Augusto Cury é de direita ou esquerda? Veja como o candidato se posiciona

Candidato do Avante tenta ocupar o centro político na disputa presidencial e defende uma combinação de liberdade econômica, responsabilidade fiscal e proteção social
Redação NC News
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O escritor e psiquiatra Augusto Cury, de 67 anos, se apresenta como candidato de centro moderado na disputa pela Presidência da República. Pelo Avante, ele busca se distanciar tanto do campo petista quanto do bolsonarismo e aposta em um discurso de união diante da polarização política.

Na corrida eleitoral, Cury defende uma agenda que combina liberdade econômica e responsabilidade fiscal com políticas de proteção social, tentando atrair eleitores que não se identificam com os principais polos ideológicos da política brasileira.

Candidato rejeita rótulos e fala em “mente capitalista e coração social”

Cury insiste que não é nem de direita nem de esquerda. Em entrevistas recentes, ele resume sua proposta pessoal em uma fórmula que repete em diferentes palanques: “uma mente capitalista e coração social”. Afirma defender o mercado e o empreendedorismo, sem abandonar direitos humanos e políticas sociais.

No debate presidencial da Band, em 23 de agosto de 2026, o candidato reforça a tentativa de se descolar dos extremos. “O Brasil não se divide entre direita e esquerda, mas forma um único país”, diz, em uma de suas frases mais compartilhadas nas redes sociais desde então.

O psiquiatra critica o clima de hostilidade da política recente e acusa adversários de manter o país aprisionado em um confronto estéril. Ao comentar a disputa entre campos ligados a Lula e a Jair Bolsonaro, Cury afirma que “a polarização entre petismo e bolsonarismo havia transformado o país em uma espécie de praça de guerra”.

Plano liberal com Estado enxuto e foco em empreendedorismo

A base dessa candidatura está no documento “O Brasil dos Nossos Sonhos”, plano de governo com cerca de 200 páginas registrado no Tribunal Superior Eleitoral. O texto reúne 18 projetos estruturais e detalha reformas econômicas, institucionais e sociais.

Na economia, o candidato assume sem rodeios que tem “uma mente liberal” e defende um Estado enxuto. O programa fala em reduzir desperdícios, cortar privilégios, reorganizar a máquina pública e perseguir um déficit público próximo de zero, com queda gradual da dívida do governo.

Cury mira especialmente o ambiente de negócios. O plano prevê a criação de milhares de “clubes de empreendedorismo” em escolas, universidades, igrejas e comunidades, além de um Banco do Empreendedor voltado a financiar pequenos negócios. A promessa é facilitar crédito, simplificar burocracia e reduzir juros para quem quer abrir ou ampliar empresas.

Ao falar com eleitores e em entrevistas, o candidato diz simpatizar com pessoas que querem produzir e encontram “obstáculos” no caminho, da papelada excessiva à carga de impostos. Afirma ver o empreendedor como motor de geração de emprego e renda, especialmente em regiões afastadas dos grandes centros.

Alinhamentos com Guedes e Tarcísio expõem ponte com centro-direita

Embora rejeite rótulos, Cury não esconde a proximidade com bandeiras liberais ligadas à centro-direita. Em declarações públicas, chama o economista Paulo Guedes de “uma mente brilhante” e afirma que “o Brasil precisaria de uma mente como a do neoliberal Paulo Guedes para enfrentar o endividamento público”.

O candidato também conecta seu projeto a figuras políticas consolidadas. Ao defender a adoção de um sistema semipresidencialista, sugere que, se o modelo for aprovado, indicaria o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, como primeiro-ministro. O gesto sinaliza um caminho natural de diálogo com setores alinhados ao bolsonarismo, ainda que Cury tente se manter fora dessa disputa direta.

Nas entrevistas, ele foge de perguntas sobre em quem votaria em um eventual embate entre Lula e representantes da família Bolsonaro. Reitera que pretende estar ele próprio no segundo turno, vendendo-se como alternativa “independente” à atual divisão.

Avante busca se firmar como legenda antipolarização

A candidatura também funciona como vitrine para o Avante. O partido nasce em 1989 como Partido Trabalhista do Brasil, obtém registro definitivo poucos anos depois e adota o nome atual em 2017, após autorização do Tribunal Superior Eleitoral.

Hoje a sigla se autodefine como pragmática e antipolarização, sem se assumir formalmente como de direita ou de esquerda, embora classificações acadêmicas e parlamentares a coloquem entre centro e centro-direita. Ao escolher Cury, o Avante aposta em um nome de apelo popular, mais conhecido pelo público leitor do que pelo eleitor acostumado ao jogo partidário.

O escritor, por sua vez, carrega o prestígio de sua trajetória na educação cognitiva infanto-juvenil e no mercado editorial para tentar furar a bolha política tradicional. Seu discurso tenta conectar saúde mental, educação e produtividade, com ênfase na escola pública e em programas de formação empreendedora para jovens.

Segurança, política externa e semipresidencialismo no tabuleiro

No campo da segurança pública, Cury apresenta projetos batizados com siglas de impacto. O FATO, “Força de Alerta Total”, propõe integrar Polícia Federal, polícias civis e militares em um sistema nacional de inteligência, com uso intensivo de tecnologia. O FOCO, “Força de Combate Municipal”, viria como estrutura de apoio às forças policiais nas cidades.

Esses sistemas usariam ferramentas como inteligência artificial, drones, câmeras inteligentes, leitura automática de placas e reconhecimento facial, sempre “dentro dos limites legais”, segundo o plano. A proposta tenta dialogar com o eleitor preocupado com violência, mas preservando um discurso de respeito às garantias individuais.

Na política externa, Cury sonha alto. O programa fala em uma agenda de combate global à fome, com o slogan “Make Humanity Great Again”, adaptação do bordão que ficou famoso na política norte-americana. O plano propõe um Fundo Internacional de Erradicação da Fome, financiado com o equivalente a 0,5% do comércio mundial e 2% da indústria global de armamentos.

O candidato já afirma também que pretende se colocar como mediador de conflitos internacionais. Cita a disposição de conversar diretamente com lideranças em guerra, como os presidentes da Rússia e da Ucrânia, para tentar construir pontes diplomáticas.

O que muda no tabuleiro eleitoral

A entrada de Augusto Cury na corrida presidencial mexe no xadrez de 2026 ao oferecer uma narrativa de centro num ambiente ainda marcado pela disputa entre lulismo e bolsonarismo. Seu discurso pode atrair eleitores cansados do confronto entre campos ideológicos e seduzidos pela combinação de ortodoxia fiscal, estímulo ao empreendedorismo e manutenção de programas sociais.

Empresários e pequenos empreendedores tendem a olhar com simpatia para propostas como o Banco do Empreendedor e os clubes de empreendedorismo. Já o compromisso de perseguir déficit próximo de zero e reduzir a dívida pública pode acender alertas em setores ligados ao funcionalismo e a políticas de gasto social mais robustas, temerosos de cortes orçamentários.

As próximas semanas mostram se Cury consegue transformar visibilidade em intenção de voto e consolidar-se como terceira via real. Seu sucesso depende da capacidade de se diferenciar tanto da esquerda quanto da direita tradicional, sem perder pontes com possíveis aliados em um eventual segundo turno e sem afastar o eleitor que ainda associa liberalismo econômico a cortes sociais.

 

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