Francis Clifford Smith morreu aos 101 anos, depois de passar mais de sete décadas no sistema prisional dos Estados Unidos. Condenado à morte em 1950, quando tinha apenas 25 anos, ele recebeu oito vezes a chamada “última refeição”, mas nunca chegou a ser executado.
Smith foi condenado pelo assassinato de Grover Hart, um vigia noturno de um clube náutico em Connecticut. Desde o início, porém, ele negou ter cometido o crime.
Ao longo dos anos, a condenação passou a ser questionada. Testemunhas se retrataram de depoimentos anteriores, outro detento confessou posteriormente o assassinato e até um policial que participou do caso declarou ter dúvidas sobre a presença de Smith no local.
Pena de morte acabou sendo comutada
As dúvidas sobre o caso ajudaram a adiar as execuções programadas. Em 1954, a pena de morte de Smith foi transformada em prisão perpétua.
Ele permaneceu preso durante grande parte da vida, embora tenha tido alguns períodos fora da cadeia.
Em 1967, chegou a fugir da prisão e foi recapturado 12 dias depois. Em 1975, conseguiu liberdade condicional, mas voltou a ser preso cerca de dez meses depois por pequenos furtos e porte de arma, segundo relatos sobre o caso.
Em 2020, já aos 95 anos, recebeu liberdade condicional supervisionada e foi transferido para uma instituição especializada no atendimento de idosos dentro do sistema prisional.
O “Homem-Pássaro” da prisão
Durante os anos na prisão de Osborn, em Connecticut, Smith ganhou um apelido curioso:
“Homem-Pássaro de Osborn”.
Funcionários contaram que ele costumava alimentar os pássaros que apareciam na prisão.
Segundo Andrius Banevicius, funcionário do Departamento de Execuções Penais de Connecticut, Smith escondia pedaços de pão nas roupas para levar aos animais.
Era uma rotina simples que acabou marcando a passagem do preso pela instituição.

A história também revela um problema nos EUA
A trajetória de Smith acontece em meio a um problema crescente no sistema prisional americano: o envelhecimento dos detentos.
Um estudo de 2025 apontou que o número de pessoas com 55 anos ou mais presas aumentou quase 400% entre 1991 e 2021.
Com o avanço da idade, os presos passam a apresentar necessidades médicas mais complexas, como problemas de mobilidade, perda de audição, doenças crônicas e necessidade de cuidados de longa duração.
Especialistas defendem alternativas como liberdade condicional para idosos e medidas humanitárias, especialmente para pessoas que já não representam o mesmo risco considerado no momento da condenação.
Últimos anos
Smith foi um dos primeiros pacientes atendidos por um programa especializado em cuidados de saúde para pessoas encarceradas.
Nos últimos anos, viveu em uma instituição de cuidados de longa duração. Segundo David Skoczulek, porta-voz da unidade, Smith morreu durante o sono, em junho, de causas naturais.
Ele foi cremado posteriormente.
Smith terminou a vida aos 101 anos, depois de uma trajetória que atravessou mais de sete décadas dentro do sistema prisional americano.
Sua história ficou marcada pelas oito “últimas refeições”, pela condenação que sempre contestou e pelas dúvidas que surgiram ao longo dos anos sobre o crime pelo qual foi condenado.
ENTENDA O CONTEXTO
Francis Clifford Smith foi condenado à morte em 1950 por um assassinato ocorrido em Connecticut. A pena foi comutada para prisão perpétua quatro anos depois.
Ele passou mais de 70 anos atrás das grades, com breves períodos em liberdade, e recebeu liberdade condicional supervisionada já na velhice.
Smith sempre afirmou ser inocente e morreu aos 101 anos sem que as dúvidas sobre sua condenação desaparecessem completamente.
A história também colocou em evidência um desafio cada vez maior para os Estados Unidos: como cuidar de uma população prisional que está envelhecendo e precisa de cada vez mais assistência médica.