A Polícia Federal intensifica, nesta semana, o ataque a esquemas de lavagem de dinheiro que cruzam o caixa de postos de combustíveis, fundos de investimento e fintechs. Em paralelo às grandes apurações, agentes apreendem R$ 305 mil em Rio Grande (RS) e R$ 200 mil em Irecê (BA), logo após saques em agências bancárias.
Apreensões em Rio Grande e Irecê acendem alerta
Em Rio Grande, no sul do país, policiais abordam um homem instantes depois de ele retirar R$ 305 mil em espécie no balcão de um banco. O dinheiro é recolhido e passa a ser tratado como possível peça de um esquema maior de ocultação de recursos.
“O dinheiro apreendido será analisado no âmbito de inquérito policial que busca esclarecer a origem, a movimentação financeira e a destinação dos recursos”, informa a Comunicação Social da Polícia Federal no Rio Grande do Sul. O investigado pode responder por lavagem de dinheiro e outros delitos que surjam nas apurações, inclusive ilícitos eleitorais.
No interior da Bahia, em Irecê, o roteiro se repete com números menores, mas lógica parecida. Após receber informações sobre movimentação atípica, cruzadas com dados da Controladoria-Geral da União, equipes da PF monitoram um saque elevado e interceptam R$ 200 mil em espécie, também saídos diretamente do caixa.
Além do dinheiro, os agentes recolhem celulares dos envolvidos, que seguem para perícia. “A Polícia Federal prossegue com as diligências para esclarecer os fatos e para verificar a eventual prática dos crimes investigados”, afirma a representação da corporação na Bahia.
Operação Quasar mira estrutura financeira sofisticada
As ações pontuais em Rio Grande e Irecê ocorrem enquanto avança a Operação Quasar, desdobramento da Carbono Oculto. Nesse braço, o alvo não é o portador de maços de notas na rua, mas a engrenagem de alto padrão que dá aparência legal a recursos suspeitos.
No centro do inquérito estão 13 executivos de fundos de investimento, corretoras e fintechs, indiciados por suspeita de participação em um esquema de lavagem de dinheiro associado a fraudes no setor de combustíveis e à atuação do Primeiro Comando da Capital (PCC). Eles são apontados como peças de uma estrutura financeira criada em torno de empresas como Aster Petróleo e Copape Produtos de Petróleo.
De acordo com a PF, valores obtidos por meio de sonegação fiscal e crimes ligados à cadeia de combustíveis entram no sistema financeiro por contas e fundos de investimento, em operações que somam bloqueio de cerca de R$ 1,2 bilhão. Relatórios descrevem “múltiplas camadas societárias e financeiras” e o uso de fundos que investem em outros fundos e empresas, num labirinto que dificulta rastrear o dinheiro.
Mensagens, contratos, planilhas, perícias contábeis e extratos bancários, colhidos com autorização judicial, sustentam a acusação de que o grupo simula compra e venda de imóveis e títulos sem objetivo econômico real. As transações serviriam apenas para embaralhar a trilha do dinheiro e esconder os beneficiários finais.
Fintechs, ‘contas-bolsão’ e o rastro de bilhões
As investigações das operações Quasar, Carbono Oculto e Tank apontam ainda para o uso intensivo de fintechs e estruturas descritas pelos investigadores como “bancos paralelos”. Essas engrenagens teriam movimentado R$ 46 bilhões em apenas uma instituição de fachada, entre 2020 e 2024, e algo em torno de R$ 52 bilhões a R$ 53 bilhões no total.
Parte desse volume circula por “contas-bolsão”, mecanismo usado para fracionar depósitos e transferências. Em vez de aparecer em uma única conta, o dinheiro é pulverizado em dezenas ou centenas de subcontas, embaralhando a identificação do verdadeiro dono. Na fase seguinte, os valores voltam a se concentrar e são reinseridos no circuito formal como se tivessem origem legítima.
