Operação do MP revela aliança entre milícia e TCP para enfrentar o Comando Vermelho no Rio

Ministério Público desarticula aliança criminosa entre milícias e facções no Rio, com prisões e denúncias importantes.
Redação NC News
ouça este conteúdo
00:00 / 00:00
1x

Uma operação do Ministério Público do Rio de Janeiro desarticula uma suposta aliança entre milicianos da Zona Oeste e integrantes do Terceiro Comando Puro (TCP), na Zona Norte, para enfrentar o Comando Vermelho (CV). A ofensiva prende dois policiais militares e um traficante e expõe, segundo a investigação, um esquema de troca de armas, munições e apoio logístico entre grupos historicamente rivais.

A investigação envolve agentes de segurança suspeitos de fornecer armamentos e atuar como intermediários para integrantes da milícia e do tráfico. O caso revela uma mudança nas relações entre organizações criminosas e pode alterar a dinâmica da disputa territorial em diferentes regiões do Rio de Janeiro.

Mensagens no celular expõem elo entre milícia e facção

A investigação começa a ganhar força após a prisão em flagrante de Yuri Guimarães Soares, em novembro de 2023, na Zona Oeste. Segundo o Ministério Público, fuzis e carregadores foram encontrados no carro em que ele estava. A análise do celular apreendido passa a orientar parte da investigação.

De acordo com a denúncia, as mensagens mostram Yuri atuando como intermediário entre a milícia de Curicica, em Jacarepaguá, e integrantes do TCP que atuam em áreas da Zona Norte, como os complexos da Maré e da Pedreira.

Em uma das conversas, Yuri escreve a um interlocutor apontado como integrante da milícia:

“O TCP não é inimigo nosso, pelo contrário, é mais de ajudar a gente”. Em outra mensagem, reforça a existência de um inimigo comum: “Nossa guerra é com os [integrantes do] Comando Vermelho. O segredo da vitória é nossa união, irmão”.

“O TCP não é inimigo nosso” | Foto: Reprodução

Segundo os investigadores, os diálogos também indicam negociações envolvendo armas e munições, além de veículos roubados e bloqueadores de sinal. O material apreendido teria ajudado os investigadores a identificar conexões entre criminosos de diferentes regiões da cidade.

Leia também:

Chefe do Comando Vermelho morto em ação na zona oeste do Rio

Operação prende PMs e mira 20 denunciados

Com o avanço da investigação, o Grupo de Atuação Especializada de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público, deflagra nesta quinta-feira (27) uma operação em diferentes pontos do Rio.

Dois policiais militares e um traficante são presos. O sargento Jorge Anastácio Rodrigues Simões é detido no batalhão onde trabalha, em São Cristóvão, na Zona Norte. O policial Leo Carlos Anjos dos Santos, lotado em Botafogo, na Zona Sul, é preso em casa.

Segundo o Ministério Público, os dois são suspeitos de fornecer e intermediar a venda de armas e munições para integrantes da milícia e do TCP.

Grupo de Atuação Especializada de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) | Foto: Reprodução

Ao todo, 20 pessoas são denunciadas por crimes como extorsão, homicídio e constituição de milícia privada. Quatro dos denunciados já estão presos por outros processos.

Entre os nomes citados está Thauan da Silva Menezes, conhecido como Balão. Segundo a investigação, ele seria integrante do TCP na região da Maré, especialmente na Vila do João, e teria participação na negociação de drogas e armas, incluindo fuzis.

Aliança contra o CV aumenta tensão nas comunidades

Segundo o Ministério Público, a aproximação entre milicianos e integrantes do TCP teria como principal objetivo fortalecer os dois grupos na disputa contra o Comando Vermelho.

A união de arsenais, informações e estruturas logísticas pode aumentar a capacidade de atuação das organizações criminosas e intensificar a disputa por territórios. Para moradores das áreas envolvidas, o avanço desses grupos pode significar mais violência, extorsões e restrições à rotina.

Milícias e facções também disputam atividades econômicas ilegais, incluindo a cobrança de taxas, o controle de serviços clandestinos e o comércio de drogas e armas. Em áreas dominadas por esses grupos, a disputa territorial costuma atingir diretamente moradores e comerciantes.

Ao mirar policiais suspeitos de participar do esquema, a operação também expõe um dos problemas mais graves da segurança pública fluminense: a suspeita de participação de agentes do Estado em estruturas criminosas.

A prisão dos envolvidos, porém, não significa necessariamente o fim da disputa. O enfraquecimento de uma estrutura criminosa pode provocar novas disputas por território, rotas e pontos de abastecimento.

Investigação coloca corrupção policial no centro do caso

A denúncia contra 20 pessoas e a prisão de dois policiais militares colocam a relação entre crime organizado e agentes públicos novamente no centro do debate sobre segurança no Rio.

Para os investigadores, a análise de celulares apreendidos foi fundamental para identificar conexões entre integrantes de grupos criminosos que, historicamente, mantinham relações de confronto.

O caso também mostra como as alianças entre organizações criminosas podem mudar de acordo com interesses territoriais e econômicos. Rivalidades antigas podem ser substituídas por acordos pontuais quando existe um inimigo comum ou uma oportunidade de ampliar áreas de influência.

Agora, os processos judiciais terão de determinar a responsabilidade individual dos denunciados e verificar a extensão da suposta aliança. Eventuais novas prisões e apreensões também podem revelar outros integrantes da estrutura.

Para as comunidades atingidas, o resultado mais importante será a capacidade do poder público de impedir que os grupos reorganizem suas operações e retomem o controle das áreas afetadas.

Veja também:

Ônibus é incendiado por criminosos na Taquara, no Rio

Entenda o contexto

A investigação do Ministério Público do Rio aponta para uma aproximação entre a milícia de Curicica, na Zona Oeste, e integrantes do Terceiro Comando Puro, na Zona Norte, com o objetivo de enfrentar o Comando Vermelho. A apuração começou a avançar após a prisão de Yuri Guimarães Soares, em 2023, e a análise de mensagens encontradas em seu celular.

Segundo o MP, as conversas ajudaram a identificar negociações de armas, munições e apoio logístico entre os grupos. A operação desta quinta-feira (27) prendeu dois policiais militares e um traficante e denunciou 20 pessoas por diferentes crimes. A investigação ainda está em andamento e caberá à Justiça analisar as acusações e determinar a responsabilidade de cada denunciado.

Mais lidas do NC News:

Cássio Gabus Mendes sai de A Nobreza do Amor: saiba o motivo

Bienal: Amazon, Estante Virtual e autores best-sellers se reúnem em São Paulo para discutir o futuro dos livros

Carregar Comentários