O dinheiro que o governo espera colocar no bolso das famílias com a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil por mês pode encontrar um concorrente inesperado: as bets.
As estimativas oficiais indicam que a medida deve deixar R$ 31 bilhões a mais com os brasileiros. O problema é que, apenas em 2025, os apostadores perderam aproximadamente R$ 37 bilhões nas casas de apostas legalizadas.
Na prática, o valor perdido com as bets foi R$ 6 bilhões maior do que o benefício estimado com a isenção do IR.
A comparação não significa que os mesmos brasileiros que receberam o benefício tenham colocado esse dinheiro em apostas. Mas, para especialistas, os números mostram como uma parcela relevante da renda que poderia circular no consumo pode acabar sendo direcionada para as plataformas de apostas.
R$ 220 bilhões entraram nas bets
Os números do Ministério da Fazenda mostram o tamanho que o mercado de apostas alcançou no Brasil.
Em 2025, os brasileiros depositaram R$ 220,6 bilhões nas bets. Desse total, cerca de R$ 183 bilhões retornaram aos jogadores na forma de prêmios e bônus.
A diferença, de aproximadamente R$ 37 bilhões, corresponde ao chamado GGR, sigla utilizada pelo mercado para designar a receita bruta das casas de apostas antes da dedução de impostos.

O valor chama atenção porque representa uma quantia superior à estimativa de R$ 31 bilhões que o governo calcula que ficará disponível para famílias beneficiadas pela nova faixa de isenção do Imposto de Renda.
O mercado de apostas cresceu ao longo do ano
A movimentação das bets também aumentou significativamente durante 2025.
Em janeiro, aproximadamente 7 milhões de pessoas apostaram cerca de R$ 12 bilhões. Em outubro, o número chegou a quase 11 milhões de apostadores, enquanto o volume movimentado ultrapassou R$ 21 bilhões.
Em dezembro, foram cerca de 10 milhões de pessoas, responsáveis por aproximadamente R$ 20 bilhões em apostas.
Os dados mostram uma expansão tanto do número de apostadores quanto do dinheiro colocado nas plataformas ao longo do primeiro ano de funcionamento do mercado legalizado.
E há um detalhe importante: os números da Fazenda consideram apenas as empresas legalizadas.
O mercado ilegal é estimado em, no mínimo, tamanho semelhante ao mercado regulado. Isso significa que o volume real de dinheiro movimentado por apostas pode ser ainda maior.
Isenção do IR pode virar consumo?
A ideia por trás da isenção do Imposto de Renda é aumentar a renda disponível das famílias que recebem até R$ 5 mil por mês. Parte desse dinheiro poderia ser utilizada para consumo, pagamento de dívidas ou formação de poupança.
Mas, segundo Lauro Gonzalez, pesquisador do Centro de Estudos de Microfinanças e Inclusão Financeira da FGV, existe o risco de uma parcela desse dinheiro acabar sendo direcionada às apostas.
O pesquisador ressalta que não é possível afirmar que o mesmo dinheiro recebido por meio da isenção seja aquele utilizado posteriormente nas bets.
A questão, segundo ele, é observar o fenômeno em escala nacional.
“No agregado, um montante que muito provavelmente seria usado para consumo é drenado pelas bets.”
Essa dinâmica pode reduzir parte do efeito econômico esperado de uma política que aumenta a renda disponível das famílias.

Não significa que todo beneficiário aposte
Existe uma diferença importante nessa comparação.
Nem todo brasileiro beneficiado pela isenção do IR aposta. E nem todo apostador ganha até R$ 5 mil por mês. Por isso, não é correto dizer que os R$ 37 bilhões perdidos nas bets saíram diretamente dos R$ 31 bilhões proporcionados pela isenção.
O ponto levantado pelos especialistas é outro: existe uma sobreposição entre os grupos. Gonzalez afirma que provavelmente há uma intersecção significativa entre as pessoas beneficiadas pela política pública e aquelas que fazem apostas. O efeito, portanto, precisa ser observado no conjunto da economia.
O problema do endividamento
Além do impacto sobre o consumo, as apostas também estão associadas a outro problema: o endividamento das famílias.
Segundo Gonzalez, os dois fenômenos podem caminhar juntos.
Uma pessoa endividada pode apostar na tentativa de conseguir dinheiro para pagar uma dívida. Se perde, aumenta o próprio endividamento e pode voltar a apostar para tentar recuperar o valor.
É um ciclo difícil de interromper.
“Uma das razões que explicam isso é o endividamento, e ele anda de mãos dadas com as bets.”
A consequência é que uma renda adicional que poderia ajudar a família a consumir ou organizar as próprias finanças pode acabar sendo absorvida pelas apostas.

