Michelle Bolsonaro e outros 14 candidatos receberam doações de nomes com passagem pela Lista Suja do trabalho escravo

Doações suspeitas de empregadores ligados ao trabalho escravo levantam questões éticas sobre candidaturas brasileiras.
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Michelle Bolsonaro (PL), candidata ao Senado pelo Distrito Federal, recebeu R$ 100 mil do empresário Simão Sarkis, que já teve o nome incluído na chamada Lista Suja do trabalho escravo. A doação faz parte de um conjunto de R$ 837,4 mil destinado por 13 empregadores com passagem pelo cadastro a 15 candidatos nas eleições de 2026.

O levantamento, realizado pela Repórter Brasil, cruzou prestações de contas eleitorais geradas até 16 de setembro com mais de duas décadas de registros do Cadastro de Empregadores que tenham submetido trabalhadores a condições análogas à escravidão. Os recursos chegaram a candidaturas de nove partidos e diferentes cargos.

A presença de um doador na Lista Suja não torna, por si só, a contribuição eleitoral ilegal. O cadastro é mantido pelo Ministério do Trabalho e Emprego e reúne empregadores responsabilizados administrativamente após processos relacionados à submissão de trabalhadores a condições análogas à escravidão.

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Empresário doou R$ 100 mil para Michelle e R$ 100 mil para Bia Kicis

Simão Sarkis realizou duas doações de R$ 100 mil para candidatas do PL ao Senado pelo Distrito Federal. Bia Kicis recebeu a transferência em 1º de setembro, enquanto Michelle Bolsonaro recebeu o mesmo valor dois dias depois.

O nome de Sarkis foi incluído na Lista Suja em 2013 após uma fiscalização realizada na Fazenda Santo Aurélio, em Paracatu, no noroeste de Minas Gerais. Dez trabalhadores foram resgatados durante a operação.

Simão Sarkis é o nome do polêmico grupo Sarkis, que cedia fazenda como quartel durante a ditadura e trabalho escravo rural | Foto: Reprodução

Segundo os registros da fiscalização citados no levantamento, parte dos trabalhadores dormia em condições inadequadas e sem estrutura apropriada de higiene. Eles também relataram aos fiscais que utilizavam uma barragem frequentada pelo gado para tomar banho e retiravam água de uma cisterna sem proteção adequada para beber e cozinhar.

O caso posteriormente chegou à Justiça do Trabalho. Em segunda instância, o Tribunal Regional do Trabalho de Minas Gerais manteve indenização de R$ 390 mil por dano moral coletivo e elevou de R$ 30 mil para R$ 40 mil o valor da indenização individual destinada aos trabalhadores.

Procuradas pela reportagem responsável pelo levantamento, as assessorias do PL e de Michelle Bolsonaro não responderam aos pedidos de posicionamento até a publicação. O gabinete de Bia Kicis também não se manifestou, e Sarkis não respondeu aos contatos.

Maior doação identificada foi de R$ 380 mil

O maior repasse encontrado no levantamento ocorreu no Pará. Rafael Bemerguy Sefer destinou R$ 380 mil à campanha de reeleição do irmão, o deputado estadual Gustavo Sefer (PSD).

Rafael foi incluído no cadastro em 2026 após uma fiscalização realizada no ano anterior na Fazenda Santa Maria, na zona rural de Altamira. A ação alcançou 17 trabalhadores.

Segundo os auditores fiscais citados no levantamento, trabalhadores estavam alojados em estruturas improvisadas, incluindo barracos cobertos por lona, e não havia água potável disponível nas frentes de trabalho.

A Repórter Brasil informou ter procurado o gabinete de Gustavo Sefer para obter manifestações do deputado e do irmão, mas não recebeu resposta até a publicação.

Doações chegaram a candidatos de diferentes partidos

O levantamento também encontrou contribuições destinadas a candidatos de outras siglas e estados.

Em Minas Gerais, Antônio Ademilson Rabelo dos Santos doou R$ 50 mil ao governador Mateus Simões (PSD), candidato à reeleição. Segundo o levantamento, o doador entrou na Lista Suja em 2019 depois de uma fiscalização que encontrou 25 trabalhadores em uma carvoaria.

No Maranhão, José Carlos Nobre Monteiro, conhecido como Carlinhos Florêncio, destinou R$ 130 mil à campanha de reeleição do filho, o deputado estadual Florêncio Neto (MDB). O empresário teve o nome incluído no cadastro após fiscalização realizada em uma fazenda no estado.

O Ministério do Trabalho encontrou nove trabalhadores em seu terreno “Fazendinha” | Foto: Reprodução

Em Mato Grosso, Luiz Viero Trevisan doou R$ 10 mil à campanha do ex-governador Mauro Mendes (União Brasil), candidato ao Senado. O nome de Trevisan apareceu em edição da Lista Suja publicada em 2004.

Também aparecem no levantamento doações para candidaturas ligadas ao Podemos, Novo e PT, entre outras legendas. Os registros mostram, portanto, que as contribuições identificadas alcançaram diferentes campos políticos.

O que é a Lista Suja do trabalho escravo

A chamada Lista Suja é o Cadastro de Empregadores que tenham submetido trabalhadores a condições análogas à escravidão, mantido pelo Ministério do Trabalho e Emprego.

A inclusão ocorre após processo administrativo e decisão definitiva na esfera administrativa. O cadastro funciona como instrumento público de transparência e permite consultar empregadores responsabilizados pelas fiscalizações.

A legislação considera condições análogas à escravidão situações que podem envolver trabalho forçado, jornada exaustiva, condições degradantes ou restrição da liberdade de locomoção do trabalhador, conforme as circunstâncias constatadas em cada caso.

A permanência histórica de um nome no cadastro também precisa ser diferenciada da situação atual. Alguns dos doadores identificados pelo levantamento estiveram em edições antigas da Lista Suja e já não constam necessariamente da relação vigente.

A Lista Suja do trabalho escravo é um cadastro oficial do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) que expõe empregadores que comprovadamente exploraram trabalhadores em condições análogas à escravidão | Foto: Reprodução

Doações não são automaticamente ilegais

O fato de uma pessoa física ter sido incluída na Lista Suja não cria, por si só, uma proibição para realizar doações eleitorais. Por isso, a existência das transferências não significa automaticamente que candidatos ou doadores tenham cometido irregularidade eleitoral.

As contribuições precisam seguir as regras gerais previstas na legislação eleitoral, incluindo limites, identificação da origem dos recursos e registro na prestação de contas apresentada à Justiça Eleitoral.

O levantamento utiliza os dados disponíveis até 16 de setembro. Como a prestação de contas das campanhas continua sendo atualizada durante o período eleitoral, os valores recebidos pelos candidatos podem sofrer alterações até a apresentação das contas finais.

Próximos passos

As campanhas seguem obrigadas a informar receitas e despesas à Justiça Eleitoral, permitindo a atualização das prestações de contas ao longo da disputa.

Michelle Bolsonaro e Bia Kicis concorrem às duas vagas destinadas ao Distrito Federal na renovação do Senado em 2026. O primeiro turno das eleições será realizado neste domingo, 4 de outubro.

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