A Confederação Brasileira de Voleibol (CBV) anunciou nesta sexta-feira (14) uma nova política de elegibilidade para a categoria feminina. A partir de agora, as principais competições nacionais terão como critério de participação o sexo biológico da atleta, com triagem genética do gene SRY como mecanismo inicial de categorização.
A mudança afeta diretamente a participação de Tifanny Abreu, jogadora trans que atua pelo Osasco São Cristóvão Saúde e se tornou uma das atletas mais conhecidas do vôlei feminino brasileiro.
A nova política foi publicada pela CBV e estabelece critérios para a participação em competições femininas. A entidade afirma que a regulamentação brasileira foi elaborada em alinhamento às normas internacionais da Federação Internacional de Voleibol (FIVB) e às mudanças recentes adotadas pelo Comitê Olímpico Internacional (COI).
O que muda no vôlei brasileiro
A principal alteração é a adoção de um procedimento de triagem genética baseada no gene SRY, associado à presença do cromossomo Y.
Pelas regras da FIVB, a presença do cromossomo Y leva à classificação inicial para a categoria masculina, enquanto a ausência do cromossomo Y permite a elegibilidade para a categoria feminina. O regulamento prevê ainda procedimentos específicos para situações médicas excepcionais e casos em que o resultado apresentado possa ser questionado.

A CBV incorporou esse princípio à sua política nacional.
Na prática, a medida restringe a categoria feminina a atletas que atendam aos critérios biológicos definidos pela nova regulamentação. Por isso, mulheres trans que apresentem cromossomo Y deixam de ser elegíveis para disputar as competições femininas sob esse critério.
A entidade afirma que a mudança busca padronizar as regras brasileiras com o cenário internacional.
“A decisão se adequa ao COI e deixa nossos campeonatos equiparados com as competições internacionais”, afirmou o presidente da CBV, Radamés Lattari.

Tifanny Abreu está entre as atletas afetadas
Uma das consequências mais imediatas da nova regra envolve Tifanny Abreu, que atua no vôlei feminino brasileiro desde 2017 e passou a integrar a história da modalidade como uma das primeiras mulheres trans a disputar a Superliga feminina.
A atleta defende atualmente o Osasco São Cristóvão Saúde.
Com a nova política, sua participação na categoria feminina passa a ser incompatível com o critério de elegibilidade baseado no teste SRY, caso seja confirmada a presença do cromossomo Y.
O Osasco foi procurado para comentar a mudança, mas não havia se manifestado até a publicação desta reportagem. Tifanny também foi procurada e, até o momento, não respondeu.

Regra já vinha sendo adotada internacionalmente
A mudança da CBV não surgiu de forma isolada.
A FIVB alterou suas regras de elegibilidade e passou a utilizar o teste do gene SRY como critério inicial para determinar a categoria sexual de atletas. O regulamento internacional estabelece que as federações nacionais devem apresentar os resultados dos testes para as jogadoras inscritas nas competições, realizados por laboratórios aprovados pela entidade ou pela confederação correspondente.
A própria documentação da CBV registra que a FIVB aprovou a utilização da triagem do gene SRY em setembro de 2025 e que a exigência passou a fazer parte do novo cenário regulatório internacional.
Em setembro de 2025, a FIVB também discutiu a implementação dos testes e estabeleceu que a nova regra seria aplicada à temporada de seleções de 2026. A entidade ressaltou que casos específicos poderiam ser avaliados individualmente.
E o que mudou no COI?
A mudança brasileira também ocorre após uma alteração importante na política do Comitê Olímpico Internacional.
Em março de 2026, o COI anunciou uma nova Política de Proteção da Categoria Feminina, estabelecendo uma nova abordagem para a elegibilidade nas competições femininas do movimento olímpico.
A decisão do COI faz parte de uma mudança mais ampla nas regras internacionais sobre participação de atletas trans e critérios relacionados ao sexo biológico no esporte de alto rendimento.
No caso do vôlei, a FIVB adotou regras próprias para suas competições, e a CBV decidiu alinhar a regulamentação nacional a esse modelo.
Quais competições serão afetadas?
A nova política da CBV passa a alcançar as principais competições nacionais, entre elas:
- Superliga A 2026/2027;
- Superliga B 2026/2027;
- Supercopa 2026;
- Copa Brasil 2027;
- competições nacionais de vôlei de praia.
A mudança, portanto, não se limita à seleção brasileira. Ela alcança também competições organizadas dentro do calendário nacional da CBV.
Como funciona o teste SRY?
O SRY é uma região do cromossomo Y relacionada ao desenvolvimento sexual masculino. Na política da FIVB, o teste é utilizado como critério inicial de categorização para fins esportivos, e não como uma tentativa de definir a identidade de gênero de uma pessoa.
O regulamento internacional deixa explícito que a entidade está estabelecendo critérios de elegibilidade para uma determinada categoria esportiva.
A FIVB também prevê a possibilidade de uma nova avaliação quando houver razões médicas para questionar o resultado apresentado, suspeita de fraude ou ausência do teste exigido. Nesses casos, o exame pode ser realizado de maneira independente e confidencial.
Mudança abre novo debate no esporte
A decisão da CBV coloca o vôlei brasileiro no centro de um dos debates mais controversos do esporte mundial: como definir os critérios de acesso às categorias masculina e feminina e, ao mesmo tempo, conciliar competitividade, segurança, direitos individuais e inclusão.
De um lado, as entidades esportivas defendem que a separação por sexo biológico é necessária para preservar a competição feminina e estabelecer critérios objetivos de elegibilidade.
De outro, a aplicação dessas regras sobre atletas trans provoca questionamentos sobre inclusão, direitos e os métodos utilizados para estabelecer a classificação.
A própria FIVB afirma, em sua política de proteção, que participantes de seus eventos têm direito a um ambiente livre de assédio e abuso, independentemente de sexo, orientação sexual ou outras características pessoais.
A nova regulamentação brasileira, portanto, não representa apenas uma alteração administrativa. Ela marca a entrada do vôlei nacional em uma nova fase da discussão internacional sobre sexo, gênero e elegibilidade esportiva.
Entenda o contexto
A CBV decidiu alterar os critérios de elegibilidade da categoria feminina seguindo uma mudança que já vinha sendo implementada internacionalmente pela FIVB.
O ponto central da nova regra é a utilização do teste do gene SRY como mecanismo inicial para determinar a categoria esportiva da atleta. A presença do cromossomo Y direciona a classificação para a categoria masculina; a ausência permite a elegibilidade para a feminina, segundo as regras internacionais.
A mudança terá impacto direto sobre Tifanny Abreu, uma das atletas trans mais conhecidas do vôlei brasileiro. A jogadora ainda não se manifestou sobre a nova política.
A regulamentação também acompanha uma transformação mais ampla no esporte internacional. Em março deste ano, o COI anunciou uma nova política para proteção da categoria feminina, enquanto a FIVB estabeleceu seus próprios critérios para as competições de vôlei.
Assim, a temporada 2026/2027 do vôlei brasileiro começa sob uma regra diferente — e com uma discussão que deve ultrapassar as quadras e chegar aos tribunais, às entidades esportivas e ao debate público.