Esse desenho espelha, na prática, as três fases clássicas da lavagem de dinheiro: colocação, quando o recurso ilícito entra no sistema; ocultação, quando passa por camadas sucessivas de operações; e integração, quando retorna ao mercado com aparência de lucro ou investimento regular. A PF enxerga sinais dessas três etapas tanto nas fintechs quanto nas empresas do ramo de combustíveis.
Para o setor financeiro, o caso acende o alerta vermelho. Fundos, corretoras e plataformas de pagamento passam a conviver com maior risco de responsabilização de executivos, o que tende a pressionar por reforço nas áreas de compliance, monitoramento automatizado de transações e resposta a comunicações do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).
Disputa jurídica e próximos passos
Os empresários Mohamad Hussein Mourad, conhecido como Primo, e Roberto Augusto Leme da Silva, o Beto Louco, são apontados como líderes do grupo econômico que estaria por trás da engrenagem financeira investigada. Eles seguem foragidos desde o ano passado, mas contestam o enquadramento que associa o esquema a facções criminosas.
Em nota, a defesa afirma que, desde a deflagração da Carbono Oculto, os dois “têm sido alvos de especulações e acusações desprovidas de suporte fático, notadamente quanto a uma suposta integração ou liderança em facções criminosas”. Os advogados citam o próprio relatório final da PF para respaldar a argumentação.
“A vinculação do grupo de origem a facção criminosa determinada, embora reiteradamente noticiada, não é afirmada neste relatório como fato provado nestes autos”, registra o documento policial. A defesa sustenta que reportagens e dossiês “não [servem] como prova do vínculo em si” e que não há “prova, indício ou respaldo fático” para atribuir aos empresários ligação com organizações criminosas.
O relatório da Quasar já está nas mãos do Ministério Público Federal, que decide agora se apresenta denúncia à Justiça, se pede novas diligências ou se arquiva parte das apurações. Na frente operacional, a PF mantém diligências em várias regiões do país e não descarta novas apreensões, bloqueios de contas e pedidos de prisão.
As investigações em curso ajudam a redesenhar a política de combate à lavagem de dinheiro no Brasil. A tendência é de maior integração entre PF, Ministério Público, Receita, Coaf e órgãos de controle estaduais para seguir o rastro de operações atípicas, tanto em cédulas que saem do caixa quanto em bilhões que correm silenciosamente pelos sistemas eletrônicos.
Quais são as etapas da lavagem de dinheiro investigadas pela Polícia Federal nos casos recentes?
Nos casos recentes, a Polícia Federal investiga as três fases clássicas da lavagem de dinheiro — colocação, ocultação e integração — presentes tanto nos saques em espécie quanto na estrutura bilionária de fundos e fintechs. O dinheiro entra no sistema, passa por camadas sucessivas de transações e retorna com aparência de recurso legítimo.
Quais são os sinais que levaram a PF a apreender grandes quantias em espécie?
Os principais sinais foram saques em espécie de alto valor, como R$ 305 mil em Rio Grande (RS) e R$ 200 mil em Irecê (BA), realizados de uma vez em agências bancárias, associados a comunicações de movimentação atípica e cruzamento de dados com a Controladoria-Geral da União, o que indicou risco de uso para lavagem de capitais.
Qual a relação dos executivos do mercado financeiro indiciados com o PCC?
Os 13 executivos indiciados são suspeitos de integrar uma estrutura de fundos, corretoras e fintechs que teria movimentado recursos ligados a fraudes no setor de combustíveis associadas ao PCC, por meio de múltiplas camadas societárias e financeiras; o relatório da PF, porém, não trata como fato provado o vínculo direto do grupo com a facção.
Quais as consequências legais para os suspeitos de lavagem de dinheiro no caso atual?
Os suspeitos podem responder por lavagem de dinheiro, gestão fraudulenta e crimes correlatos, com penas que no Código Penal e na Lei de Lavagem de Dinheiro chegam a vários anos de prisão, além de bloqueio de bens, perda de valores apreendidos, ações de improbidade fiscal e proibição de atuar na administração de instituições financeiras.