E em 2026?
Ainda não há dados completos sobre quanto os brasileiros movimentaram em bets em 2026.
O Ministério da Fazenda ainda não disponibilizou os números parciais deste ano, o que impede uma comparação atualizada entre o dinheiro perdido nas plataformas e os R$ 31 bilhões estimados com a isenção do IR.
Para Bernardo Freire, consultor jurídico da Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL), a tendência é que o volume de apostas aumente no fim do ano.
“A tendência é sempre ter um aumento no final do ano. O motivo é simples: fase final dos campeonatos. Férias e pagamento do 13º salário também ajudam a manter alto o gasto em apostas. A diferença principal neste ano será o impacto da Copa do Mundo.”
O calendário esportivo, portanto, pode ser um fator adicional de pressão sobre o mercado de apostas.
Copa do Mundo e a explosão das apostas
A realização da Copa do Mundo de 2026 adiciona um elemento diferente ao mercado brasileiro. O torneio reúne dezenas de seleções, ocorre durante várias semanas e tradicionalmente aumenta o interesse por partidas de futebol.
Para o mercado de bets, a realização da Copa foi uma oportunidade de ampliar o número de apostas e o volume movimentado.
Mas, para as famílias, também significa um período em que o dinheiro disponível pode ser disputado por diferentes formas de consumo. O resultado dessa disputa só poderá ser medido quando os dados oficiais de 2026 forem divulgados.
O dinheiro que entra no bolso pode não ficar lá
A discussão, no fim das contas, vai além de uma simples comparação entre R$ 31 bilhões e R$ 37 bilhões.
A isenção do IR aumenta a renda disponível de milhões de brasileiros. O que acontece depois depende das decisões de cada família: consumir, pagar dívidas, guardar dinheiro ou apostar. O crescimento acelerado das bets acrescenta uma variável importante nessa equação.

Se uma parte significativa da renda adicional for direcionada às apostas, o efeito esperado sobre o consumo pode ser menor. E existe uma diferença fundamental entre comprar um produto ou serviço e apostar.
No consumo tradicional, o dinheiro passa de uma pessoa para outra e continua circulando pela economia. Nas apostas, uma parcela do dinheiro colocado pelos jogadores se transforma em receita das plataformas.
É justamente essa drenagem que preocupa os especialistas.
Entenda o contexto
A isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil por mês entrou em vigor em 2026 com a promessa de aumentar a renda disponível das famílias. As estimativas oficiais apontam para um benefício de aproximadamente R$ 31 bilhões. Ao mesmo tempo, o mercado brasileiro de apostas esportivas e jogos online cresceu rapidamente.
Em 2025, primeiro ano de vigência do mercado legalizado, foram depositados R$ 220,6 bilhões nas plataformas, dos quais cerca de R$ 183 bilhões retornaram aos apostadores em prêmios e bônus. A diferença de aproximadamente R$ 37 bilhões corresponde ao GGR, ou receita bruta das casas de apostas antes dos impostos.
A comparação entre os dois valores não significa que os R$ 37 bilhões tenham saído diretamente do dinheiro economizado no Imposto de Renda, já que os grupos de beneficiários e apostadores não são idênticos. O que especialistas discutem é o impacto macroeconômico dessa sobreposição: parte da renda que poderia ser destinada ao consumo, à poupança ou ao pagamento de dívidas pode acabar nas plataformas de apostas.
O cenário também é acompanhado com atenção por causa do possível efeito sobre o endividamento das famílias e da expectativa de maior movimentação nas bets durante o calendário esportivo de 2026, especialmente com a Copa do Mundo. Os dados oficiais deste ano ainda não permitem medir qual será o tamanho desse efeito.