MP denuncia 16 por esquema de desvio de metanol para adulterar combustíveis em São Paulo

Investigação aponta desvio de metanol para abastecer postos com combustível adulterado
Redação NC News
ouça este conteúdo
00:00 / 00:00
1x

O Ministério Público de São Paulo denunciou 16 pessoas por suspeita de participação em um esquema de desvio de metanol utilizado na adulteração de combustíveis vendidos no estado. A investigação aponta que o grupo teria criado uma estrutura envolvendo empresas, postos de combustíveis e mecanismos de ocultação de patrimônio para movimentar o produto de forma irregular.

A denúncia foi apresentada pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) e está relacionada à Operação Boyle, investigação que apura crimes ligados ao mercado de combustíveis em São Paulo. Segundo os investigadores, o grupo atuava com adulteração de gasolina e etanol, além de lavagem de dinheiro e outros mecanismos utilizados para manter o esquema em funcionamento.

As investigações identificaram que cargas de metanol que deveriam ser entregues oficialmente a empresas do setor químico tinham, em alguns casos, destinos completamente diferentes dos registrados nos documentos fiscais. Em vez de chegarem aos compradores indicados nas notas, os carregamentos eram desviados para postos da Grande São Paulo.

Roberto Augusto Leme da Silva, o 'Beto Louco' — Foto: Reprodução/Polícia Civil
Roberto Augusto Leme da Silva, o ‘Beto Louco’ — Foto: Reprodução/Polícia Civil

Metanol era desviado para postos

O metanol é um produto químico utilizado em diferentes processos industriais, mas seu uso irregular como componente de combustíveis representa uma grave violação das normas do setor.

Segundo documentos relacionados à investigação, caminhões carregavam o produto em terminais marítimos e deveriam seguir para empresas que apareciam como destinatárias oficiais. Entretanto, informações obtidas pelos investigadores indicaram que parte das cargas era desviada durante o percurso.

Em um dos casos identificados, uma carga que tinha como destino oficial uma empresa localizada em Primavera do Leste, no Mato Grosso, teria seguido para a cidade de São Paulo. O produto acabou descarregado em um posto localizado na região do Bixiga, segundo elementos reunidos na investigação.

O caso chamou atenção porque os documentos fiscais davam uma aparência de regularidade à operação, enquanto os dados obtidos durante a investigação indicavam outro destino para o produto.

Combustível poderia ter concentração muito acima do permitido

A investigação também encontrou indícios de que determinados postos comercializavam combustíveis com concentrações de metanol muito superiores ao limite permitido pela regulamentação.

Segundo documentos judiciais relacionados ao caso, a legislação da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) estabelece limite máximo de 0,5% de metanol no combustível comercializado no país.

Em alguns pontos investigados, porém, foram identificadas

concentrações muito superiores. Um dos núcleos analisados teria comercializado gasolina com até 50% de metanol, de acordo com informações presentes em decisão judicial.

Outras análises realizadas durante investigações posteriores também apontaram casos ainda mais extremos, com postos investigados apresentando combustíveis com concentrações de até 90% de metanol.

Esquema envolvia empresas de fachada

Segundo as investigações, a operação não dependia apenas do desvio físico das cargas. O grupo também teria utilizado empresas de fachada e documentação fiscal para esconder a verdadeira destinação do metanol.

A estrutura investigada funcionaria por meio de empresas que apareciam formalmente como compradoras ou destinatárias do produto, enquanto os carregamentos eram direcionados para outros locais.

Esse mecanismo permitiria dificultar o rastreamento das cargas e criar uma aparência de legalidade para operações que, segundo o Ministério Público, tinham outro objetivo.

As investigações também apontam suspeitas de lavagem de dinheiro e utilização de estruturas empresariais para ocultar valores e patrimônio.

Justiça recebeu denúncias contra os 16 investigados

No início de abril de 2025, o Gaeco ofereceu duas denúncias contra um grupo formado por 16 pessoas, acusadas de crimes como organização criminosa e lavagem de dinheiro. Em 9 de abril, o Poder Judiciário recebeu as denúncias e autorizou uma série de medidas cautelares.

Entre as determinações estavam o bloqueio e sequestro de bens e valores, a suspensão das atividades econômicas de postos envolvidos e de empresas utilizadas para ocultação de patrimônio.

A Justiça também determinou a prisão preventiva de seis denunciados, apontados como integrantes da estrutura de liderança do grupo, enquanto outros dez passaram a cumprir medidas cautelares alternativas à prisão.

Operação Boyle teve nova fase

A investigação avançou para uma nova etapa em abril de 2025, quando a Polícia Federal e o Ministério Público de São Paulo realizaram a segunda fase da Operação Boyle.

Na ocasião, foram expedidos seis mandados de prisão preventiva. Cinco deles foram cumpridos, enquanto um dos investigados não foi localizado e passou a ser considerado foragido. Também foram realizadas buscas em cidades como São Paulo, Santo André, Poá, Arujá e Bertioga.

A primeira fase da operação havia ocorrido em fevereiro de 2024, com 15 mandados de busca e apreensão.

Segundo as autoridades, as diligências ajudaram a revelar uma estrutura criminosa que atuava em diferentes etapas do mercado de combustíveis.

Adulteração pode causar prejuízos aos consumidores

Além de representar uma fraude contra consumidores, a utilização irregular de metanol em combustíveis pode trazer consequências para os veículos.

Especialistas apontam que concentrações muito elevadas da substância podem provocar danos ao sistema de alimentação e a componentes do motor, além de comprometer o funcionamento do veículo.

O problema também envolve riscos relacionados ao próprio produto, que é uma substância tóxica e inflamável.

A adulteração, portanto, pode causar prejuízos financeiros para quem abastece o veículo e também gerar riscos relacionados à segurança.

Investigação expõe complexidade do mercado clandestino

A denúncia dos 16 investigados mostra como esquemas de adulteração de combustíveis podem envolver diferentes setores da cadeia.

O desvio de matéria-prima, o uso de empresas para dar aparência legal às operações, a adulteração do produto e a circulação dos combustíveis pelos postos formariam diferentes etapas da estrutura investigada.

As autoridades continuam analisando documentos, mensagens, movimentações financeiras e outros elementos obtidos durante as operações para identificar a extensão do esquema e a eventual participação de outros envolvidos.

Os 16 denunciados ainda respondem às acusações perante a Justiça e não podem ser considerados culpados antes de uma decisão judicial definitiva.

Carregar Comentários