O império que transformou Hui Ka Yan em um dos homens mais ricos da China terminou atrás das grades. O fundador da Evergrande, uma das maiores incorporadoras do país e considerada a empresa imobiliária mais endividada do mundo, foi condenado à prisão perpétua nesta quinta-feira (19), por um tribunal chinês.
Além da pena de prisão, a Justiça determinou o confisco de todos os bens pessoais do empresário.
Hui Ka Yan, conhecido em cantonês por esse nome e como Xu Jiayin em mandarim, havia se declarado culpado em abril de oito acusações, entre elas desvio de recursos, fraude na captação de fundos e captação ilegal de depósitos do público.
A sentença marca o desfecho de uma das quedas mais impressionantes do mundo empresarial chinês.
De bilionário a condenado à prisão perpétua
Durante anos, Hui esteve entre os grandes nomes do mercado imobiliário chinês. A Evergrande cresceu rapidamente com a expansão do setor de construção e chegou a se tornar uma das principais incorporadoras do país.
O modelo, porém, dependia de um volume gigantesco de financiamento.
Quando a crise imobiliária chinesa se agravou, a estrutura financeira da companhia começou a ruir. A Evergrande entrou em inadimplência a partir de 2021, deixando para trás uma montanha de dívidas que chegou a aproximadamente US$ 300 bilhões, o equivalente a cerca de R$ 1,5 trilhão.
A dimensão do passivo transformou o caso em um dos maiores símbolos da crise do mercado imobiliário chinês.

O que Hui Ka Yan fez?
Segundo as acusações pelas quais o empresário se declarou culpado, Hui esteve envolvido em crimes relacionados à movimentação de recursos e à captação de dinheiro.
Entre as oito acusações estão:
- desvio de recursos;
- fraude na captação de fundos;
- captação ilegal de depósitos do público.
A condenação encerra judicialmente uma trajetória empresarial que começou com a expansão da Evergrande e terminou com a companhia no centro de uma crise de enormes proporções.

O caso também mostra a mudança de postura das autoridades chinesas diante de empresários considerados responsáveis por práticas financeiras irregulares.
Outros cinco executivos também foram condenados
Hui não foi o único integrante da cúpula da Evergrande a receber uma sentença.
O tribunal de Shenzhen, no sul da China, informou que outros cinco executivos de alto escalão foram condenados a penas de prisão que variam de seis a 18 anos, além do pagamento de multas.
As punições atingem diferentes integrantes da estrutura responsável pela administração da companhia e de suas operações imobiliárias.
A Justiça chinesa também aplicou multas bilionárias às empresas envolvidas.
A Evergrande foi multada em 8,82 bilhões de yuans, aproximadamente US$ 1,31 bilhão ou R$ 6,7 bilhões.
Já a Hengda Real Estate, principal subsidiária da incorporadora, recebeu uma multa de 7 bilhões de yuans.
A dívida que virou um problema para toda a China
A crise da Evergrande vai muito além da história de seu fundador.
A companhia acumulou aproximadamente US$ 300 bilhões em dívidas, envolvendo credores, investidores, fornecedores e compradores de imóveis.
O problema se tornou ainda maior porque o setor imobiliário tem papel central na economia chinesa. Durante décadas, incorporadoras cresceram impulsionadas pelo aumento da demanda por imóveis e pela expansão urbana.

Quando o mercado perdeu força, empresas altamente endividadas começaram a enfrentar dificuldades para honrar compromissos.
A Evergrande foi o caso mais emblemático.
A empresa entrou em inadimplência em 2021 e passou a enfrentar uma longa batalha para reorganizar suas dívidas e tentar preservar ativos e projetos.
A prisão resolve o problema dos credores?
Não. A condenação de Hui representa uma punição criminal, mas não elimina a gigantesca dívida acumulada pela Evergrande.
Na prática, credores nacionais e estrangeiros continuam enfrentando o desafio de recuperar parte dos valores devidos pela companhia.
O confisco dos bens pessoais do fundador também não significa que todo o passivo da empresa será automaticamente quitado.
A dimensão da dívida é muito superior ao patrimônio que poderia ser recuperado individualmente do empresário. Por isso, a sentença pode ter grande peso simbólico e judicial, mas seu impacto financeiro sobre os credores tende a ser muito mais limitado.
O fim de uma ascensão meteórica
A trajetória de Hui Ka Yan sintetiza os extremos do boom imobiliário chinês.
O empresário construiu uma das maiores incorporadoras do país e acumulou uma fortuna bilionária durante o período de forte expansão do mercado imobiliário. A Evergrande chegou a atuar em diversas áreas e se tornou uma gigante empresarial.
Mas a combinação entre endividamento elevado, desaceleração do mercado imobiliário e dificuldades de financiamento colocou o grupo em uma situação praticamente insustentável. A queda foi tão grande quanto havia sido sua ascensão.
Agora, aos olhos da Justiça chinesa, o homem que construiu um dos maiores impérios imobiliários do país passará o restante da vida na prisão.
Entenda o contexto
A crise da Evergrande é um dos principais retratos dos problemas enfrentados pelo mercado imobiliário chinês. A empresa cresceu durante anos com forte expansão e acesso a crédito, mas acumulou uma dívida estimada em cerca de US$ 300 bilhões.
Quando o setor começou a perder força e as condições de financiamento ficaram mais difíceis, a incorporadora deixou de conseguir honrar parte de seus compromissos e entrou em inadimplência em 2021.
A situação atingiu não apenas a companhia, mas também compradores de imóveis, fornecedores, investidores e instituições financeiras. A condenação de Hui Ka Yan representa o desfecho criminal de uma crise que ainda possui consequências econômicas. Embora a Justiça tenha determinado o confisco dos bens do empresário e aplicado multas bilionárias à Evergrande e à Hengda Real Estate, a punição não resolve automaticamente o problema dos credores.
A empresa ainda carrega um dos maiores passivos corporativos já registrados no setor imobiliário e sua derrocada se tornou símbolo da dificuldade da China em reequilibrar um mercado que durante décadas foi um dos motores de sua economia.