Uma placa tectônica que se rompe nas profundezas do Pacífico, um oceano equatorial com aquecimento recorde e um litoral na Califórnia em estado de emergência compõem hoje um mesmo tabuleiro de risco. Da Cascadia ao sul californiano, processos lentos da Terra e o El Niño muito forte se encontram na mesma equação de vulnerabilidade costeira.
Placa em ruptura lenta redesenha o mapa sísmico
No noroeste da América do Norte, pesquisadores ligados ao Experimento de Imagem Sísmica de Cascadia (CASIE21) detalham a ruptura gradual de uma placa oceânica no fundo do Pacífico. As imagens sísmicas mostram fraturas que atravessam a crosta e um trecho de 75 km que hoje registra terremotos, enquanto áreas vizinhas permanecem silenciosas.
Para montar esse mapa, a equipe lançou ondas sonoras nas profundezas e captou os ecos em equipamentos instalados em um cabo de aproximadamente 15 km no fundo do mar. A leitura desses sinais revela múltiplas falhas, uma delas associada a um deslocamento lateral de cerca de 5 km, evidência de que blocos da placa começam a se mover de forma independente.
Os cientistas descrevem um processo em capítulos. Diferentes segmentos podem se separar em momentos distintos, facilitados por falhas que funcionam como trilhos para o deslizamento lateral da crosta. Ao longo de milhões de anos, essa sequência tende a fragmentar a placa e enfraquecer a estrutura que mantém um bloco mergulhado sob o outro.
Esse desencaixe abre espaço para a formação de uma “janela de placa”, uma espécie de vão profundo por onde material quente do interior do planeta pode subir. Esse fluxo, sugerem os pesquisadores, tem potencial para mudar a atividade vulcânica da região, em padrão semelhante ao registrado em antigas rochas vulcânicas estudadas em terra firme.
A descoberta não desliga o risco sísmico de Cascadia. O processo que leva à interrupção da produção de terremotos é lento, e a região permanece sujeita a eventos intensos. A diferença, agora, é que o desenho da placa sob a costa do Pacífico norte começa a ser refeito, com implicações para o monitoramento de futuros abalos.
El Niño muito forte aquece o Pacífico e amplifica extremos
Enquanto o fundo do oceano se rearranja, a superfície do Pacífico Equatorial registra um aquecimento sem precedentes na série histórica disponível. Na faixa conhecida como Niño 3.4, referência central para o acompanhamento do El Niño, a anomalia diária já alcança +3,04°C, valor máximo observado até agora.
Os dados compilados em plataformas de monitoramento climático, com base em medições da agência oceânica e atmosférica dos Estados Unidos, também apontam uma anomalia média semanal de 2,1°C. A classificação oficial usa as médias mensais. Em setembro, o aquecimento nessa mesma faixa se mantém em 2,1°C, o que coloca o evento na faixa considerada “muito forte”.
José Marengo, coordenador-geral de Pesquisa e Desenvolvimento do Cemaden, reforça a leitura técnica. “Não existem Super El Niño, Mega El Niño, Godzilla El Niño, esses são nomes que a imprensa usa. A classificação da NOAA vai de fraco, moderado, forte e muito forte e, até o momento, podemos considerar muito forte”, afirma.
A expectativa entre climatologistas é de que o pico desse El Niño ocorra entre novembro e janeiro, com médias mensais possivelmente entre 2,6°C e 2,8°C na mesma região equatorial. Um especialista que acompanha os modelos resume a tendência: “As águas mais quentes estão avançando e não aparece sinal algum de água fria, talvez só a partir de março de 2027”.
O El Niño altera a circulação atmosférica de grande escala e redistribui chuvas e secas pelo globo. No Pacífico, mexe na rota de ciclones e furacões, intensifica ondas de calor marinhas e aumenta o potencial de tempestades extremas. No Brasil, seu reflexo inclui risco maior de estiagens no Norte e chuvas acima da média no Sul, com impactos em energia, agricultura e infraestrutura.
Califórnia vira laboratório vivo da crise costeira
No sul da Califórnia, essa combinação de oceano aquecido, mar mais alto e tempestades intensificadas já se traduz em destruição visível. Ao longo do verão no hemisfério norte, ciclones e furacões do Pacífico Oriental, turbinados pelo El Niño, levantam ondas gigantes que se chocam contra um litoral símbolo do imaginário californiano.
Esses sistemas não atingem a costa como furacões clássicos, mas enviam energia à distância. O resultado aparece em casas destruídas em áreas como Dana Point, onde uma residência desaba e outras 16 têm uso desocupado ou restrito pela prefeitura. Em trechos de Malibu, o mar cava buracos junto a mansões à beira-mar e avança sobre estruturas de proteção improvisadas.
A pressão acontece sobre um litoral já fragilizado pelo aumento do nível do mar. No último século, a elevação média na região sul da Califórnia varia entre 20 cm e 30 cm. Agora, um El Niño forte adiciona de forma temporária outros 15 cm a 30 cm ao patamar normal, aproximando ainda mais as ondas das construções e das estradas costeiras.
