O Bitcoin disparou 5,8% nesta quarta-feira e voltou à faixa de US$ 68.619, atingindo o maior nível desde o início de junho. A alta ocorreu após uma mudança anunciada pelo Tesouro dos Estados Unidos no mercado de títulos públicos de longo prazo, que provocou queda nos juros e aumentou o apetite dos investidores por ativos de maior risco.
A principal criptomoeda acumula alta de 8,1% em sete dias e voltou a se aproximar da marca de US$ 70 mil. O movimento também se espalhou pelo mercado de ativos digitais e pelo ouro, em um dia de recuo das taxas dos títulos americanos de longo prazo.
Decisão do Tesouro derruba juros longos
O principal gatilho para a alta veio de Washington. O Tesouro dos Estados Unidos anunciou que pretende ao menos dobrar o limite das operações de recompra de títulos públicos de longo prazo, passando de US$ 2 bilhões para pelo menos US$ 4 bilhões por leilão.
A medida será aplicada entre 9 de setembro e 4 de novembro e envolverá títulos com vencimentos de 10 a 30 anos.

Na prática, o governo americano ampliará as recompras de títulos antigos no mercado secundário, oferecendo maior liquidez aos investidores que possuem esses papéis.
Segundo o Tesouro, a decisão “reflete a intenção de dar mais suporte de liquidez aos vencimentos longos, onde há demanda consistente dos participantes de mercado”.
A reação nos juros foi imediata. O rendimento do Treasury de 30 anos, que havia atingido 5,34% na véspera, recuou para 5,192%. Já a taxa do Treasury de 10 anos, referência global para os mercados, caiu para 4,649%.
Quando os rendimentos dos títulos diminuem, investimentos que não geram juros, como Bitcoin e ouro, podem se tornar relativamente mais atraentes para parte dos investidores.
Bitcoin volta a ganhar força
No mercado à vista, o Bitcoin foi negociado próximo de US$ 68.619, com valor de mercado estimado em US$ 1,377 trilhão e volume de aproximadamente US$ 30,2 bilhões em 24 horas.
Mesmo com a recuperação, a criptomoeda ainda estava cerca de 46% abaixo do recorde histórico de US$ 126.080, registrado em outubro do ano passado.

O movimento também ganhou força entre analistas que acompanham os níveis técnicos da moeda. Geoff Kendrick, do Standard Chartered, avaliou que a superação da região de US$ 65,5 mil poderia indicar que o ponto mais baixo do ciclo recente havia sido estabelecido.
Em relatório a clientes, o analista também projetou que o Bitcoin poderia chegar a US$ 100 mil até o fim de 2026, caso as condições de liquidez permaneçam favoráveis.
A projeção, porém, depende da manutenção desse cenário e não representa garantia de valorização.
Liquidações de posições ampliam a alta
A disparada também foi influenciada pelo mercado de derivativos. Entre 14h50 e 15h50 no horário UTC, aproximadamente US$ 1,3 bilhão em posições de derivativos foram liquidadas, sendo mais da metade vinculada ao Bitcoin.
Grande parte dessas posições apostava na queda da criptomoeda. Com a alta repentina, os contratos vendidos passaram a sofrer perdas e foram encerrados de forma automática ou compulsória.
O fechamento dessas posições exige a recompra do ativo, criando pressão adicional de compra e ajudando a acelerar a valorização.
Esse mecanismo é conhecido como short squeeze e pode ampliar movimentos de alta em períodos de forte volatilidade.
Outras criptomoedas também sobem
A valorização não ficou restrita ao Bitcoin.

O Ethereum avançou cerca de 9%, negociado próximo de US$ 2.090. A Solana subiu 6,5%, enquanto a XRP ganhou 6,9%.
O movimento conjunto indica uma recuperação mais ampla entre os principais ativos digitais, em um ambiente de maior apetite por risco.
A queda dos juros americanos também favoreceu o ouro, que avançou mais de 3,5% e chegou a aproximadamente US$ 4.487 por onça-troy.
O que pode acontecer até novembro?
A ampliação das recompras anunciada pelo Tesouro americano cria um novo ponto de atenção para os mercados até novembro.
Investidores deverão acompanhar principalmente o comportamento dos juros de 10 e 30 anos e o impacto das operações de recompra sobre a liquidez do mercado.
Caso as taxas continuem caindo e as condições financeiras permaneçam favoráveis, ativos como Bitcoin, ouro e ações de tecnologia podem continuar recebendo fluxo de capital.
Por outro lado, uma eventual redução das recompras ou uma recuperação dos juros longos pode aumentar a volatilidade e estimular movimentos de realização de lucros.
O episódio também reforça uma característica cada vez mais evidente do Bitcoin: apesar de sua estrutura descentralizada e oferta limitada, a criptomoeda continua reagindo fortemente às condições de liquidez e às decisões de política econômica dos principais bancos centrais e governos