O ex-banqueiro Daniel Vorcaro depõe nesta quinta-feira (27) à Polícia Federal sobre a atuação suspeita de dois ex-servidores do Banco Central que teriam favorecido o Banco Master em troca de vantagens financeiras. A oitiva ocorre por videoconferência, a partir do local onde ele está preso, no Distrito Federal.
O interrogatório integra a Operação Compliance Zero, que investiga suspeitas de corrupção, fraude e pagamento de vantagens indevidas dentro do órgão responsável pela fiscalização do sistema financeiro. A apuração alcança integrantes da estrutura técnica responsável por decisões que podem afetar bancos e instituições reguladas.
Operação mira ex-servidores do Banco Central
A Polícia Federal apura se Paulo Sérgio Souza, ex-diretor de Fiscalização do Banco Central, e Belline Santana, ex-chefe do Departamento de Supervisão Bancária, usaram os cargos para favorecer interesses privados. Os dois deixaram o BC e são investigados por supostamente interferir em decisões relacionadas ao Banco Master.
Segundo a investigação, os ex-servidores teriam recebido vantagens financeiras de Vorcaro e atuado em defesa dos interesses do banco. A suspeita envolve o repasse de informações sigilosas, a revisão de documentos e orientações dadas a Vorcaro em tratativas com o próprio regulador. As defesas dos dois negam irregularidades.
O caso atinge diretamente a credibilidade da fiscalização do sistema financeiro. Se comprovada a existência de favorecimento dentro do órgão regulador, a investigação poderá levantar questionamentos sobre a imparcialidade de decisões técnicas e sobre os mecanismos de controle utilizados pelo Banco Central.
Depoimento foi adiado e ocorre com nova defesa
O depoimento de Vorcaro estava marcado para a semana passada, mas foi suspenso após um pedido da defesa. Segundo a Polícia Federal, os advogados alegaram precisar de mais tempo para analisar o conteúdo do inquérito.
Agora, o ex-banqueiro presta depoimento acompanhado de uma nova equipe jurídica, que busca definir uma nova estratégia para o caso. Esta é a primeira oitiva formal de Vorcaro sob orientação dos novos defensores.
A defesa também tenta retomar as discussões sobre um possível acordo de colaboração premiada. Negociações anteriores teriam sido rejeitadas pela Polícia Federal e pela Procuradoria-Geral da República. Em eventual colaboração, Vorcaro precisaria apresentar informações e provas capazes de contribuir efetivamente para o avanço das investigações.
Vorcaro permanece em prisão preventiva no Distrito Federal. A medida é mantida no curso da investigação, e sua situação pode ser influenciada pelo conteúdo do depoimento e pelos próximos passos definidos pela Justiça.

Investigação coloca Banco Central sob pressão
O depoimento desta quinta-feira pode representar um ponto importante para a Operação Compliance Zero. Caso Vorcaro apresente detalhes sobre valores, encontros, mensagens e possíveis intermediários, a investigação poderá ampliar o número de pessoas e empresas sob suspeita.
O Banco Master aparece no centro da apuração como possível beneficiário das condutas investigadas. A PF busca verificar se decisões ou informações obtidas dentro do Banco Central foram utilizadas para beneficiar interesses ligados à instituição.
O impacto potencial vai além do banco. A eventual comprovação de interferência indevida em processos de fiscalização pode atingir a confiança no sistema de supervisão bancária e gerar questionamentos sobre decisões tomadas durante o período investigado.

Ex-servidores negam irregularidades
As defesas de Paulo Sérgio Souza e Belline Santana negam as acusações e sustentam que a atuação dos dois ocorreu dentro das atribuições institucionais. A partir de agora, a disputa jurídica deve se concentrar na interpretação de mensagens, documentos, registros e demais elementos reunidos pela Polícia Federal.
A investigação, por sua vez, precisa cruzar as declarações de Vorcaro com provas independentes. Registros de comunicação, agendas, documentos internos, movimentações financeiras e dados obtidos durante as diligências podem ser utilizados para confirmar ou enfraquecer as suspeitas.
Dentro do Banco Central, o caso também pode estimular discussões sobre controles internos, acesso a informações sigilosas e mecanismos de prevenção a conflitos de interesse.
Próximos passos da Operação Compliance Zero
O conteúdo do depoimento pode determinar o rumo das próximas etapas da operação. Caso Vorcaro apresente informações novas e comprováveis, a PF poderá realizar novas diligências, convocar outros envolvidos e aprofundar a investigação sobre possíveis favorecimentos.
Uma eventual colaboração premiada também dependerá da avaliação da Polícia Federal e da PGR, além da análise judicial. Para avançar, o acordo precisaria ser acompanhado de elementos concretos capazes de comprovar as informações apresentadas pelo investigado.
Se não houver novas provas relevantes, a investigação deve seguir com base no material já reunido pelos investigadores. A prisão preventiva de Vorcaro também continuará sendo analisada pela Justiça de acordo com as circunstâncias do caso.
O depoimento desta quinta-feira, portanto, não encerra a Operação Compliance Zero. Ele pode, porém, ajudar a definir se a investigação permanecerá concentrada nas relações entre Vorcaro, o Banco Master e os dois ex-servidores ou se avançará para um esquema mais amplo dentro do sistema financeiro.