A essa maré elevada se soma uma onda de Kelvin subaquática associada ao próprio El Niño, com potencial de erguer o nível do mar na mesma faixa de 15 cm a 30 cm quando chegar à costa, previsão feita por Michael Jacox, oceanógrafo da agência oceânica americana. O choque pode coincidir com as chamadas marés-rei, excepcionalmente altas, ligadas a um ciclo de 18,6 anos da órbita lunar.
Especialistas alertam que o conjunto forma um cenário de teste de estresse para o litoral californiano no próximo inverno. “Tudo indica que este será um inverno bastante épico em termos de riscos potenciais”, diz Patrick Barnard, diretor de pesquisa do Centro de Resiliência Climática Costeira da Universidade da Califórnia em Santa Cruz. “Tudo é amplificado pelas mudanças climáticas.”
Praias encolhem, turismo treme e emergência vira rotina
Em cidades turísticas como Carlsbad, 56 km ao norte de San Diego, a erosão deixa de ser conceito abstrato. Na praia de Tamarack, cartão-postal de uma cidade de 112 mil habitantes, a areia desaparece em questão de dias em alguns trechos. Onde turistas caminhavam, o geomorfologista costeiro Adam Young, do Instituto Scripps, hoje escala blocos de pedra expostos.
Logo ao sul, o oceano engole a faixa de areia por inteiro e avança sobre um estacionamento que antes colocava visitantes a poucos passos do mar. Para a prefeitura, o impacto é também orçamentário: 14% do orçamento operacional de Carlsbad vem de impostos sobre quartos de hotel, receita diretamente ligada ao apelo das praias.
Surfistas seguem ocupando os picos de onda, mas agora dividem o espaço com uma sensação de urgência. Após uma sessão matinal em Tamarack, o surfista Alex Stott observa o recuo acelerado da linha de costa. “Espero que consigam encontrar uma solução, porque, sinceramente, acho que a Mãe Natureza vai levar tudo de volta até que eles parem com isso, certo?”, afirma. “Está ficando claro que ela pode levar a praia inteira, se quiser, bem rapidamente.”
Autoridades estaduais já decretam estado de emergência preventivo para reforçar equipes de resgate e resposta a desastres antes da temporada de tempestades. Eventos culturais à beira-mar são cancelados em cima da hora por causa da erosão do terreno, como ocorre com festivais em áreas próximas ao píer de Santa Mônica.
No horizonte próximo, cientistas falam em risco real de perda permanente de praias importantes se a atual sequência de marés altas, tempestades e ondas de calor marinhas se repetir com frequência. No médio prazo, a combinação de El Niño intenso e aquecimento global tende a tornar episódios extremos mais corriqueiros, forçando cidades a escolher entre recuar construções, investir em obras caras de proteção ou aceitar danos recorrentes.
Na escala de milhões de anos, a ruptura lenta da placa em Cascadia pode redesenhar a geografia do Pacífico norte. Na escala de anos a décadas, o El Niño atual e a elevação do nível do mar já começam a redesenhar mapas de risco, orçamentos municipais e a própria relação de populações costeiras com o oceano. A forma como governos e sociedades respondem agora define quanto do impacto futuro será inevitável e quanto ainda pode ser mitigado.
O que está causando o rompimento da placa tectônica no fundo do Oceano Pacífico?
A ruptura da placa tectônica na região de Cascadia é causada pelo acúmulo de tensões na crosta oceânica, que se libera ao longo de falhas profundas permitindo deslocamentos laterais de vários quilômetros; com o tempo, diferentes blocos se separam em etapas, abrindo janelas por onde material quente do interior da Terra pode ascender.
Como o aquecimento recorde do Oceano Pacífico está relacionado ao fenômeno El Niño?
O aquecimento recorde no Pacífico Equatorial, com anomalias diárias que chegam a +3,04°C na faixa Niño 3.4 e média mensal de 2,1°C, caracteriza um El Niño muito forte porque esse fenômeno é precisamente o aquecimento anormal e persistente das águas tropicais, capaz de alterar ventos, chuvas e tempestades em escala global.
Quais os impactos do ‘Super El Niño’ no clima e nas populações do Pacífico?
Um El Niño muito forte, embora tecnicamente não exista a categoria “Super El Niño”, intensifica tempestades, ondas de calor marinhas e secas, aumenta temporariamente o nível do mar em até 30 cm em áreas como a Califórnia e agrava erosão, inundações costeiras, prejuízos ao turismo, perdas de infraestrutura e riscos humanitários em dezenas de países banhados pelo Pacífico.
Como o aumento do nível do mar está afetando a Califórnia e outras regiões costeiras do Pacífico?
O nível do mar no sul da Califórnia já subiu de 20 cm a 30 cm no último século, e com mais 15 cm a 30 cm temporários ligados ao El Niño e à onda de Kelvin, as ondas alcançam casas, estacionamentos e estradas, acelerando erosão, forçando remoção de imóveis, corroendo receitas do turismo e expondo outras costas do Pacífico ao mesmo tipo de risco progressivo.
Qual a relação entre o furacão no Oceano Pacífico e o fenômeno El Niño?
Furacões formados no Pacífico Oriental, como os que neste verão geram ondulações em direção à Califórnia, se tornam mais prováveis e intensos quando as águas superficiais estão mais quentes devido ao El Niño, porque o calor extra alimenta tempestades tropicais que, mesmo sem tocar a costa, enviam ondas gigantes e agravam a destruição costeira.