Um relatório sigiloso da Polícia Federal descreve o ministro Alexandre de Moraes atuando diretamente na organização de um evento jurídico super exclusivo em Londres, bancado pelo empresário Daniel Vorcaro. As mensagens reunidas no documento indicam que o ministro sugere nomes, aprova listas, veta convidados e reclama da condução do encontro, que acaba cancelado.
O caso envolve a interlocução de assessores ligados ao gabinete, ex-ministros, consultores de mídia e políticos. A PF insere o episódio no mapa de uma suposta rede de influência financiada por Vorcaro, mas ressalta que não aprofunda investigações sobre ministros nem afirma a prática de crime por autoridades com foro.
Convites, ministros “sensíveis” e fórum em Londres
O relatório IPJ-A nº 3298613/2026, assinado pela Polícia Federal e atualmente sob relatoria do ministro André Mendonça, nasce da análise de um celular apreendido de Daniel Vorcaro na Operação Compliance Zero. As mensagens extraídas mostram o desenho de um fórum jurídico em Londres com forte presença do Supremo Tribunal Federal.
Em 28/03/2024, um contato identificado como “Marcio Conjur” informa que Alexandre de Moraes enviou convite para um evento na capital britânica, previsto entre 24 e 27 de abril de 2024. O encontro, segundo a PF, é apresentado como espaço restrito de debates jurídicos e políticos, com ministros do STF e autoridades estrangeiras.
Dias depois, em 10/04/2024, o consultor Leo Serrano conversa com Vorcaro sobre “veículos” de comunicação para lidar com “Ministros mais sensiveis” do Supremo, citando “Alexandre, Toffoli, etc.”. O relatório interpreta a troca como discussão sobre quais jornais e revistas teriam mais aceitação entre integrantes da Corte convidados para o evento.
Vorcaro: “evento super exclusivo com alexandre de morares”
O papel de Vorcaro aparece com mais clareza em 19/04/2024. Em conversa com um contato salvo como “Luiz Rennó”, ele escreve que está organizando um “evento super exclusivo com alexandre de moraes em londres”. A PF destaca a frase como evidência de que o empresário não é apenas patrocinador, mas coordenador da iniciativa.
As notas analisadas mostram ainda diálogos com a advogada Ana Matos, apontada como uma das responsáveis pela logística. Em mensagens reproduzidas no documento, ela relata ter passado “o dia aqui com Vivi Moraes e o ministro fechando o programa do evento”. A menção a “Vivi Moraes” é associada pela PF ao escritório de Viviane de Moraes, mas os investigadores frisam que fazem apenas a correlação nominal presente nas conversas.
Nesse mesmo núcleo de mensagens, Ana trata de passagens aéreas para “min Alexandre” e diz que segue recomendações “que vieram do Ministro”. Para a PF, o conjunto reforça que Moraes, em tese, participa ativamente da formatação da programação, não apenas como palestrante convidado.
Sugestão de Temer e menção a Tony Blair
O relatório transcreve ainda interações que envolvem diretamente o conteúdo do fórum de Londres. Em uma delas, um registro atribuído a “Min Alexandre” sugere a inclusão do ex-presidente Michel Temer entre os participantes. A PF não detalha a resposta final dos organizadores, mas destaca que o nome do ex-presidente entra em cena por iniciativa do ministro.
Em outro trecho, Moraes pede que seja destacada em uma matéria a informação de que “os 3 ministros do STF se reuniram privativamente com o ex primeiro ministro Tony Blair”. Para os investigadores, a orientação mostra interesse não apenas no desenho interno do evento, mas na forma como o encontro seria repercutido publicamente.
As mensagens indicam ainda participação do ex-ministro das Comunicações Fabio Faria nas decisões sobre quem poderia ou não circular pelo fórum em Londres. Segundo a PF, Faria discute com Vorcaro vetos atribuídos a Alexandre de Moraes a determinados participantes, o que reforça a ideia de triagem rigorosa dos convidados.
