O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) chamou o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) de “pé-frio” nesta quinta-feira (5), durante uma transmissão ao vivo com o deputado federal André Janones (Rede-MG). Em tom de ironia, Lula associou a chegada do adversário aos Estados Unidos à derrota do Partido Republicano, do presidente Donald Trump, nas eleições legislativas americanas realizadas na terça-feira (3).
A declaração ocorreu durante a primeira live de Lula após a reeleição presidencial. Ao comentar a campanha, o presidente comparou o uso da bandeira brasileira em seus atos políticos com a postura de Flávio, que demonstrou proximidade com os Estados Unidos durante a disputa eleitoral. O petista também afirmou que o senador teria deixado o país em busca de proteção e precisaria retornar para responder a processos judiciais.
Flávio Bolsonaro está nos Estados Unidos desde 28 de outubro, três dias depois de perder o segundo turno das eleições presidenciais. Sua saída ocorreu em meio a decisões judiciais relacionadas à entrega de passaportes e ao avanço de investigações. O senador afirma ser alvo de perseguição política e nega envolvimento em irregularidades.
Flávio Bolsonaro fala ao NYT sobre fuga e acusa Moraes de perseguição política
Lula ironiza chegada de Flávio aos Estados Unidos
Durante a transmissão, Lula relembrou momentos da campanha presidencial e criticou a aproximação política de Flávio Bolsonaro com Donald Trump.
O presidente mencionou que costumava levantar a bandeira brasileira durante seus atos eleitorais, enquanto o adversário utilizava símbolos americanos em demonstrações de apoio político.
“Enquanto eu fazia isso, o meu adversário pegava a bandeira americana e ficava beijando. E foi correr agora, pé-frio. Derrotou o Trump. Chegou nos Estados Unidos, o Trump perdeu.”
A fala foi uma provocação do presidente sobre a coincidência entre a viagem de Flávio e o resultado das eleições americanas. Não existe relação causal entre a chegada do senador aos Estados Unidos e o desempenho eleitoral do Partido Republicano.
Nas eleições de meio de mandato realizadas em 3 de novembro, os democratas conquistaram o controle da Câmara dos Representantes e do Senado, impondo uma derrota política ao partido de Trump.
O resultado altera a composição do Congresso americano e pode dificultar a aprovação de propostas defendidas pela Casa Branca.
Presidente afirma que Flávio foi buscar proteção nos EUA
Lula também levantou questionamentos sobre os motivos que levaram Flávio Bolsonaro a deixar o Brasil após o resultado das eleições presidenciais.
Segundo o presidente, o senador teria viajado aos Estados Unidos para buscar proteção política diante dos processos e investigações que enfrenta no país.
“Foi lá para pegar proteção. Você vai ver a proteção que você vai ter. Você vai ter que voltar para o Brasil, para receber os processos que você tem.”
A afirmação representa a interpretação política apresentada por Lula. Não há confirmação de que o governo americano tenha concedido qualquer tipo de imunidade judicial ou proteção formal ao senador brasileiro.
A permanência de Flávio nos Estados Unidos também não significa, por si só, que ele esteja impedido de responder a procedimentos judiciais no Brasil.
Eventuais pedidos de cooperação internacional ou medidas relacionadas ao retorno do parlamentar dependeriam de decisões das autoridades competentes e dos instrumentos jurídicos aplicáveis.
Flávio deixou o Brasil depois de perder a eleição
Flávio Bolsonaro foi derrotado por Lula no segundo turno das eleições presidenciais de 25 de outubro.
O presidente recebeu 51,79% dos votos válidos, enquanto o senador obteve 48,21%, segundo o resultado oficial do Tribunal Superior Eleitoral.
Dois dias depois da votação, em 27 de outubro, Flávio deixou o Brasil e seguiu para os Estados Unidos por uma rota que passou pela Argentina e pelo Equador.
A chegada a Miami ocorreu em 28 de outubro.
O deslocamento aconteceu após uma determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, relacionada à entrega de documentos de viagem.
Em entrevista ao jornal The New York Times, divulgada nesta quinta-feira (5), Flávio afirmou que decidiu sair do país por receio de ser preso.
O senador também declarou que organizou a viagem por conta própria e negou ter recebido ajuda de governos estrangeiros.
A reportagem americana, entretanto, apresentou informações atribuídas a autoridades dos Estados Unidos que indicariam a participação de pessoas ligadas à Casa Branca na organização do deslocamento.
Flávio sustenta que não recebeu auxílio governamental e afirma considerar as investigações contra ele politicamente motivadas.
Derrota de Trump muda cenário político nos Estados Unidos
A eleição de meio de mandato nos Estados Unidos renovou a composição da Câmara dos Representantes e parte do Senado.
O Partido Democrata obteve resultados suficientes para assumir o controle das duas Casas do Congresso, reduzindo a capacidade de articulação legislativa do governo Trump.
A nova configuração pode ampliar a fiscalização parlamentar sobre o Executivo, além de dificultar a tramitação de determinadas propostas do presidente americano.
Isso não significa, entretanto, que o Congresso tenha poder para determinar diretamente a deportação de uma pessoa específica.
Decisões sobre imigração, permanência de estrangeiros e eventuais processos de extradição seguem procedimentos próprios, envolvendo o Executivo, órgãos administrativos e o Judiciário, conforme cada situação.
Para Flávio Bolsonaro, o resultado americano ocorre em um momento de incerteza sobre sua permanência fora do Brasil e sua continuidade na política nacional.
Live também teve críticas a pessoas ligadas ao senador
Além das declarações sobre a viagem de Flávio, Lula mencionou o advogado Willer Tomaz, que mantém relações com o senador.
O presidente fez referências a investigações envolvendo o advogado e a uma disputa judicial por um imóvel localizado em Angra dos Reis, no Rio de Janeiro.
As declarações ocorreram em tom crítico e envolveram suspeitas que ainda dependem de apuração e de decisões judiciais.
A existência de uma investigação ou de uma disputa na Justiça não equivale à comprovação de crime.
Lula também afirmou que pretende ampliar sua presença nas redes sociais durante o novo mandato, utilizando transmissões ao vivo para apresentar posições políticas e comentar assuntos nacionais e internacionais.
Próximos passos
Flávio Bolsonaro permanece nos Estados Unidos e ainda não anunciou uma data para retornar ao Brasil.
O senador afirma que pretende continuar participando das articulações políticas de seus aliados e sustenta que sua saída do país foi motivada pelo temor de medidas judiciais.
As investigações relacionadas ao parlamentar continuam sob responsabilidade das autoridades brasileiras.
Já Lula inicia seu quarto mandato em janeiro de 2027, após a vitória no segundo turno, enquanto o resultado das eleições americanas estabelece um novo cenário de negociação entre Donald Trump e o Congresso dos Estados Unidos.