Pesquisadores da Unesp de Bauru e fiscais do Ibama utilizam análises de DNA para identificar animais marinhos traficados pelo Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo. A tecnologia permite determinar com precisão a origem de materiais que chegam secos, fragmentados ou sem características visuais suficientes para identificação.
Entre os produtos encontrados estão pepinos-do-mar, bexigas natatórias e nadadeiras de tubarão, que, segundo as informações apresentadas, seriam destinados a mercados da Ásia e de outros países.
A parceria transforma cargas que inicialmente parecem anônimas em evidências científicas. Fragmentos de tecidos e partes de animais passam a ser associados a espécies específicas e podem ter seu status de conservação identificado, fortalecendo as ações de fiscalização e as investigações sobre tráfico de fauna.
Do raio X ao laboratório: como funciona a identificação
O processo começa no Aeroporto Internacional de Guarulhos, onde fiscais do Ibama encontram materiais suspeitos em malas, caixas e até embalagens de alimentos.
A identificação visual, porém, nem sempre é suficiente. Os produtos podem estar desidratados, cortados ou misturados a outras mercadorias, o que dificulta reconhecer a espécie a que pertencem.
Depois da apreensão, amostras são encaminhadas ao Laboratório de Genômica e Conservação de Peixes, no campus da Unesp em Bauru. No local, os pesquisadores aplicam técnicas de genética forense para extrair, amplificar e sequenciar o DNA encontrado no material, inclusive quando ele está deteriorado.

Segundo a bióloga Auany Camila Fantinelli, integrante da equipe, o laboratório utiliza duas abordagens principais: barcoding e metabarcoding.
No barcoding, cada amostra é analisada individualmente. O método identifica trechos específicos do material genético que funcionam como uma espécie de código de barras biológico.
Já o metabarcoding permite analisar diversas amostras simultaneamente, reunindo diferentes materiais em uma mesma reação. A técnica pode reduzir tempo e custos e ampliar a capacidade de análise das apreensões.
Traficantes tentam esconder os produtos, mas DNA permanece
A manipulação dos animais é uma das estratégias utilizadas para dificultar a fiscalização. Ao retirar água, cortar partes do corpo ou desidratar os produtos, traficantes reduzem volume e peso e tornam a identificação visual mais difícil.
A estratégia, no entanto, não impede necessariamente a análise genética.
Por meio do DNA, os pesquisadores conseguem determinar a espécie mesmo quando o material já perdeu completamente a aparência original. A informação pode ser essencial para identificar se o produto pertence a uma espécie protegida ou se sua comercialização é proibida.
Após concluir as análises, a equipe da Unesp produz relatórios técnicos indicando quais espécies foram encontradas e quais apresentam algum nível de proteção ou restrição comercial.
“A gente emite um relatório explicando quais amostras analisadas são de animais em risco de extinção e que não podem ser comercializados. O Ibama pega esse documento e envia o material diretamente para um laboratório forense oficial. Assim, eles só fazem pela perícia criminal já sabendo exatamente o que vão encontrar”, afirmou Auany.
Quais animais aparecem nas apreensões?
Entre os produtos identificados estão pepinos-do-mar, bexigas natatórias e nadadeiras de tubarão.
As cargas teriam como destinos países e territórios como China, Hong Kong, Estados Unidos, Reino Unido e Itália, segundo as informações reunidas no trabalho de fiscalização.
A bexiga natatória, órgão que ajuda os peixes a controlar sua flutuabilidade, possui alto valor comercial em determinados mercados. Segundo o material analisado, o quilo do produto pode alcançar R$ 3 mil no mercado externo.

Depois de desidratada, a estrutura é utilizada na produção de alimentos e bebidas e pode aparecer em sopas e caldos. O colágeno presente no material também contribui para sua demanda em determinados segmentos.
As nadadeiras de tubarão seguem lógica semelhante, com utilização associada a produtos gastronômicos e ao aproveitamento de componentes como o colágeno.
Os pepinos-do-mar, por sua vez, são utilizados em preparações gastronômicas e em produtos medicinais tradicionais. No Brasil, a comercialização desses animais é proibida.
Além do interesse econômico, os organismos desempenham funções importantes nos ecossistemas marinhos. Os pepinos-do-mar, por exemplo, participam da reciclagem de nutrientes nos sedimentos, contribuindo para o funcionamento dos ambientes oceânicos.
DNA ajuda a transformar apreensão em prova
A análise genética não termina na identificação da espécie. O resultado também pode ter importância na investigação criminal.
Os relatórios produzidos pela Unesp são encaminhados ao Ibama e ajudam a orientar o trabalho de laboratórios oficiais de perícia. Com a identificação precisa dos animais, os investigadores conseguem estabelecer quais espécies estavam presentes na carga e verificar se elas estão submetidas a alguma forma de proteção ou se o comércio é proibido.
A informação pode fortalecer autos de infração, investigações policiais e processos judiciais, especialmente quando a espécie identificada está ameaçada ou não pode ser comercializada.
Na prática, a genética reduz a margem para questionamentos sobre a origem do material apreendido. Em vez de depender apenas da aparência de um produto seco ou fragmentado, as autoridades passam a contar com uma identificação baseada em evidências biológicas.
Tráfico ameaça espécies e alimenta mercado internacional
O interesse comercial pelos produtos transforma a fauna marinha em alvo de redes de exploração que atuam além das fronteiras brasileiras.
Produtos como bexigas natatórias e nadadeiras de tubarão possuem alto valor em determinados mercados internacionais. Isso cria incentivos para a captura, o processamento e o transporte clandestino de espécies.

A fiscalização no Aeroporto de Guarulhos ganha importância nesse contexto porque o terminal funciona como uma das principais portas de saída e entrada de mercadorias internacionais do país.
A capacidade de identificar rapidamente espécies encontradas em cargas também permite que o trabalho de fiscalização avance da simples apreensão para o mapeamento de rotas, produtos e padrões de tráfico.
Parceria pode ampliar fiscalização em outros aeroportos
A experiência de integração entre universidade e órgão ambiental também pode ser reproduzida em outros pontos de fiscalização.
A utilização de DNA permite que materiais antes difíceis de identificar visualmente sejam submetidos a uma análise mais precisa. Isso pode ampliar a capacidade de órgãos ambientais que precisam lidar com grandes volumes de mercadorias suspeitas.
A expectativa é que o modelo estimule novas parcerias entre universidades, órgãos de fiscalização e laboratórios de perícia.
Com o uso mais frequente da genética forense, redes criminosas também podem ser obrigadas a modificar estratégias, rotas e métodos de ocultação. A resposta, por isso, tende a exigir atualização constante das técnicas de investigação e fiscalização.
Para a biodiversidade marinha brasileira, o avanço representa uma ferramenta adicional contra o tráfico de espécies pressionadas pela pesca excessiva e pela degradação de habitats.