Novo exame no SUS e vacinas mudam combate ao câncer de intestino

Novas estratégias no SUS ampliam a prevenção e diagnóstico precoce do câncer colorretal, segundo tipo mais comum no país.
Redação NC News
ouça este conteúdo
00:00 / 00:00
1x

Pesquisas com saliva, vacinas experimentais e um novo exame de fezes no SUS redesenham a prevenção do câncer colorretal, hoje o segundo tipo de tumor mais frequente no Brasil. Juntas, as iniciativas miram diagnóstico mais cedo, menos procedimentos invasivos e maior chance de cura.

Resposta sobre a existência de um câncer silencioso pode estar na saliva, segundo pesquisaFoto: Elena Safonova/Zoonar/picture alliance
Resposta sobre a existência de um câncer silencioso pode estar na saliva, segundo pesquisaFoto: Elena Safonova/Zoonar/picture alliance

Da boca ao intestino: o que a saliva revela sobre o câncer

Um estudo liderado por pesquisadores da Universidade de Seul mostra que o microbioma, conjunto de microrganismos que vivem na boca e no intestino, guarda pistas valiosas sobre o câncer colorretal e o câncer gástrico. A equipe analisou 507 voluntários, comparando amostras de saliva e fezes.

Entre os participantes, 129 eram saudáveis, 215 tinham distúrbios metabólicos, como hipertensão e diabetes, 77 tinham câncer gástrico e 86, câncer colorretal. Com sequenciamento genético, os cientistas criaram um índice boca-fezes, que mede a presença de microrganismos idênticos na boca e no intestino da mesma pessoa.

O índice aparece significativamente mais alto em pacientes com câncer gástrico ou colorretal, mas não em quem tem apenas problemas metabólicos. A associação se mantém mesmo quando entram na conta fatores como álcool, prática de exercícios e índice de massa corporal.

A pesquisadora Sun Ha Jee, da Universidade Yonsei, admite surpresa parcial. A presença de bactérias típicas da boca no intestino de pacientes com câncer “não foi totalmente inesperada”, afirma. O que espanta os cientistas é a força do sinal e a diferença clara entre grupos doentes e saudáveis.

Os pesquisadores também comparam essas assinaturas microbianas com testes de sangue oculto nas fezes, hoje padrão no rastreamento do câncer colorretal. Nas amostras bucais, coletadas com enxaguante, a sensibilidade para detectar sinais ligados ao câncer se mostra maior.

O estudo ainda não muda o dia a dia dos consultórios, mas abre caminho para um exame de saliva simples e não invasivo no futuro. “O próximo passo será desenvolver um teste não invasivo”, diz o pesquisador Tae Il Kim, da Universidade Yonsei. A equipe prepara estudos com pessoas sem diagnóstico prévio de câncer para validar os achados em programas reais de rastreamento.

Vacinas para quem nasce com risco até 16 vezes maior

Enquanto a Coreia do Sul mira a saliva, centros de pesquisa nos Estados Unidos e no Reino Unido tentam impedir que o câncer colorretal chegue a se formar em um grupo específico: pessoas com síndrome de Lynch. A alteração genética, presente em cerca de 1 em cada 279 pessoas, bloqueia genes que corrigem erros no DNA e eleva o risco de tumores precoces.

Na população em geral, o risco de ter câncer colorretal ao longo da vida gira em torno de 5%. Entre portadores da síndrome de Lynch, pode chegar a 80%, dependendo do gene alterado. Além do intestino, esses pacientes enfrentam maior probabilidade de câncer de endométrio, estômago, pâncreas, ovário, pele e até tumores cerebrais.

Hoje, a proteção se apoia em colonoscopias anuais, bem mais frequentes que na população de risco usual, e em cirurgias preventivas em alguns casos. Pesquisadores agora testam vacinas que treinam o sistema imunológico para reconhecer proteínas produzidas por lesões pré-cancerosas, atacando-as antes de virarem tumores.

Três imunizantes estão em desenvolvimento. Um deles, da empresa Nouscom, já passa por um teste inicial com 45 pacientes com síndrome de Lynch. Os primeiros resultados apontam redução de lesões pré-cancerosas. Em um desses casos, a médica americana Stacy Norton, portadora da síndrome, não volta a apresentar pólipos após receber a vacina.

Norton convive com um histórico familiar pesado de câncer colorretal e já sobreviveu a outro tumor ligado à síndrome. Agora, participa dos estudos em Houston, no Texas, na tentativa de proteger também os dois filhos, que herdaram a mesma mutação. “Isso me dá esperança”, diz. Se a estratégia funcionar, completa, “talvez eles não precisem fazer uma colonoscopia todos os anos pelo resto da vida”.

Outras duas vacinas seguem em avaliação: uma de RNA mensageiro desenvolvida pela Moderna, em testes em Oxford, e o imunizante Tri-Ad5, da ImmunityBio, que mira marcadores específicos ligados ao câncer. O pesquisador Eduardo Vilar-Sanchez, do MD Anderson Cancer Center, planeja ampliar os estudos após os resultados preliminares considerados promissores.

Exame de fezes no SUS muda o jogo no Brasil

No sistema público brasileiro, o avanço mais concreto acontece agora. O Ministério da Saúde inclui o Teste Imunoquímico Fecal, conhecido pela sigla FIT, na rotina de rastreamento do câncer colorretal para homens e mulheres assintomáticos entre 50 e 75 anos. O exame passa a estar disponível a partir de setembro na rede do SUS.

O teste detecta sangue oculto nas fezes, invisível a olho nu, que pode indicar pólipos e lesões pré-cancerosas no intestino. O procedimento é simples, não invasivo e pode ser feito em casa, com coleta do material em um pequeno frasco e entrega na unidade de saúde.

