Construção civil enfrenta pressão para ampliar inclusão de pessoas com deficiência além das cotas

Justiça do Trabalho, Ministério Público e empresários discutem em Brasília como transformar contratações obrigatórias em inclusão efetiva, diante da dificuldade de preencher vagas e garantir permanência no mercado
Redação NC News
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Contratar não basta. Em um dos setores que mais empregam no país, a construção civil enfrenta o desafio de transformar a reserva legal de vagas para pessoas com deficiência em inclusão efetiva dentro dos canteiros de obras e escritórios. O tema reuniu nesta semana, em Brasília, representantes da Justiça do Trabalho, do Ministério Público do Trabalho (MPT) e empresários em um debate sobre os obstáculos que ainda dificultam o acesso, a permanência e o crescimento desses profissionais no mercado.

A discussão ocorre em um momento em que empresas de diferentes segmentos enfrentam dificuldades para cumprir integralmente a Lei de Cotas, que obriga companhias com mais de 100 funcionários a destinar entre 2% e 5% de seus postos de trabalho a pessoas com deficiência ou trabalhadores reabilitados pelo INSS. Na teoria, a regra parece simples. Na prática, encontrar candidatos qualificados, adaptar funções e garantir que esses profissionais não sejam apenas um número no papel tem se mostrado um desafio bem mais complexo.

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Além do cumprimento da lei

No encontro promovido pelo Instituto Dia, especialistas defenderam que o debate precisa ir além do simples cumprimento da legislação. A avaliação é de que a inclusão depende de adaptações estruturais, qualificação profissional, acessibilidade e mudanças culturais dentro das organizações — ou seja, preencher a cota é só a primeira etapa de um processo muito mais longo.

A ministra do Tribunal Superior do Trabalho (TST), Liana Chaib, afirmou que a inclusão de pessoas com deficiência é uma determinação constitucional e destacou que ainda existe uma parcela significativa dessa população distante do mercado de trabalho. “Nós temos uma fatia grande da população com deficiência que ainda está fora do mercado. A ideia é ampliar essa inclusão e garantir a participação dessas pessoas no ambiente profissional”, afirmou.

Apesar dos desafios, a ministra reconhece avanços por parte das empresas. “Existe hoje uma conscientização maior e um interesse crescente em compreender a legislação e buscar soluções. Quando as empresas passam a se preocupar efetivamente com o tema, já estamos diante de um passo importante para a transformação”, disse.

A cota é só o começo

Para o corregedor-geral do Ministério Público do Trabalho, Fábio Leal Cardoso, cumprir a cota legal representa apenas o primeiro estágio de uma política inclusiva. “Não é suficiente, mas é um passo importantíssimo. A contratação abre a porta de entrada para o mercado de trabalho. Depois disso, é necessário investir em acompanhamento, treinamento e desenvolvimento para garantir que esses profissionais permaneçam e cresçam dentro das empresas”, afirmou.

Cardoso também defendeu a construção de consensos entre empresas, órgãos públicos e trabalhadores como alternativa para acelerar resultados e evitar disputas judiciais prolongadas — um caminho que, segundo ele, tende a gerar resultados mais duradouros do que a via exclusivamente jurídica.

Os desafios específicos dos canteiros de obras

O presidente do Instituto Dia, Gáudio Ribeiro de Paula, destacou que setores como a construção civil possuem desafios específicos relacionados à segurança e às características operacionais das atividades. Diferente de um escritório, por exemplo, um canteiro de obras impõe limitações físicas e de segurança que exigem soluções mais elaboradas para viabilizar a presença de trabalhadores com deficiência sem comprometer a integridade de ninguém.

Segundo ele, o debate busca identificar de forma técnica quais limitações podem ser superadas e quais exigem soluções diferenciadas. “Nosso objetivo é construir consensos e encontrar caminhos viáveis para que a inclusão aconteça de forma efetiva e sustentável”, afirmou.

Inclusão não se mede só em números

Ao final do encontro, o consenso entre os participantes foi claro: a inclusão não pode ser medida apenas pelo número de contratações. O verdadeiro desafio, segundo eles, é garantir que pessoas com deficiência tenham condições reais de desenvolver carreira, conquistar espaço dentro das empresas e permanecer no mercado de trabalho em igualdade de oportunidades — transformando a obrigação legal em uma mudança cultural genuína dentro do setor que mais emprega no Brasil.

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