Reclamações, desgaste e cancelamento
Apesar do esforço de quase um ano, o evento não se concretiza. Em 21/07/2025, já bem depois da janela de abril, Vorcaro escreve a Ana Matos que “Alexandre reclamou MUITO do evento”. Pouco depois, comunica de forma seca: “o evento foi cancelado”.
A PF relata que o cancelamento ocorre após uma sequência de ajustes de programa, mudanças de convidados e negociações sobre a presença de autoridades nacionais e estrangeiras. O documento não detalha exatamente o teor das reclamações do ministro, mas aponta o desfecho como sinal de desgaste entre organizador e principal atração do encontro.
Os investigadores enfatizam que, embora as conversas revelem forte envolvimento de Moraes na formatação do fórum, a iniciativa não sai do papel. O relatório ressalta que descreve dados brutos de comunicação e não faz juízo definitivo sobre condutas de ministros, membros do Ministério Público ou outras autoridades com foro.
Impacto político e debate ético no Judiciário
A narrativa montada a partir do celular de Vorcaro expõe a tentativa de promover, em Londres, um fórum de alto nível, financiado por um empresário investigado, com acesso direto a ministros do Supremo. O encontro previa presenças de peso da política brasileira e internacional, como Michel Temer e o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair, citados nas mensagens.
Para o meio jurídico, o caso acende o debate sobre limites éticos da participação de magistrados em eventos bancados pela iniciativa privada, sobretudo quando há seleção e veto de convidados com protagonismo do próprio ministro. A PF registra que a iniciativa pode, em tese, afetar a percepção de independência do Judiciário e criar canais privilegiados de influência.
O relatório deixa claro que os fatos descritos não significam condenação. Ninguém citado foi julgado, e não há decisão sobre eventual responsabilidade criminal de Alexandre de Moraes, de outros ministros ou de Daniel Vorcaro nesse episódio. A autoridade policial afirma, de forma expressa, que não realizou “aprofundamento investigativo” em relação a magistrados e membros do Ministério Público.
A defesa dos envolvidos ainda não apresenta, no documento, versão sobre o planejamento e o cancelamento do fórum em Londres. A reportagem procurará as partes citadas, que têm espaço aberto para se manifestar e contestar a interpretação dos investigadores sobre as mensagens.
Nas próximas semanas, o material tende a alimentar questionamentos no meio político e no Conselho Nacional de Justiça sobre regras para participação de juízes em eventos financiados por terceiros, sobretudo fora do país. Uma eventual regulamentação mais rígida pode emergir justamente da controvérsia em torno de um fórum que nunca aconteceu, mas já provoca efeitos concretos sobre a relação entre Poder Judiciário e interesses privados.
O que a PF aponta sobre o papel de Alexandre de Moraes?
O relatório sigiloso da Polícia Federal IPJ-A nº 3298613/2026 descreve Alexandre de Moraes sugerindo nomes, aprovando recomendações “que vieram do Ministro”, pedindo destaque a encontro com Tony Blair e, segundo mensagens de Ana Matos e Daniel Vorcaro, participando do fechamento da programação do evento e reclamando duramente da organização.
O evento em Londres chegou a acontecer?
O fórum jurídico super exclusivo planejado para Londres não aconteceu, segundo as mensagens analisadas pela Polícia Federal, que registram Daniel Vorcaro informando em 21/07/2025 que “Alexandre reclamou MUITO do evento” e, na sequência, comunicando que “o evento foi cancelado”, depois de mais de um ano de articulações logísticas e políticas.
Essas investigações significam que alguém já foi condenado?
As informações reunidas no relatório IPJ-A nº 3298613/2026 não representam condenação de ninguém; a Polícia Federal apenas descreve mensagens e dados extraídos do celular de Daniel Vorcaro, sem conclusão definitiva sobre crimes, e não há, neste momento, julgamento transitado em julgado envolvendo os fatos narrados.
A investigação está em andamento e as suspeitas descritas são hipóteses da apuração. Nenhuma das pessoas citadas foi denunciada ou condenada, e todas têm direito à presunção de inocência. O espaço segue aberto para manifestação das defesas.