Volodymyr Zelensky descarta a realização de eleições nacionais na Ucrânia enquanto o país permanecer em guerra e afirma que um pleito neste momento poderia “dividir” a sociedade e ameaçar a segurança nacional. O presidente reage a propostas de integrantes da própria estrutura política e militar de Kiev e classifica o impacto de uma disputa eleitoral em meio à invasão russa como um possível “tsunami” para o país.
Zelensky vê eleições como risco à unidade em plena guerra
As declarações de Zelensky ocorrem em um momento de crescente pressão política em Kiev. O presidente retoma o principal argumento utilizado pelo governo para manter a suspensão do calendário eleitoral: enquanto a lei marcial estiver em vigor, a prioridade deve ser o esforço de guerra e a defesa do território ucraniano.
“Acredito que, em uma guerra como esta, eleições, como tais, representam um enorme risco. Eleições neste momento são um tsunami para o país que vai dividir a Ucrânia”, afirma Zelensky ao responder às propostas de realização de um pleito durante o conflito.
Na avaliação do presidente, uma campanha eleitoral desviaria recursos, atenção e energia do campo de batalha para a disputa política. O governo também teme que a Rússia aproveite o período eleitoral para ampliar campanhas de desinformação, interferência digital e tentativas de desestabilização.
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A legislação de emergência em vigor suspende as eleições nacionais e mantém os mandatos durante o período de guerra. O governo argumenta que a medida evita uma ruptura política em um momento de extrema vulnerabilidade militar.
Zelensky resume o risco em termos contundentes:
“Se quisermos destruir o país, então podemos seguir na direção de eleições em tempos de guerra”.
Uma pesquisa do Instituto de Sociologia de Kiev citada no debate mostra que apenas 15% dos ucranianos defendem a realização de eleições antes do fim da guerra. O resultado fortalece a posição do governo de que a maioria da população considera a suspensão temporária do processo eleitoral aceitável diante da situação militar.
Demissões, protestos e tensão dentro da estrutura de guerra
O debate eleitoral ocorre em meio a mudanças na cúpula política e militar da Ucrânia. A saída de Mykhailo Fedorov do Ministério da Defesa abriu uma nova frente de tensão dentro da estrutura responsável pela condução da guerra.
Fedorov, associado à modernização da defesa ucraniana e ao avanço do uso de drones, passou a defender publicamente a possibilidade de eleições mesmo durante o conflito. A proposta, porém, enfrenta obstáculos práticos consideráveis.
Um eventual pleito teria de definir como garantir o voto de soldados mobilizados na linha de frente, cidadãos deslocados internamente, milhões de refugiados espalhados por outros países e moradores de regiões ocupadas pela Rússia.
Zelensky critica a iniciativa e afirma que o ex-ministro estaria seguindo uma direção equivocada.
“Acredito que ele está seguindo por conta própria — ou está sendo empurrado — para coisas erradas”, declarou o presidente.

O ambiente político também é marcado por manifestações e críticas à condução da guerra. Parte dos protestos passou a questionar não apenas decisões do governo, mas também o comando militar, aumentando a pressão sobre Zelensky para equilibrar a necessidade de estabilidade com a insatisfação crescente de setores da sociedade.
O presidente afirma reconhecer o direito de manifestação, mas questiona campanhas que, segundo ele, colocam disputas políticas acima da situação dos militares que permanecem no front. “Desde quando o marketing passou a ter mais peso do que as pessoas que estão dando suas vidas?”, questiona.
Direitos suspensos e medo de interferência russa
A manutenção da lei marcial significa a suspensão temporária de mecanismos importantes da democracia ucraniana. O país enfrenta, assim, uma contradição delicada: luta militarmente em nome da soberania e da liberdade, mas precisa restringir parte das atividades políticas e eleitorais para manter a estrutura de defesa funcionando.
O governo sustenta que não existem condições adequadas para uma eleição segura e legítima enquanto partes do território permanecem ocupadas e milhões de cidadãos estão deslocados.
Entre os principais obstáculos estão a garantia do voto para militares em combate, a organização de seções eleitorais para refugiados no exterior e a participação de cidadãos que vivem em áreas ocupadas pela Rússia. Também existe a necessidade de assegurar o sigilo do voto e a integridade da apuração em um país submetido a ataques militares.
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Outro problema é a possibilidade de interferência estrangeira. Autoridades ucranianas temem que Moscou utilize redes sociais, campanhas de propaganda e ataques cibernéticos para manipular a opinião pública, aprofundar divisões internas e questionar a legitimidade do resultado.
Nesse cenário, uma eleição poderia produzir o efeito contrário ao desejado: em vez de reforçar a legitimidade do governo, poderia abrir uma nova crise política caso os resultados fossem contestados ou parte da população considerasse o processo vulnerável à interferência externa.
Zelensky insiste que preservar a unidade nacional é prioridade. “A sociedade e os soldados não devem se dividir”, afirma o presidente ao alertar para o risco de que uma disputa eleitoral provoque novos conflitos internos.
O dilema entre democracia e sobrevivência nacional
A posição de Zelensky coloca a Ucrânia diante de um dos dilemas mais difíceis de uma democracia em guerra: como preservar as instituições políticas sem colocar em risco a própria capacidade de defesa do Estado.
Para o governo e as Forças Armadas, a suspensão das eleições garante continuidade administrativa e permite concentrar recursos no conflito. Não existe, nesse cenário, uma campanha eleitoral capaz de interromper o funcionamento da máquina de guerra ou provocar uma disputa pelo comando político enquanto o país enfrenta ataques russos.
Para setores da sociedade civil, porém, a situação é mais delicada. A manutenção prolongada da lei marcial pode aumentar a concentração de poder no Executivo e criar dúvidas sobre como será feita a transição política quando o conflito terminar.
O problema também envolve a própria legitimidade futura das instituições. Quanto mais longa for a suspensão das eleições, maior será o desafio de organizar um processo eleitoral considerado legítimo por uma sociedade profundamente afetada pela guerra, pelo deslocamento populacional e pelas perdas humanas.
Por enquanto, os números disponíveis indicam que a maioria dos ucranianos não considera uma eleição imediata prioridade. O apoio de apenas 15% a um pleito antes do fim da guerra mostra que a sobrevivência nacional continua pesando mais do que a retomada imediata das urnas.
Quando a Ucrânia voltará a votar?
O cenário mais provável permanece sendo a continuidade da lei marcial enquanto persistirem as condições de guerra que impedem a realização de eleições nacionais. Zelensky não indica disposição para convocar um pleito enquanto o conflito continuar e sustenta que a prioridade é preservar a unidade do país.
Quando as condições militares permitirem a retomada do processo eleitoral, a Ucrânia terá de enfrentar uma tarefa monumental: atualizar o cadastro de milhões de deslocados, garantir a participação de refugiados, definir regras para regiões afetadas pelo conflito e reconstruir uma estrutura eleitoral capaz de funcionar em um país devastado pela guerra.
A questão, portanto, vai muito além da data de uma eleição. O futuro pleito será também um teste para a democracia ucraniana e para a capacidade do país de reconstruir suas instituições depois de anos de emergência.
Enquanto as armas continuarem falando, Zelensky aposta que a melhor forma de preservar a Ucrânia é manter a disputa política em segundo plano. O verdadeiro teste virá depois: quando chegar a hora de transformar a vitória — ou o fim da guerra — em uma nova ordem democrática.