A crise das Casas Bahia ganhou um novo capítulo. A Polícia Federal investiga se a varejista utilizou sistemas internos para reduzir artificialmente o faturamento considerado no cálculo dos bônus pagos a gerentes de lojas.
A suspeita é que os sistemas da própria companhia tenham omitido juros e encargos de vendas parceladas, fazendo com que determinadas operações aparecessem nos relatórios internos apenas pelo valor original do produto. Com uma base de faturamento menor, as premiações vinculadas ao desempenho das lojas também poderiam ser reduzidas.
A apuração acontece justamente quando a empresa atravessa uma das fases mais delicadas de sua história, com dívidas estimadas em R$ 17,3 bilhões, fechamento de centenas de lojas e um pedido de recuperação judicial.
Onde está a suspeita da PF?
O ponto central da investigação está nos mecanismos usados pelas Casas Bahia para acompanhar o desempenho de suas unidades.
A companhia utiliza sistemas internos como PRWEB e Looqbox para monitorar metas relacionadas a vendas de mercadorias, móveis, serviços e crédito próprio.
Segundo os elementos reunidos pelos investigadores, esses sistemas podem ter sido configurados para retirar dos relatórios os juros cobrados em compras parceladas.
Na prática, imagine uma venda de R$ 1 mil que, com os juros do parcelamento, resulte em um valor final maior. Se o sistema utilizado para medir a performance da loja considerar apenas os R$ 1 mil, e não o valor efetivamente relacionado à operação de crédito, o faturamento utilizado para atingir a meta fica menor.
É justamente essa diferença que está no centro da apuração.

A investigação tenta descobrir se esse mecanismo foi utilizado deliberadamente e se teve impacto sobre as remunerações variáveis dos funcionários.
Gerentes dizem que bônus não foram pagos integralmente
A suspeita ganhou força a partir de relatos de gerentes que afirmam não ter recebido integralmente as premiações que esperavam de acordo com o desempenho de suas lojas.
Segundo os investigadores, alguns funcionários questionaram a companhia sobre os valores e receberam como explicação que os juros dos carnês pertenciam a bancos parceiros. Essa justificativa passou a ser confrontada com documentos obtidos pela investigação.
Ofícios do Banco Central e do Bradesco, segundo os investigadores, indicariam que a própria Casas Bahia era responsável por determinadas operações de crédito e que a parceria com o banco não abrangia o crediário realizado por carnê.
Essa diferença é importante porque pode ajudar a responder uma das principais perguntas da investigação: se os juros pertenciam à operação da própria Casas Bahia, por que eles não apareciam integralmente no faturamento utilizado para calcular as metas?
Ainda não há conclusão definitiva sobre a existência de fraude. A PF investiga justamente se houve uma manipulação deliberada dos dados ou outra irregularidade na forma como os resultados eram registrados.
O sistema pode ter espalhado o problema
Outro ponto que chama atenção dos investigadores é a possibilidade de a prática não ter ficado restrita a uma única unidade.
Como os sistemas analisados eram utilizados por diferentes lojas da companhia, a PF apura se o mesmo modelo de cálculo foi aplicado em outras regiões do país.

Caso a suspeita seja confirmada, a dimensão do caso poderá ser significativamente maior do que episódios isolados envolvendo determinadas lojas ou funcionários.
A investigação busca determinar, entre outros pontos, quem definiu os critérios utilizados pelos sistemas, como os dados eram processados e se alguém tinha conhecimento de que os juros estavam sendo retirados da base usada para calcular as premiações.
Casas Bahia tenta sobreviver à crise bilionária
A investigação surge em um momento especialmente delicado para a companhia.
As Casas Bahia tentam renegociar aproximadamente R$ 17,3 bilhões em dívidas e entraram com pedido de recuperação judicial no Tribunal de Justiça de São Paulo.
O plano de reestruturação prevê o fechamento de 298 lojas e a redução do quadro de funcionários, com estimativa de 1,9 mil a 3 mil demissões.
Ao mesmo tempo, a empresa obteve proteção temporária contra credores enquanto a Justiça analisa o pedido de recuperação.
As demissões coletivas também enfrentam uma barreira judicial. Uma decisão do Tribunal Regional do Trabalho da 10ª Região suspendeu temporariamente esses cortes.
O cenário coloca a investigação da PF em um contexto ainda mais sensível: enquanto a companhia tenta reduzir custos e reorganizar suas operações, surgem questionamentos sobre como os resultados das lojas eram medidos e como funcionários eram remunerados.
O que a PF ainda precisa descobrir?

Os investigadores precisam esclarecer se houve manipulação intencional dos dados, quem teria determinado o procedimento, durante quanto tempo ele foi utilizado e quantos funcionários poderiam ter sido afetados.
Também será necessário verificar se os números apresentados nos sistemas internos correspondiam às operações financeiras efetivamente realizadas pela empresa.
O ponto mais importante agora é justamente esse: descobrir se a diferença entre o faturamento real das operações e o faturamento utilizado para calcular os bônus foi resultado de um procedimento contábil legítimo ou de uma alteração deliberada para reduzir pagamentos.
Entenda o contexto
As Casas Bahia atravessam uma profunda crise financeira e tentam renegociar cerca de R$ 17,3 bilhões em dívidas por meio de um processo de recuperação judicial. O plano apresentado pela companhia prevê o fechamento de 298 lojas e milhares de demissões.
Paralelamente, a Polícia Federal apura uma suspeita relacionada ao sistema de metas e premiações da varejista. A investigação busca descobrir se juros e encargos de vendas parceladas foram retirados dos relatórios utilizados para medir o faturamento das lojas e calcular os bônus de gerentes.
Relatos de funcionários e documentos do Banco Central e do Bradesco estão entre os elementos analisados pelos investigadores. Até o momento, porém, a apuração não estabelece que houve fraude e ainda precisa determinar a responsabilidade de eventuais envolvidos.