Leicester City é vendido por £222 mi após queda à championship

Após rebaixamento e grandes prejuízos, o clube inglês Leicester City é vendido por £222 milhões à família King Power.
Redação NC News
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O Leicester City, campeão inglês há uma década, está oficialmente à venda por 222 milhões de libras após o rebaixamento à terceira divisão e uma crise financeira profunda.

O clube, controlado pela família tailandesa King Power desde 2010, coloca no mercado não só o time profissional, mas um pacote que inclui estádio, centro de treinamento, equipe feminina, base e até um clube belga.

Do auge ao abismo em uma década

O contraste é brutal. O Leicester que chocou o mundo ao conquistar a Premier League hoje disputa a League One, terceira divisão inglesa, e tenta sobreviver fora de campo. O rebaixamento em abril derruba receitas de TV, afasta patrocinadores e corrói a valorização do elenco.

Leicester City foi campeão da Premier League em 2016 e se tornou a sensação da Champions de 17-18

A queda expõe fissuras abertas há anos nas contas. Desde 2021, o clube acumula mais de 270 milhões de libras em prejuízos nos balanços. A gestão sustenta salários, amortizações de transferências e manutenção de infraestrutura de nível de elite com receitas em queda acelerada.

A família King Power comprou o Leicester por 35 milhões de libras em 2010 e guiou o clube ao título nacional e à elite europeia. Passa agora a responsabilidade adiante em um dos momentos mais delicados da história da instituição.

Project Lineup: tudo vai à mesa

A venda é conduzida com apoio do Citigroup, que desenvolve o “Project Lineup”, um dossiê para investidores interessados. O documento detalha o que está em jogo: o time masculino, a equipe feminina, as categorias de base, o estádio King Power e o Centro de Treinamento Seagrave, além do OH Leuven, clube belga que integra o mesmo grupo.

O estádio King Power, em Leicester, tem valor estimado de 121 milhões de libras. Em 2025, todo o patrimônio físico do clube, somando arena, centro de treinamento e demais estruturas, foi avaliado em 204 milhões de libras. O pacote oferece, portanto, ativos tangíveis relevantes, mesmo em meio à turbulência esportiva.

Estádio do Leicester, King Power, casa da histórica temporada de 2016

O grupo econômico inclui ainda o OH Leuven, que funciona como plataforma de desenvolvimento e circulação de jogadores entre Inglaterra e Bélgica. A inclusão do clube belga na oferta amplia o alcance internacional da operação e tende a atrair fundos com estratégia multiclubes, hoje comuns no futebol europeu.

Preço alto e ceticismo do mercado

O ponto de tensão está no preço pedido: 222 milhões de libras. Analistas de mercado consideram a cifra ambiciosa diante do cenário esportivo atual e da posição do Leicester na pirâmide inglesa. O histórico recente de negociações de clubes da terceira divisão puxa a régua para baixo.

“O valor pedido pelos proprietários está muito acima do que se pagou por clubes do mesmo patamar”, afirma Felipe Lobo, do Sport Insider.

Ele cita o exemplo do Ipswich Town, vendido por 40 milhões de libras enquanto disputava a League One.

Até aqui, só há um interessado conhecido. “O único interessado até agora é um grupo não identificado do Oriente Médio”, relata Lobo.

A identidade e a real capacidade financeira desse grupo seguem sob sigilo, o que alimenta dúvidas sobre a evolução das conversas.

Mudança brusca de rota na cúpula

A decisão de vender marca uma guinada na postura da direção. No início do ano, o presidente Aiyawatt Srivaddhanaprabha, conhecido como Khun Top, afastava qualquer possibilidade de se desfazer do clube.

“Em janeiro, o presidente Khun Top dizia que não venderia o clube”, lembra Lobo.

Aiyawatt Srivaddhanaprabha, conhecido como Khun Top, presidente do Leicester

O recuo indica a gravidade da situação. O rebaixamento acelera a pressão por liquidez, e as perdas acumuladas desde 2021 reduzem a margem de manobra dos proprietários. A venda surge como forma de proteger o restante do grupo King Power e evitar que a espiral de dívidas fuja do controle.

A herança de seu pai, Vichai Srivaddhanaprabha, morto em um acidente de helicóptero, pesa sobre Khun Top. O Leicester se torna símbolo do sucesso da família no futebol europeu, mas também um desafio financeiro difícil de sustentar sem acesso às grandes receitas da primeira divisão.

Quem ganha, quem perde com a venda

Um eventual comprador encontra um clube em baixa esportiva, mas com ativos estruturais prontos para uso imediato. O estádio moderno, o centro de treinamento de ponta e uma base consolidada de torcedores oferecem potencial de valorização se o time retornar ao topo.

Se o valor de 222 milhões de libras for negociado para baixo, investidores podem adquirir um pacote robusto por um preço relativamente descontado, considerando o histórico de receitas da Premier League e a força da liga inglesa mesmo nas divisões inferiores.

Torcedores, funcionários e a comunidade local convivem com uma mistura de expectativa e medo. A saída da família King Power abre dúvidas sobre a continuidade de projetos sociais, investimentos na cidade e o perfil dos novos donos. Mudanças bruscas de gestão podem afetar o dia a dia do clube, do elenco profissional ao time feminino e às categorias de base.

O mercado do futebol inglês observa o caso com atenção. A entrada de um grupo do Oriente Médio, se confirmada, pode reposicionar o Leicester como candidato a subir rapidamente, alterando o equilíbrio competitivo na League One e nas divisões acima em médio prazo.

Futuro incerto, reconstrução obrigatória

O processo de venda ainda está em fase inicial, sem acordo próximo. Especialistas financeiros e esportivos tratam com ceticismo a chance de o negócio sair exatamente pelo valor pedido. A tendência, avaliam, é de longas negociações, possíveis ajustes de preço e cláusulas atreladas a desempenho futuro.

Se a venda avançar, o novo proprietário herdará uma missão dupla: reerguer o time esportivamente e estancar o sangramento financeiro de mais de 270 milhões de libras em perdas recentes. Cortes de gastos, reestruturação de elenco, revisão de políticas salariais e uso intensivo da base devem entrar na pauta.

Se o negócio travar, o Leicester corre o risco de viver um período prolongado de instabilidade. A permanência na terceira divisão por mais de uma temporada aprofundaria o buraco financeiro e afastaria ainda mais o clube do cenário europeu que viveu ao disputar a Champions League. O desfecho, acompanhado com atenção por torcedores e pelo mercado, tende a redesenhar não só o futuro do Leicester, mas também o mapa de forças nas divisões inferiores da Inglaterra.

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