PM nega perseguição a motorista de Haddad após analisar 70 câmeras

Após análise de imagens, PM de São Paulo descarta irregularidades em abordagem a motorista ligado a Haddad.
Redação NC News
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A investigação sobre a suposta perseguição de uma viatura da Polícia Militar ao motorista de Fernando Haddad, na zona sul de São Paulo, entra em nova fase e acirra o embate eleitoral entre o petista e o governador Tarcísio de Freitas, candidato à reeleição pelo Republicanos. Após rastrear imagens de 70 câmeras e dados de GPS, o governo paulista nega qualquer irregularidade e fala em “falsa comunicação de crime”, enquanto a campanha de Haddad mantém a denúncia de abordagem intimidatória.

O episódio, relatado pelo motorista como uma perseguição com policiais armados com fuzis, sai do campo exclusivo da disputa política e entra formalmente na esfera criminal, com a abertura de inquérito na Polícia Civil. A apuração coloca sob holofote o modo de atuação da Polícia Militar de São Paulo em pleno período pré-eleitoral, quando qualquer movimento das forças de segurança ganha peso político imediato.

Versão do governo: ‘falsa comunicação de crime’

Tarcísio de Freitas afirma que a análise técnica feita pela Polícia Militar desmonta a narrativa de perseguição. Segundo ele, o cruzamento de imagens e geolocalização das viaturas mostra que houve apenas cruzamento casual de trajetos, sem tentativa de abordagem ou intimidação.

“A gente está apurando isso com a maior responsabilidade do mundo, porque se houvesse algum problema, se houvesse algum desvio de conduta, a gente ia punir severamente aqueles que atuaram no desvio de conduta. Mas tudo está mostrando que não houve absolutamente nada e se trata, no final das contas, de uma falsa comunicação”, declara o governador.

O governador detalha que a PM mapeia “o itinerário de cada viatura” por GPS e conclui que “não há perseguição”. Em um dos trechos contestados pela campanha de Haddad, uma viatura passa em frente à casa do petista. Em outro, aparece ao lado do carro do motorista diante de um hotel. Nas duas situações, destaca Tarcísio, o vídeo mostraria o veículo policial seguindo em frente, sem parar.

“A gente percebe também nas imagens, a gente analisou imagens de mais de 70 câmeras, que não houve nenhuma abordagem, não houve contato dos policiais no carro dele. Isso está virando um inquérito agora na Polícia Civil, o motorista vai ser intimado para depor”, diz o governador.

Apuração interna da PM e envio à Polícia Civil

A Secretaria da Segurança Pública aciona a Polícia Militar assim que toma conhecimento do relato da campanha petista. A corporação abre uma apuração preliminar ainda na tarde de quarta-feira e inicia o rastreamento do trajeto indicado pelo motorista, da casa de Haddad até o hotel onde ele decide parar.

Em nota, a Polícia Militar informa que analisa inicialmente imagens de cerca de 40 câmeras privadas de residências e comércios ao longo do percurso. O trabalho se amplia e chega a 70 pontos de monitoramento, incluindo câmeras públicas. Em paralelo, técnicos checam o sistema de geolocalização das viaturas e do carro do motorista.

“A apuração teve início ainda na tarde de quarta-feira, assim que a pasta tomou conhecimento do caso. Até o momento, foram analisadas imagens de cerca de 40 câmeras privadas de residências e estabelecimentos comerciais ao longo do percurso indicado pelo motorista”, diz a corporação, ao descrever a primeira etapa da investigação.

O número cresce até bater nas 70 câmeras citadas por Tarcísio.

Concluída a fase interna, a PM sustenta não ter visto “nenhum indício de abordagem ou procedimento irregular por parte dos policiais nem interação das equipes com o candidato ou membros da sua equipe”.

As diligências, reforça a corporação, não identificam parada de viatura, ordem de revista ou contato verbal.

A própria Polícia Militar admite, porém, que há pelo menos uma viatura equipada com três fuzis no trajeto do motorista, o que sustenta parte do relato inicial da campanha petista sobre armamento pesado na cena. A diferença central está no que acontece — ou não acontece — a partir daí: para a PM, não há perseguição; para Haddad, houve abordagem.

Denúncia de intimidação e pressão eleitoral

Do lado de Fernando Haddad, o episódio é apresentado como uma ação intimidatória que atinge não só um trabalhador de sua equipe, mas também o ambiente da eleição paulista. O petista relata que o motorista se diz seguido por cerca de 5 quilômetros após deixá-lo em casa e que decide parar em um hotel justamente pela presença de câmeras e pela sensação de maior segurança.

Segundo o relato divulgado pela campanha, a viatura mantém a aproximação até o estacionamento. Haddad afirma que o motorista volta para casa abalado e cita a presença de três fuzis na viatura. O candidato pressiona por explicações formais e aciona a Procuradoria Regional Eleitoral, pedindo abertura de procedimento para apurar eventual uso político da força policial.

Em agenda no interior, Haddad evita elevar ainda mais o tom, mas insiste na necessidade de esclarecimentos. “Não estamos querendo dramatizar nada. Estamos querendo que um cidadão, um trabalhador, seja respeitado pelo poder público. Mais nada”, diz. Em outra fala, reforça: “Quero que tudo não passe de um grande mal-entendido, mas precisa explicar”.

O secretário da Segurança Pública, Osvaldo Nico Gonçalves, entra em contato direto com o petista para colher detalhes do trajeto e pontos com câmeras, como o sistema de monitoramento da prefeitura. A interlocução reduz momentaneamente a temperatura do confronto político, mas não encerra o conflito de versões.

Instituições sob escrutínio e próximos passos

O envio do caso para inquérito na Polícia Civil transfere o centro da apuração para uma instância formal, com a obrigação de ouvir o motorista, recolher todas as imagens disponíveis e consolidar os dados de GPS em um laudo técnico. A promessa do governo é de que o depoimento ocorra ainda nesta semana.

A forma como a Polícia Civil conduz o inquérito passa a ser tão importante quanto a própria conclusão. Em meio a uma campanha polarizada, qualquer sinal de morosidade, favorecimento ou blindagem pode ser usado como munição eleitoral. O governo paulista insiste no discurso de transparência e diz que, se vierem à tona indícios de irregularidades, os responsáveis serão punidos.

Na prática, o caso já afeta a percepção sobre a Polícia Militar de São Paulo e, por tabela, sobre a gestão Tarcísio na segurança pública. Se prevalecer a tese do governo de que não houve perseguição, a corporação sai fortalecida, com a narrativa de que dispõe de mecanismos de controle — como GPS e monitoramento por câmeras — capazes de rastrear e comprovar a lisura de suas ações.

Se surgir qualquer evidência de abordagem ou conduta indevida, o desgaste recairá diretamente sobre o Palácio dos Bandeirantes e sobre a cúpula da segurança, alimentando o discurso de uso político da polícia. A discussão sobre o emprego de viaturas com fuzis em situações de patrulhamento rotineiro também deve seguir em pauta, com impacto na confiança da população e na imagem de quem pretende comandar o estado pelos próximos quatro anos.

A conclusão do inquérito da Polícia Civil, somada à eventual análise da Procuradoria Regional Eleitoral, tende a definir não só o destino do caso, mas também a narrativa que vai prevalecer na reta decisiva da disputa em São Paulo: a de um mal-entendido esclarecido por imagens e GPS ou a de uma abordagem abusiva em plena corrida eleitoral.

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