Personagens com aparência de médicos, voz tranquila, jaleco e até uma suposta trajetória profissional estão conquistando milhões de visualizações na internet. Há apenas um problema: esses profissionais não existem.
São avatares produzidos com inteligência artificial e usados em vídeos sobre saúde, especialmente voltados para pessoas com mais de 60 anos. Alguns conteúdos misturam informações verdadeiras, exageros e alegações sem respaldo científico, enquanto outros direcionam o público para a compra de e-books e produtos.
Um levantamento da organização CTRL+Z mapeou 29 canais em português dedicados a esse tipo de conteúdo. Juntos, eles acumulavam pelo menos 70 milhões de visualizações. A produção também chama atenção pela escala: cerca de dez vídeos poderiam ser publicados diariamente entre os canais analisados, alcançando aproximadamente 267 mil visualizações por dia.
Como funcionam os falsos médicos criados por IA?
A fórmula pode passar despercebida para quem assiste rapidamente.
Um personagem de aparência confiável surge diante da câmera e começa a falar sobre diabetes, problemas de visão, dores, sono, alimentação, perda muscular ou outras questões comuns, principalmente entre idosos.
O rosto pode ser produzido por inteligência artificial. A voz também pode ser sintética. O roteiro pode ser desenvolvido com ferramentas de IA e todo o material pode ser montado sem que exista um médico real diante da câmera.
Em alguns casos analisados, os personagens chegam a se apresentar como profissionais experientes, mencionando especialidades ou anos de atuação.
Esse detalhe aumenta o risco de o espectador acreditar que está recebendo uma orientação de alguém realmente habilitado para falar como médico.
Medo e urgência são usados para prender quem está assistindo
Outra característica desse mercado está na maneira como os vídeos são construídos.
Tutoriais encontrados durante a apuração ensinam produtores a elaborar conteúdos capazes de despertar emoções fortes e aumentar o tempo de permanência do público.
Medo, esperança, choque e sensação de urgência podem aparecer como ferramentas para fazer uma pessoa continuar assistindo e, no fim, realizar alguma ação, como comentar, compartilhar ou comprar um produto.
O público idoso se tornou especialmente atraente para esse modelo de negócio por consumir vídeos mais longos e buscar na internet respostas para problemas relacionados à saúde.
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Conteúdos podem misturar informação verdadeira e pseudociência
Um dos maiores problemas é que nem todo conteúdo falso parece absurdo à primeira vista.
As publicações podem combinar informações corretas com exageros ou alegações sem comprovação. Essa mistura dificulta ainda mais a identificação do problema por quem não possui conhecimento médico.
Entre os conteúdos encontrados durante levantamentos sobre esses canais estão promessas relacionadas a alimentos, chás e outras práticas apresentadas como possíveis soluções para problemas de saúde.
Especialistas alertam que uma orientação aparentemente simples pode representar risco porque cada paciente possui condições de saúde diferentes, pode tomar medicamentos específicos ou apresentar doenças que exigem acompanhamento profissional.
O perigo aumenta quando um vídeo leva alguém a adiar uma consulta, abandonar um tratamento ou substituir uma orientação médica por uma suposta solução encontrada na internet.
E-books transformam audiência em negócio
Os vídeos também podem funcionar como porta de entrada para a venda de produtos digitais.
Foram identificados pelo menos quatro guias de saúde em português comercializados por meio de canais brasileiros com apresentadores criados por IA.
Os materiais abordavam temas como receitas para pessoas com diabetes, saúde depois dos 60 anos, saúde masculina e controle da glicose.
Isso mostra que o fenômeno vai além da busca por visualizações. Existe também a possibilidade de transformar a confiança conquistada pelo personagem virtual em vendas.
Produção acontece em escala e pode atravessar países
A inteligência artificial também tornou mais fácil reproduzir conteúdos rapidamente.
Foram encontrados vídeos em português com títulos semelhantes aos de publicações feitas anteriormente em outros idiomas. Há casos em que roteiros são adaptados e reutilizados para diferentes canais.
Algumas adaptações apresentam sinais de que sequer foram produzidas originalmente para brasileiros, com referências a situações e estatísticas estrangeiras.
A combinação de ferramentas de texto, geração de imagem, clonagem ou síntese de voz e edição permite produzir grandes quantidades de conteúdo com custo relativamente baixo.
Fingir ser médico pode trazer consequências legais
Criar um personagem virtual para apresentar conteúdo não é automaticamente ilegal. O problema muda de dimensão quando esse avatar tenta convencer o público de que é um profissional real e passa a agir como médico.
Especialistas em direito apontam que, dependendo da situação, a prática pode levantar discussões sobre falsa identidade e exercício ilegal da medicina.
A transparência é um ponto fundamental. Informar claramente que determinado personagem foi criado por inteligência artificial reduz o risco de o público confundir aquela figura com uma pessoa real, mas não transforma uma orientação médica inadequada em informação segura.

Uma dica de saúde encontrada nas redes sociais não deve substituir avaliação de um profissional habilitado, principalmente quando envolve doenças, medicamentos ou mudanças em tratamentos.
ENTENDA O CONTEXTO
A popularização das ferramentas de inteligência artificial tornou muito mais simples criar pessoas que nunca existiram, produzir vozes artificiais e gerar vídeos em grande quantidade.
Essa tecnologia pode ter aplicações legítimas. O problema surge quando ela é utilizada para criar uma falsa autoridade e fazer o público acreditar que recebe orientação de um profissional verdadeiro.
No segmento de saúde, o risco é ainda maior porque uma informação enganosa pode interferir diretamente nas decisões de um paciente.
O avanço desses personagens mostra um novo desafio para usuários, autoridades e plataformas: na era da inteligência artificial, aparência de autoridade não significa necessariamente autoridade de verdade.