Zidane muda França e dá primeira chance como titular a quatro jogadores contra a Bélgica

Zidane fez nove mudanças na França e deu a quatro jogadores a primeira chance como titular na vitória por 1 a 0 sobre a Bélgica.
Redação NC News
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Lucas da Cunha estreia pela seleção francesa como titular, domina o meio-campo na vitória por 1 a 0 sobre a Bélgica e deixa Zinedine Zidane encantado. O meia do Como, sensação italiana que hoje disputa Série A e Champions League, transforma a primeira convocação em credencial forte para ficar de vez entre os Bleus.

Do anonimato relativo ao comando do meio-campo

O nome engana quem escuta de longe. Lucas da Cunha não é brasileiro, embora o sobrenome remeta a muitos jogadores daqui. O meio-campista nasce em Roanne, na França, tem também nacionalidade portuguesa e constrói a carreira longe dos holofotes até chegar à seleção.

O salto acontece nesta Data Fifa mais recente, quando Zidane decide apostar no volante de construção do Como. Na vitória magra diante da Bélgica, em 28 de setembro, Lucas atua como se estivesse no estádio do próprio clube italiano: sem pressa, recebendo a bola de frente e escolhendo o passe certo quase sempre.

Os números escancaram a exibição. Ele termina o jogo com 97 ações com bola e 89 passes certos, além de oito lançamentos tentados e seis concluídos. Sai apenas nos acréscimos da etapa final, depois de ter sido o metrônomo francês contra um rival que escala Youri Tielemans, Kevin de Bruyne e Roméo Lavia.

Zidane vê continuidade, não surpresa

Zidane não trata a atuação como acaso. Para o técnico, o que se vê na seleção é a extensão do jogador que ele observa no Como, sob a batuta de Cesc Fàbregas. “Não é fácil. É o primeiro jogo dele pela seleção, em um grupo que ele não conhece. Ele jogou como costuma jogar. Jogou como atua em sua equipe e fez isso muito bem”, diz o treinador.

O próprio Lucas reforça a ideia de naturalidade. “O treinador me deu toda a confiança, disse para eu fazer o que faço no clube, jogar solto e ajudar a equipe. Foi o que tentei fazer e tive boas sensações, me senti bem em campo. Estou muito feliz com a minha estreia aqui”, afirma o meio-campista, ainda no gramado.

O franco-português atua como primeiro volante de construção, função que, na prática, o coloca como cérebro à frente da zaga. Ele recebe sob pressão, gira com a cabeça erguida e encontra os pontas em condições de atacar no mano a mano. Contra a Bélgica, aciona com frequência Désiré Doué e Bradley Barcola, depois substituído por Michael Olise, autor do gol da vitória.

Como, Fàbregas e a escola que molda o novo titular

A história recente de Lucas da Cunha se confunde com a própria transformação do Como. O clube italiano, que há pouco circulava pela Série B, se reinventa, sobe para a elite, alcança vaga na Champions League e vira um dos projetos mais curiosos do futebol europeu. No centro desse processo, está o volante que hoje dita o ritmo da seleção francesa.

Lucas chega ao Como em janeiro de 2023, comprado por 750 mil euros, depois de passagens por Rennes, Nice, Lausanne-Sport e Clermont Foot. No início, carrega o rótulo de aposta, não de certeza. O que muda a equação é a rapidez com que ele se adapta ao estilo implantado por Fàbregas, que exige circulação de bola, coragem para receber entre linhas e qualidade no passe longo.

Na temporada 2024/25, já na Série A, o meia se firma como um dos principais jogadores do time. Termina o Campeonato Italiano entre os melhores em passes certos, passes para finalização e lançamentos, e leva essa hierarquia também para a Champions. Fàbregas admite que, se pudesse, encheria o time de clones. “O Lucas não me surpreende mais. Se você acompanhou o Como desde a Serie B até hoje, vai entender por que eu disse que jogaria com 11 Da Cunha”, afirma o técnico espanhol.

O elogio não para aí. Fàbregas descreve um jogador raro, quase telepata no entendimento tático. “Ele entende tudo o que queremos fazer. Basta um segundo de explicação, ‘Vamos, Lucas, vamos fazer assim’, e ele atravessaria uma parede por essa ideia”, completa o ex-meio-campista, hoje responsável por moldar o estilo do Como.

Renovação silenciosa no meio-campo francês

A entrada de Lucas da Cunha na seleção mexe com uma hierarquia consolidada. O meio-campo dos Bleus costuma girar em torno de nomes como Aurélien Tchouaméni, Eduardo Camavinga e Adrien Rabiot, todos fisicamente fortes, capazes de cobrir grandes espaços. O novo convocado oferece outra coisa: controle de tempo, pausa, visão de jogo.

Na prática, ele entrega o que muitos treinadores consideram hoje o bem mais escasso do jogo: capacidade de ditar o ritmo. O franco-português escolhe quando acelerar, quando atrair a pressão, quando inverter o lado com um lançamento de 40 metros. Esse repertório complementa, em vez de repetir, o que oferecem os volantes mais físicos do elenco.

O impacto vai além da seleção. No Como, Lucas consolida o clube como vitrine de meio-campistas modernos, capazes de jogar em alto nível na Série A e na Champions sem depender apenas de atributos atléticos. Para o mercado europeu, especialmente os departamentos de análise que buscam jovens talentos, o caso vira referência de como um investimento de 750 mil euros pode se multiplicar em valor esportivo e financeiro.

De Roanne ao Mundial de Seleções, um horizonte aberto

O próprio jogador tem consciência do salto recente. “Fazer o primeiro jogo pela seleção não é pouca coisa. São emoções grandes, uma alegria enorme. Há alguns anos, eu estava na segunda divisão. Hoje, me encontro aqui na seleção francesa. Isso mostra que, quando você trabalha e não desiste, as coisas acontecem. Hoje à noite, aconteceu comigo, e estou muito feliz”, diz Lucas.

Neste momento, ele se firma como peça central no Como e ganha espaço real para se manter entre os convocados de Zidane. A tendência é que, mantido o nível atual, vire candidato sério a titular definitivo em futuras competições, inclusive no Mundial de Seleções, para o qual a França já desenha renovação gradual.

Clubes maiores observam com atenção a evolução de um meio-campista que, com contrato até junho de 2029, ainda tem margem larga de desenvolvimento. O Como se beneficia da projeção, mas sabe que o assédio aumenta a cada Data Fifa. A seleção francesa, por sua vez, encontra em Lucas da Cunha uma resposta para uma pergunta antiga: quem vai organizar o jogo quando a pressão aperta.

O próximo capítulo se escreve agora, a cada rodada da Série A e da Champions e a cada nova convocação. Se mantiver o nível de serenidade que mostrou contra a Bélgica, o menino de Roanne tem tudo para trocar o rótulo de surpresa pelo de protagonista de uma geração.

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