Indicado por Bolsonaro, Kassio Nunes Marques enfrentará o maior desafio de sua carreira na eleição de 2026

Indicado por Jair Bolsonaro e agora à frente do TSE, Kassio Nunes Marques terá de enfrentar um risco que vai além das urnas: a guerra de narrativas, a inteligência artificial e a disputa pela credibilidade do resultado eleitoral.
ouça este conteúdo
00:00 / 00:00
1x

A urna eletrônica voltou ao centro do debate político, mas o desafio de 2026 pode ser ainda maior do que a discussão sobre a tecnologia de votação. À frente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e indicado ao Supremo Tribunal Federal (STF) por Jair Bolsonaro, o ministro Kassio Nunes Marques assumirá a condução das eleições em um cenário em que a disputa já não envolve apenas votos, mas também confiança.

A segurança do sistema eletrônico continua sendo um tema sensível. No entanto, a principal preocupação da Justiça Eleitoral agora é impedir que a desinformação, a inteligência artificial e a disputa política em torno do próprio processo eleitoral contaminem a percepção do resultado antes mesmo da apuração.

 

O ministro de Bolsonaro que comandará a eleição

Kassio Nunes Marques ocupa uma posição politicamente delicada às vésperas de uma eleição que tende a ser marcada por forte polarização. Indicado ao STF por Bolsonaro, ele chega à Presidência do TSE justamente quando setores do campo bolsonarista voltam a colocar as urnas eletrônicas no centro do debate.

Há uma ironia política evidente nesse contexto. O ministro escolhido por Bolsonaro será uma das principais autoridades responsáveis por conduzir o processo eleitoral que poderá definir o próximo presidente da República.

Bolsonaro e Kassio Nunes Marques. Foto: Marco Corrêa/PR
Jair Bolsonaro e Kassio Nunes Marques na posso do ministro no STF. Foto: Marco Corrêa/PR

Até aqui, Nunes Marques tem respondido ao tema com uma defesa pública do sistema eletrônico de votação. Em agosto, voltou a destacar a segurança e a transparência das urnas, além de reforçar iniciativas do TSE para ampliar o conhecimento da população sobre o funcionamento do equipamento.

A Justiça Eleitoral sustenta que o sistema é submetido a diversas etapas de fiscalização e auditoria e que não há registro comprovado de fraude desde a implantação das urnas eletrônicas.

O limite entre fiscalização e desconfiança

Isso não significa, porém, que o debate sobre fiscalização esteja encerrado. A questão politicamente mais sensível é outra: até que ponto uma campanha pode questionar o sistema eleitoral sem transformar divergências legítimas em uma narrativa permanente de desconfiança sobre o resultado?

Nos bastidores, essa é uma das discussões mais relevantes. A eleição de 2026 não será disputada apenas nos palanques, nos programas de televisão ou nas redes sociais. Ela também será travada na tentativa de cada grupo político estabelecer, antes mesmo da votação, qual narrativa prevalecerá caso o resultado seja apertado.

É justamente nesse ponto que a postura de Nunes Marques ganha importância. O ministro não está apenas defendendo as urnas. Ele tenta estabelecer uma fronteira clara entre fiscalização legítima e desinformação eleitoral.

A ameaça que chega antes do voto

O TSE já firmou acordos com partidos políticos e plataformas digitais para combater conteúdos falsos, manipulados ou descontextualizados. A Corte também criou estruturas específicas para acompanhar o uso da inteligência artificial durante a campanha.

A preocupação deixou de estar concentrada apenas na urna física. O problema agora pode alcançar o eleitor antes mesmo de ele entrar na seção eleitoral.

Um áudio pode simular a voz de um candidato. Um vídeo pode fazê-lo parecer dizer algo que nunca disse. Uma imagem manipulada pode circular como se fosse um registro jornalístico legítimo. E tudo isso pode atingir milhões de pessoas antes que haja tempo para checagem ou resposta institucional.

Por isso, o TSE já estabeleceu regras para o uso de inteligência artificial na propaganda eleitoral e passou a exigir identificação de conteúdos sintéticos ou significativamente alterados. A Corte também firmou acordos específicos para enfrentar a clonagem de vozes por IA.

Da urna eletrônica às redes sociais

Em 2022, a principal batalha institucional foi convencer o eleitor de que a urna eletrônica não era uma “caixa-preta”. Em 2026, o desafio pode ser convencer a população de que nem tudo o que circula como suposta prova nas redes sociais é verdadeiro.

Desconfiança nas urnas desafia eleição eletrônica
Desconfiança nas urnas desafia eleição eletrônica. Foto: TSE

Essa mudança amplia o alcance da disputa. A preocupação já não está restrita ao sistema de votação, mas à própria formação da percepção pública sobre o processo eleitoral.

A pressão sobre o presidente do TSE

A campanha de Flávio Bolsonaro tem mantido discursos de questionamento sobre o sistema eleitoral, enquanto Nunes Marques, apesar de ter sido indicado por Jair Bolsonaro, ocupa agora a posição institucional de quem precisa garantir a confiança no processo.

Reportagens recentes mostram que a atuação do ministro vem sendo observada dentro do próprio TSE, especialmente em discussões envolvendo pesquisas eleitorais, inteligência artificial e os limites da propaganda digital.

O magistrado nega qualquer alinhamento político e afirma atuar com neutralidade.

Ainda assim, a circunstância impõe uma cobrança dupla. De um lado, ele precisa preservar a credibilidade institucional da Justiça Eleitoral. De outro, precisa demonstrar que o tribunal não será percebido como instrumento de nenhum dos polos da disputa.

O verdadeiro teste de 2026

O desafio tende a crescer caso a eleição presidencial seja decidida por margem estreita.

Perder uma disputa com diferença confortável é uma situação. Outra completamente diferente é enfrentar um resultado apertado em um ambiente de extrema polarização e com milhões de conteúdos digitais circulando em velocidade muito superior à capacidade de checagem.

Nesse cenário, a disputa pela narrativa pode começar antes mesmo da abertura das urnas e se prolongar muito depois da divulgação do resultado.

Por isso, a defesa pública das urnas feita por Kassio Nunes Marques não deve ser interpretada apenas como uma manifestação técnica sobre a segurança do equipamento. Trata-se também de um movimento institucional para evitar que a desconfiança seja transformada em combustível político durante o processo eleitoral.

O TSE sabe que, em 2026, não bastará apenas contar os votos. Será preciso proteger a credibilidade da contagem.

Talvez esse seja o verdadeiro campo de batalha da próxima eleição: não apenas quem terá mais votos, mas quem conseguirá convencer os eleitores de que o resultado — qualquer que seja ele — merece ser reconhecido.

A campanha ainda está começando. A disputa pela confiança no próprio sistema eleitoral também.

Carregar Comentários