“Amizade é tudo”: mensagens mostram proximidade de Gonet com Vorcaro enquanto PGR tenta anular relatório da PF

Advogado Ciro Soares aparece como elo entre o procurador-geral e o banqueiro em viagens, ligações e pedidos de favor; para professor de Direito Constitucional, tentativa de Gonet de barrar investigação sobre Moraes "não vale nada"
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Enquanto o procurador-geral da República, Paulo Gonet, tenta anular o relatório da Polícia Federal que expôs a relação entre o ministro Alexandre de Moraes e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, novas mensagens recuperadas do celular do próprio Vorcaro mostram que o chefe do Ministério Público Federal também mantinha proximidade com o banqueiro — numa relação costurada, principalmente, pelo advogado Ciro Soares. Soares é o mesmo profissional que atuou na tentativa de reverter no STJ a primeira decisão que autorizou a prisão preventiva de Vorcaro.

O relatório da PF traça uma linha do tempo de aproximação que começa em abril de 2024, quando Ciro escreve a Vorcaro que “amizade é tudo” e que “Gonet é firme” — mensagem enviada no contexto em que o procurador-geral teria ajudado a convencer um candidato a desistir da disputa pela presidência do Conselho Nacional dos Procuradores-Gerais (CNPG), em favor de Jarbas Soares Júnior.

Fotos, ligações e convite para Londres

Em 15 de março de 2025, Ciro enviou a Vorcaro uma foto ao lado de Gonet, seguida da mensagem “Liga aqui. Ele quer falar com você”. Na sequência, houve quatro chamadas consecutivas entre Vorcaro e o advogado — registros que, segundo a perícia da PF, indicam que o banqueiro teria conversado com o próprio procurador-geral pelo aparelho de Ciro.

Duas semanas depois, em 28 de março, Ciro repassou a Vorcaro mensagens atribuídas a Gonet, incluindo o comentário “já estou com saudades de você! Estou embarcando para Roma” e o pedido para que a mensagem fosse encaminhada diretamente ao procurador.

Ciro Soares enviou uma foto com Gonet a Vorcaro e enviou uma mensagem dizendo "Liga aqui. Ele quer falar com vc'. Foto: Reprodução/Relatório da PF
Ciro Soares enviou uma foto com Gonet a Vorcaro e enviou uma mensagem dizendo “Liga aqui. Ele quer falar com vc’. Foto: Reprodução/Relatório da PF

Na sequência, Ciro afirmou que Gonet iria junto a uma viagem a Londres, e repassou outra frase atribuída ao PGR sobre a expectativa de “charuto e Macallan” no encontro. Dias depois, Ciro perguntou se o filho de Gonet poderia integrar a viagem — Vorcaro respondeu “óbvio né”.

A funcionária do marketing do Master, Ana Matos, chegou a enviar a Vorcaro uma lista de nomes para aprovação dos custos da viagem, e o banqueiro autorizou o pagamento das despesas de Ciro e de outro integrante identificado como Pedro.

Já em abril de 2025, após a publicação de uma reportagem sobre negociações entre o Banco Master e o Banco de Brasília, Ciro avisou a Vorcaro que precisava falar urgentemente com ele — e disse estar a caminho da própria PGR.

Parecer da PGR  tem valor jurídico “zero”

O contexto dá ainda mais peso à reação do advogado e professor de Direito Constitucional André Marsiglia à tentativa de Gonet de anular o relatório da PF que embasa a investigação contra Moraes.

Em entrevista ao NC News, Marsiglia foi direto: “o valor jurídico dela é zero. É só um parecer”.

Marsiglia  lembrou que a manifestação da PGR não vincula a decisão do relator do caso, o ministro André Mendonça, que já teria avisado, antes mesmo de a PGR se manifestar, que manteria o processo tramitando com base no artigo 5º do regimento interno do STF, segundo o qual crime comum cometido por ministro deve necessariamente ir a plenário.

A tentava de Gonet é contraditória

Para o professor, a tentativa de Gonet de invalidar o processo por não ter passado pela PGR é, no mínimo, contraditória. Segundo ele, todos os grandes inquéritos conduzidos por Moraes nos últimos sete anos — desde o inquérito das fake news, aberto em 2019, até os das milícias digitais e dos atos antidemocráticos — também tramitaram sem passar pela Procuradoria.

“Ele precisa decidir: ou tudo é nulo, ou nada é nulo. Não dá pra nulidade ser instrumento de conveniência política nas mãos da Procuradoria-Geral da República”, resumiu Marsiglia, que se apresenta como o primeiro advogado a atuar no próprio inquérito das fake news, ainda em 2019, na defesa da revista alvo da primeira capa censurada pelo STF.

O episódio expõe uma teia de relações que, em vez de isolar Moraes, passa a envolver outros nomes do sistema de Justiça — e reforça a disputa institucional em torno de quem, afinal, tem poder para travar ou avançar as investigações que hoje mais pesam sobre o Judiciário brasileiro.

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