O Ministério estima que mais de 40 milhões de brasileiros se enquadram na faixa etária de 50 a 75 anos e poderão se beneficiar da nova oferta. “A inclusão do exame pode ampliar o acesso de mais de 40 milhões de brasileiros à prevenção precoce”, ressalta a pasta, que vê potencial de impacto expressivo na mortalidade.

A lógica é direta: quanto antes o câncer é encontrado, maiores as chances de cura com tratamentos menos agressivos. “O exame pode aumentar a taxa de cura em mais de 90%”, afirma o Ministério da Saúde. Em estágios avançados, o tratamento exige cirurgias extensas, quimioterapia e longas internações, com maior custo humano e financeiro.

A coloproctologista Glicia de Abreu Tourinho destaca que o câncer colorretal avança em silêncio em muitos casos e só dá sinais claros em fases tardias, quando surgem sangue nas fezes, alteração súbita do hábito intestinal, perda de peso sem explicação e dor abdominal persistente. O FIT entra justamente antes desses sintomas, quando ainda é possível remover pólipos e impedir que virem tumores.

O novo protocolo deve aumentar a demanda por exames laboratoriais e por colonoscopias de confirmação em casos positivos, pressionando a rede assistencial. Em contrapartida, tende a reduzir a necessidade de leitos oncológicos para estágios avançados e tratamentos de alto custo. Laboratórios, clínicas de endoscopia e a indústria de testes diagnósticos se preparam para a mudança.

Uma nova fronteira na prevenção do câncer colorretal

Os três movimentos em curso – rastreamento em massa com exame de fezes, testes de saliva em desenvolvimento e vacinas para grupos de altíssimo risco – compõem uma estratégia mais agressiva contra o câncer colorretal. Em vez de esperar o tumor aparecer, a aposta é identificar o risco cedo e agir antes.

Na saúde pública, o desafio agora é garantir distribuição de kits, treinamento de equipes, campanhas de informação e, sobretudo, adesão da população-alvo. A experiência de outros programas de rastreamento mostra que o sucesso depende de busca ativa, lembretes periódicos e integração com a atenção básica.

Na frente científica, pesquisadores coreanos avançam para validar o índice boca-fezes em grandes populações, enquanto equipes de Houston e Oxford correm para acumular dados robustos sobre segurança e eficácia das vacinas de Lynch. Se os resultados se confirmarem, o Brasil poderá, no futuro, incorporar tanto testes baseados em saliva quanto imunizantes para grupos genéticos de alto risco.

O país chega a essa etapa pressionado pelo aumento dos casos, inclusive entre adultos mais jovens, e pela necessidade de conter custos. A implementação bem-sucedida do novo exame no SUS pode se tornar um modelo de como políticas públicas alinhadas à inovação científica ajudam a reduzir mortes evitáveis por câncer e a reposicionar o sistema de saúde na prevenção, não apenas no tratamento.

Qual o primeiro sinal de câncer colorretal detectado pelo novo exame do SUS?

O Teste Imunoquímico Fecal oferecido pelo SUS detecta, antes de qualquer sintoma, a presença de sangue oculto nas fezes, um dos primeiros sinais de lesões pré-cancerosas ou tumores iniciais no intestino grosso, permitindo que médicos indiquem colonoscopia precoce e removam pólipos antes de virarem câncer colorretal avançado.

Como o teste de fezes caseiro ajuda a reduzir mortes por câncer colorretal?

O Teste Imunoquímico Fecal, realizado em casa e analisado pelo SUS, identifica sangue microscópico nas fezes em pessoas assintomáticas de 50 a 75 anos, direcionando apenas os casos alterados para colonoscopia, aumentando a detecção de pólipos e tumores iniciais e elevando a taxa de cura para mais de 90%, com menos tratamentos agressivos.

Como a análise da saliva pode identificar sinais de câncer colorretal?

O estudo coreano com 507 voluntários mostra que um índice boca-fezes elevado, medindo microrganismos idênticos na saliva e nas fezes, é mais comum em pessoas com câncer colorretal ou gástrico, indicando que a composição do microbioma oral pode servir de marcador para testes não invasivos de triagem futura, feitos apenas com enxágue bucal.

Quais são os avanços das vacinas para prevenir o câncer colorretal?

Três vacinas experimentais, incluindo uma da Nouscom, uma de RNA mensageiro da Moderna e outra da ImmunityBio, estão em teste em pessoas com síndrome de Lynch, e resultados iniciais com 45 pacientes mostram redução de lesões pré-cancerosas, abrindo a perspectiva de impedir que pólipos evoluam para câncer colorretal em indivíduos com risco genético até 80%.

Quais os sintomas iniciais do câncer colorretal que o novo protocolo do SUS ajuda a identificar?

O novo protocolo do SUS, baseado no Teste Imunoquímico Fecal, atua antes de sintomas como sangue visível nas fezes, alteração recente do hábito intestinal, perda de peso sem causa aparente e dor abdominal, identificando sangue microscópico relacionado a pólipos e lesões iniciais, o que permite diagnóstico e tratamento antes do quadro clínico aparecer.

Por que o câncer colorretal está aumentando entre adultos mais jovens?

O aumento do câncer colorretal entre adultos mais jovens está ligado a fatores como sedentarismo, dieta ultraprocessada, obesidade, tabagismo, álcool e maior exposição prolongada a esses hábitos desde cedo, além de síndromes genéticas pouco rastreadas; isso leva tumores a surgirem antes da idade tradicional de triagem, exigindo revisão de protocolos preventivos.


Carregar Comentários