Não importa o quão grande seja a corporação. Não importa se é uma big tech como as gigantes Meta, Apple ou Microsoft, não importa se são grandes produtoras como Warner ou Disney, ou grandes distribuidoras como a Netflix. Ninguém, absolutamente ninguém está a salvo da tiktokzação do conteúdo.
O processo de adoecimento da sociedade iniciou há muitos séculos e em diferentes contextos. Enfrentamos, durante décadas, diferentes tipos de doenças, sejam elas preconceitos, sistemas, progressos, retrocessos ou a simples teimosia humana. Se olharmos para trás, teremos a sensação de que o mundo enfrentou coisas piores, problemas maiores e inimigos mais cruéis, mas sempre acreditei que os piores inimigos são os silenciosos e tímidos, ou os barulhentos mas “inocentes”.
Se um dia enfrentamos a peste negra, hoje enfrentamos uma doença tão contagiosa quanto: os vídeos curtos. O fenômeno TikTok obrigou todo o mercado, independente de qual segmento ele seja, a se moldar para os novos modelos de algoritmo e imediatismo, tornando toda a criatividade, que já estava escassa, em um grande produto subvalorizado com um único objetivo: acumular capital.
A grande novidade da Netflix
A Netflix anunciou há algum tempo a adesão de um feed personalizado para a plataforma (exclusivamente em dispositivos portáteis, até então), em formato vertical (é claro), com o objetivo de transmitir prévias curtas de filmes, séries e propagandas.
Isso é, à primeira vista, apenas uma sacada inteligente de marketing e integração não apenas com o público jovem, mas de todas as idades. O fenômeno explosivo dos vídeos curtos atingiu a internet como uma epidemia, se tornando uma categoria essencial para a proliferação de conteúdo e exposição de marca.
Mas ao nos aprofundarmos na questão, esta verdadeira epidemia revela uma realidade visualmente latente, mas socialmente ostensiva: estamos cada vez mais ansiosos. A sociedade enfrenta uma tensão comercial e sistemática, retrocedendo cada vez mais aos passados já superados, e se prepara para uma nova implosão.
No fim, você pode estar se perguntando o que exatamente isso tem a ver com a adesão ao mercado de vídeos curtos pela Netflix, e eu vou te explicar agora.

A overdose que nos mata é de dopamina
O debate do impacto de tempo de tela na mente humana tem crescido muito ao longo dos anos com o aumento de casos de ansiedade e déficit de atenção em crianças e jovens, onde a introdução tecnológica e o tempo a se passar nela são debatidos frequentemente entre pais e responsáveis.
E esse debate e essa alta dos casos de ansiedade e déficit são exatamente a resposta que as big techs precisavam para intensificar seu mercado e expandir seu negócio. Afinal, um bom consumidor é aquele que precisa consumir. Hoje, vídeos curtos são como cigarros para um fumante ou cerveja para um alcóolatra: baratos, fáceis de se ter, rápidos de se consumir.
A dependência química e a dependência psicológica se encontram em um ponto de intersecção e se fundem a uma única camada de vício que gera uma outra problemática: o imediatismo.
Hoje, com a explosão desse mercado, todos estão acostumados a receber respostas rápidas e diretas. Todos chegam ao final do livro sem passar pelo segundo ato, pois não importa o que se aprende com a jornada ou o que se reflete com o conteúdo, o que importa é, no fim, consumir. Nada mais tem um objetivo ou interesse, existe apenas a fome. A fome incessante e insaciável do consumo e da dopamina que traz um período de prazer tão inexplicável e tão intenso que você pode ter visto o primeiro reels às oito da manhã, você só vai parar quando se lembrar de almoçar às uma da tarde.

O problema Netflix
E como se não bastasse os orçamentos multimilionários para abandonar as telas dos cinemas e aderir ao insosso led de televisão, a Netflix se destaca no mercado por ser uma corporação que se molda ao seu público.
Com a explosão do Tiktok, tem crescido a quantidade de pessoas que não conseguem parar e assistir a um filme. Antes poderíamos considerar isso um traço de personalidade. Às vezes as pessoas só preferem outras coisas, como literatura ou música, mas hoje o buraco é mais embaixo. Não existe falta de vontade, existe apenas a pura incapacidade de “sobreviver” a um diálogo mais longo, um plano sequência, um filme com menos ação ou um take mais simples.
A Netflix incorporar vídeos curtos à sua plataforma é uma pá de cal àquilo que nós sempre soubemos. Se ficamos escandalizados com o relato de Matt Damon (Gênio Indomável, Perdido em Marte, Odisseia) de que a produtora obriga os roteiristas a explicarem o plot de três a quatro vezes para que não seja necessário prestar tanta atenção, ou se ficamos aterrorizados ao perceber que a colorização de suas obras sequer é pensada para as televisões, mas para os celulares, ou se ficamos tristes quando uma série um pouco mais bem trabalhada dentro de moldes sociais e filosóficos é cancelada, acho que deveríamos ficar triplamente mais abismados com o momento que passamos, onde nem mesmo o cinema poderia sobreviver à febre dos shorts.