Quando a notícia incomoda o poder, o STF pode decidir quem pode ser jornalista?

Debate sobre uma exigência derrubada pelo próprio Supremo em 2009 volta à mesa após investigação envolvendo reportagem sobre carro oficial usado por familiares de Flávio Dino, colocando em xeque uma questão maior: até onde vai a formação profissional e onde começa o poder de definir quem pode informar?
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O episódio que colocou o diploma novamente no centro do debate

Nos bastidores, inclusive no entorno do STF, avalia-se que a retomada do debate sobre o diploma obrigatório de jornalismo não nasceu de uma inquietação abstrata com a qualidade da informação. Nasceu de um episódio concreto, pessoal, que mexeu com um ministro da Corte.

Um blog político maranhense publicou reportagens sobre o uso de um veículo oficial do TJ-MA por familiares de Flávio Dino, hoje no STF, mas que comandou o Maranhão por duas gestões e depois chefiou o Ministério da Justiça e Segurança Pública em nível federal. Dino negou irregularidade.

A reportagem incomodou o suficiente para que Alexandre de Moraes autorizasse a quebra do sigilo das comunicações do jornalista responsável pelo blog, Luís Pablo, medida que levou a PF até a fonte que vazou o material, um ex-secretário estadual.

O que a investigação encontrou — e o que não encontrou

Aqui a história fica mais espinhosa do que parece à primeira vista. O relatório de inteligência que embasou a operação não encontrou indício do crime que motivou a busca inicial, violação de sigilo funcional, nem conseguiu afirmar com segurança que o jornalista foi pago para produzir as matérias.

Moraes, ainda assim, apontou na decisão indícios de outro crime, perseguição contra um colega de Corte, com parecer favorável da PGR.

Ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes

A PF também apura se houve monitoramento indevido do ministro e acesso irregular a sistemas restritos.

Ou seja: não é um caso de perseguição pura e simples a um blogueiro incômodo, mas também não é um caso encerrado a favor do Supremo. É zona cinzenta, e zona cinzenta não se resolve reabrindo um decreto de 1969.

Ministros voltam a discutir uma decisão de 2009

Foi nesse terreno que Dino e Moraes, durante sessão da Primeira Turma que julgava um processo de direito de resposta envolvendo a Rede Globo, sem relação direta com o episódio maranhense, defenderam a rediscussão da exigência de diploma.

No dia seguinte, Gilmar Mendes, relator do julgamento de 2009 que declarou a exigência incompatível com a Constituição, confirmou disposição para reabrir o tema, embora tenha ponderado que a Corte ainda não tem elementos para um juízo definitivo.

O processo que motivou a fala, aliás, nem chegou a um desfecho: um pedido de vista de Cármen Lúcia suspendeu o julgamento, deixando o debate correndo por fora, em entrevistas e declarações avulsas.

O argumento da qualificação profissional

A costura tem sofisticação. Ninguém ali propõe abertamente controlar a imprensa. O discurso é de qualificação profissional, de separar jornalismo de perfis que disseminam desinformação sob pretexto de liberdade de expressão.

E não é só discurso de ministro incomodado: a Fenaj já defendeu publicamente a retomada do debate, sustentando critérios de acesso à profissão sem reduzir garantias como o sigilo da fonte.

Isso merece registro, porque tira a discussão do terreno do capricho pessoal e a devolve, em parte, ao campo institucional.

Diploma garante jornalismo de qualidade?

O próprio Gilmar Mendes, ao votar contra o diploma obrigatório em 2009, já reconhecia que exigência acadêmica não é vacina contra mau jornalismo nem garante qualidade de conteúdo.

Isso continua verdadeiro hoje como era há dezessete anos.

O que muda é o momento em que o tema volta à pauta, colado a um episódio em que um ministro se sentiu pessoalmente exposto, e em que o instrumento usado para chegar à fonte foi justamente aquele que a Constituição reserva para proteger a atividade jornalística.

O jornalismo no Brasil vive um momento de profunda transformação estrutural, marcado por debates sobre a regulamentação profissional, o impacto das plataformas digitais e a defesa da liberdade de imprensa e do sigilo da fonte.

O ponto mais delicado da discussão

Existem mecanismos de sobra para responsabilizar quem erra, difama ou comete crime na cobertura, blogueiro ou não.

Regular quem pode contar uma história é outra coisa, e esbarra num princípio básico de qualquer democracia, o de que a notícia que incomoda o poder precisa de mais proteção, não de menos.

O debate que realmente importa não é o do diploma em si, é o do acesso à formação de qualidade, hoje concentrado em quem já tem condição de bancar universidade.

Vestir controle de informação com verniz de zelo editorial é o tipo de manobra que autoritarismo nenhum apresenta como autoritarismo. Apresenta como cuidado.

 

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