Muito além dos votos, Lula e Flávio começam a campanha disputando quem terá o controle da narrativa sobre o Brasil

Lula usa a pressão de Trump para se apresentar como estadista que defende a soberania nacional. Flávio começa no território mais fiel ao bolsonarismo, mas terá de provar que consegue ser o candidato de uma direita brasileira, e não apenas o herdeiro político de Jair Bolsonaro.
ouça este conteúdo
00:00 / 00:00
1x

 

A eleição presidencial começou oficialmente, mas Lula e Flávio Bolsonaro não iniciaram a mesma campanha.

O primeiro movimento de cada um revela uma diferença importante. Lula escolheu falar como presidente. Flávio começou falando como herdeiro do bolsonarismo.

No ABC paulista, território onde construiu sua trajetória política, Lula transformou a soberania nacional em uma das primeiras bandeiras da campanha. O discurso contra pressões externas, especialmente vindas dos Estados Unidos de Donald Trump, permite ao petista ocupar um espaço político bastante conhecido: o de quem apresenta a eleição como uma disputa entre a defesa dos interesses brasileiros e a interferência estrangeira.

Não é um tema improvisado. Lula já vinha incorporando a palavra “soberania” ao discurso político e econômico, inclusive ao defender investimentos e produção dentro do Brasil. Agora, o tema ganha uma dimensão eleitoral mais direta.

Flávio começa pela consolidação da base

Flávio fez o movimento contrário. Escolheu Copacabana, um dos principais símbolos das mobilizações bolsonaristas, e abriu a campanha diante de uma plateia que já conhece a linguagem política da família Bolsonaro. Foi uma largada para consolidar a base antes de tentar ampliar o eleitorado.

E aqui está o problema estratégico de Flávio. Ser o candidato da direita é uma coisa. Ser apenas o candidato do bolsonarismo é outra. A proximidade com Donald Trump pode funcionar muito bem dentro de uma parcela do eleitorado que enxerga o ex-presidente americano como referência. Mas existe uma fronteira eleitoral delicada.

Uma coisa é defender uma relação mais próxima entre Brasil e Estados Unidos. Outra é transmitir ao eleitor a impressão de que Brasília passaria a responder politicamente a Washington. É exatamente nessa fronteira que Flávio será testado.

A disputa pela narrativa nacional

A presença de símbolos americanos em manifestações de apoio pode empolgar uma parte da militância, mas também oferece a Lula um argumento simples para explorar durante a campanha: quem representa os interesses do Brasil? Esse é o terreno em que a eleição pode ficar mais interessante.

Lula tenta transformar Trump em personagem da disputa brasileira. Flávio precisa impedir que Trump vire um personagem maior do que ele próprio. E há uma razão para isso.

Flávio não está apenas disputando contra Lula. Está tentando suceder Jair Bolsonaro como principal liderança eleitoral da direita brasileira. Por isso, precisa conservar a identidade política da família e, ao mesmo tempo, construir uma imagem própria.

A imprensa internacional também já identifica esse dilema, ao apontar que Flávio tenta preservar a base do pai enquanto busca alcançar eleitores mais moderados.

A necessidade de ampliar fronteiras eleitorais

O curioso é que os dois começam a campanha precisando ampliar seus próprios limites. Lula tem uma base consolidada no Nordeste, mas precisa continuar competitivo no Sudeste e em estados decisivos para uma eventual vitória em segundo turno. Por isso, a estratégia do PT combina Nordeste com São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais.

Flávio tem um ativo importante no Sul, Sudeste e em parte do eleitorado conservador, mas precisa transformar força regional e identidade ideológica em maioria nacional. Minas Gerais, por exemplo, ganha peso nesse cálculo.

A própria agenda de Flávio para o estado mostra que a campanha não pretende ficar restrita ao Rio de Janeiro.

Mais do que uma disputa entre PT e PL

No fundo, a eleição começa com uma pergunta que vai além da polarização entre PT e PL: quem consegue falar com o eleitor sobre o Brasil sem ficar prisioneiro do personagem que trouxe o candidato até aqui?

Lula precisa convencer que sua experiência de governo ainda responde às expectativas de um país que mudou.

Flávio precisa provar que consegue ser mais do que a continuidade eleitoral de Jair Bolsonaro. E é aí que entra a verdadeira disputa de repertório. O eleitor brasileiro não vai votar em Donald Trump. Também não vai votar contra Trump. Vai escolher quem acredita que pode conduzir o Brasil.

Uma corrida aberta e ainda em formação

A campanha mal começou, mas o primeiro recado já foi dado. Lula quer que a eleição seja lida pela chave da soberania. Flávio quer que ela continue sendo lida pela chave do bolsonarismo. Nos próximos meses, a disputa será justamente para saber qual dessas duas narrativas consegue sair das bolhas políticas e chegar ao eleitor que ainda não decidiu seu voto.

As pesquisas mostram uma corrida apertada, mas ainda em movimento. O levantamento BTG/Nexus divulgado nesta segunda-feira coloca Lula numericamente à frente de Flávio tanto no primeiro turno quanto em um eventual segundo turno. A Quaest, publicada poucos dias antes, também registrou aproximação entre os dois.

São retratos do momento, não resultados antecipados. A eleição será decidida fora das torcidas Talvez esteja aí a principal leitura desta largada. A eleição de 2026 não será vencida apenas por quem mobilizar melhor sua própria torcida. Será decidida por quem conseguir sair dela.

Carregar Comentários