Brasil e México ficam fora de aliança dos EUA contra o crime organizado e desafiam estratégia de Trump

Governo brasileiro e México rejeitam acordo do "Escudo das Américas" que classifica facções criminosas como terroristas. Ameaça militar de Washington escancara vulnerabilidade nas fronteiras e vira trunfo eleitoral imediato para Flávio Bolsonaro.
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O Brasil e o México, as duas maiores economias da América Latina, ficaram oficialmente de fora do “Escudo das Américas”, uma nova coalizão de peso liderada pelos Estados Unidos. O bloco, que já reúne 14 países da região, firmou nesta terça-feira (22) um compromisso para endurecer o cerco contra 24 organizações criminosas, enquadrando-as sob a pesada classificação de “narcoterroristas”. Na linha de tiro direta de Washington e de seus aliados regionais estão duas das maiores facções brasileiras: o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV).

A ofensiva norte-americana prevê medidas severas, como o congelamento de ativos financeiros, restrições rigorosas de vistos e a criminalização internacional de qualquer indivíduo ou empresa que ofereça suporte logístico às facções. No entanto, ao decidir não aderir ao bloco, o Brasil se coloca na contramão da sua própria vizinhança. Além do governo de Luiz Inácio Lula da Silva e da gestão mexicana, Uruguai, Suriname e Venezuela rejeitaram a assinatura.

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O movimento dos Estados Unidos ainda pressiona a Organização dos Estados Americanos (OEA) a aprovar uma resolução conjunta chancelando as ações. O componente político aqui é irônico: a OEA hoje é comandada pelo surinamês Albert Ramdin, que chegou à secretaria-geral com forte empenho e apoio diplomático brasileiro.

Discurso de soberania nacional

A recusa do Itamaraty tem um motivo claro: a defesa da soberania nacional. A gestão petista rejeita rotular o crime organizado brasileiro como terrorismo sob o argumento de que o combate ao tráfico deve seguir a ótica das leis criminais internas. Nos bastidores da diplomacia, a classificação de terrorismo é vista como uma chave jurídica perigosa que abre brechas legais para interferências externas diretas.

Horas antes do anúncio do Escudo das Américas, o presidente Donald Trump usou a tribuna da Assembleia Geral da ONU para dar um recado nada sutil.

“Se necessário, usaremos todo o nosso poderio militar inigualável para assegurar os interesses vitais dos Estados Unidos”, disparou o republicano, usando como trunfo a operação militar recente que capturou Nicolás Maduro na Venezuela.

América Latina na agenda de Trump

Com a política externa de Trump enfrentando desgaste interno devido à guerra tarifária com a China, apresentar resultados no combate ao “narcoterrorismo” no continente tornou-se a grande aposta de entrega do seu governo para o eleitorado americano.

Na prática, as palavras de Trump são um sinal de alerta estridente para Lula e para o México. Com 14 nações aliadas aos EUA na região, o Brasil corre o risco real de ver ações estrangeiras acontecendo nas suas zonas de fronteira com a chancela dos vizinhos. Caso uma incursão norte-americana ocorra, Brasília ficaria politicamente engessada, com capacidade de reação quase nula — seja pelo peso militar americano, seja pela falta de apoio diplomático regional.

Pressão externa a Lula e o alinhamento de Trump e Flávio

Washington enxerga o Brasil de hoje como um país não alinhado. Auxiliares do Palácio do Planalto já admitem que os americanos prefeririam ver no comando do país um nome mais amistoso à agenda de Trump.

A pressão externa, somada à incapacidade histórica do Brasil de sufocar o crime organizado em seus próprios domínios, entrega munição pesada para a oposição. O senador e candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro (PL), já se mostrou publicamente favorável a classificar o PCC e o CV como organizações terroristas. Em uma eventual vitória do campo conservador, o Brasil seria imediatamente alinhado aos EUA nessa pauta, o que isolaria de vez o México na região.

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