarização: 35,3% citam Lula sem estímulo, 22,4% mencionam Flávio e 30,7% ainda não sabem em quem votar.
A pesquisa Poder/Aya, com 2.400 eleitores ouvidos entre 9 e 12 de agosto, indica empate técnico entre Lula e Flávio em um dos cenários considerados mais prováveis de segundo turno. O levantamento também registra empates do presidente com Romeu Zema e Ronaldo Caiado, sempre dentro da margem de erro de 2 pontos percentuais.
A combinação dos dois estudos coloca o país diante de uma disputa mais aberta do que a vantagem numérica de Lula sugere. O presidente segue favorito, mas encontra um adversário competitivo, com voto consolidado e capacidade de crescer em segmentos específicos do eleitorado.
Mapas regionais, religião e renda definem trincheiras
O recorte regional da CNT/MDA mostra um país partido em dois tabuleiros. No Nordeste, Lula mantém domínio: 65% das intenções de voto em um eventual segundo turno, contra 26% de Flávio. Entre eleitores de renda de até dois salários mínimos, o presidente também abre vantagem, por 54% a 31%.
O senador reage em outras frentes. Entre evangélicos, lidera com 53%, diante de 33% de Lula. No Sul, Flávio aparece com 46%, contra 39% do presidente. No conjunto de Norte e Centro-Oeste, o placar também é favorável ao bolsonarista: 49% a 41%.
No Sudeste, região mais populosa e estratégica, o cenário é de equilíbrio absoluto, com 42% para cada lado. A divisão por perfis religiosos também reforça a clivagem: Lula vence entre católicos, com 56% a 34%, enquanto Flávio consolida a liderança entre evangélicos, base central do bolsonarismo desde 2018.
Os índices de rejeição revelam fragilidades simétricas. Flávio Bolsonaro acumula 54,5% de eleitores que dizem não votar nele de jeito nenhum, contra 46,2% que rejeitam Lula. A rejeição alta dos dois lados torna o campo para uma terceira via teoricamente fértil, mas nenhum nome consegue, até agora, traduzir esse espaço em intenção de voto relevante.

Centrão se recolhe, e campanhas correm sem grandes coligações
Enquanto as pesquisas expõem uma eleição polarizada, o tabuleiro partidário passa por uma mudança silenciosa. Lula chega à disputa apoiado por sete partidos, todos do campo da esquerda e centro-esquerda, como PCdoB, PV, PSOL-Rede, PSB e PDT, e mantém Geraldo Alckmin como vice. Flávio Bolsonaro concorre praticamente isolado, sem o guarda-chuva do Centrão.
Analistas veem nesse distanciamento um movimento estrutural. “Aqueles tempos de coligações entre partidos de centro e de partidos grandes e médios não existem mais”, resume o cientista político Lucas Aragão, da Arko Advice. As grandes siglas preferem hoje concentrar forças na formação de bancadas robustas na Câmara e no Senado.
Para esses partidos, o cálculo é financeiro e de poder. Em 2026, as emendas parlamentares somam R$ 61 bilhões, distribuídos conforme o tamanho das bancadas. Uma presença forte no Congresso garante orçamento, influência e a possibilidade de negociar com qualquer presidente eleito, sem ter amarrado apoio formal na campanha.
Flávio Bolsonaro sente mais diretamente esse reposicionamento. Sem ter conseguido atrair as maiores legendas de centro, escolhe como vice o deputado Alfredo Gaspar, do próprio PL, figura de baixa projeção nacional. “O vice escolhido reflete uma maturidade do Centrão, de entender que é melhor estar na eleição para o Congresso do que em uma eleição para a Presidência”, avalia Creomar de Souza, analista político e professor da Fundação Dom Cabral.
Ele acrescenta que o grupo não abraça nenhuma candidatura presidencial: “O Centrão não comprou a candidatura do Lula, não comprou a candidatura do Flávio, nem de outro candidato. Isso deixou o Flávio sem opções”. Lula, mesmo com uma frente maior, também não conta com o peso de grandes legendas de centro-direita que, em outros ciclos, foram decisivas.
Campanhas mais diretas, governabilidade mais incerta
A neutralidade do Centrão na disputa presidencial empurra os dois principais candidatos para uma campanha mais direta, baseada na relação com o eleitor e na polarização ideológica. Sem palanques robustos em todos os Estados, Lula e Flávio precisam concentrar esforços em bases onde já têm vantagem, como o Nordeste lulista e o Sul e Centro-Oeste bolsonaristas, e disputar voto a voto em áreas de equilíbrio, como o Sudeste urbano.
Estratégias segmentadas ganham força. Equipes de campanha miram grupos específicos, como evangélicos, católicos, beneficiários de programas sociais e classes médias urbanas. O objetivo é reduzir rejeição e aumentar fidelidade em nichos capazes de decidir margens apertadas de segundo turno.
A consequência mais sensível aparece no dia seguinte à eleição. Um presidente eleito sem o apoio formal das maiores siglas de centro chega ao Planalto com menos garantias de governabilidade. O Centrão, ao priorizar o Congresso, preserva liberdade para negociar caso a caso, aumentando o preço político de cada votação relevante.
A esta altura da corrida, analistas veem um cenário em que o Executivo tende a sair mais fragilizado, enquanto o Legislativo concentra orçamento, cargos e poder de veto sobre as principais políticas públicas. A polarização nas urnas convive com um pragmatismo extremo na relação com o próximo governo.
Os próximos meses devem intensificar esse jogo duplo. Campanhas de Lula e Flávio prometem crescer em tom e presença nas ruas, enquanto partidos de centro medem cada gesto para não comprometer alianças regionais e candidaturas ao Congresso. A decisão do eleitor, num ambiente de rejeição alta e empate técnico em cenários de segundo turno, mantém a disputa aberta até a reta final.
O país entra na temporada eleitoral com uma pergunta em aberto: quem vencer, conseguirá construir maioria estável em um Congresso fortalecido pela própria escolha de ficar de fora da briga presidencial?