PF mira esquema bilionário de lavagem ligado ao PCC

PF desarticula esquema que movimentou bilhões em lavagem de dinheiro ligada ao PCC, com prisões e apreensões em diferentes estados.
Redação NC News
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A Polícia Federal aperta o cerco contra a lavagem de dinheiro e atinge, ao mesmo tempo, o dinheiro vivo nas ruas e engrenagens sofisticadas do mercado financeiro. Em ações recentes, agentes apreendem R$ 505 mil em espécie no Rio Grande do Sul e na Bahia e concluem inquérito que aponta um esquema bilionário ligado a fraudes no setor de combustíveis, com 13 executivos indiciados.

Dinheiro vivo travado na saída do banco

Em Rio Grande, no sul do RS, policiais federais abordam um investigado logo após ele sacar R$ 305 mil em uma agência bancária. As cédulas são recolhidas na porta do banco e seguem para perícia, junto com informações sobre a conta de origem e a movimentação recente.

O inquérito tenta reconstruir de onde vem o dinheiro, como ele circula e quem se beneficia. A PF já antecipa que o alvo “poderá responder pelos crime de lavagem de dinheiro e outros que forem identificados no decorrer das apurações, incluindo eventuais ilícitos eleitorais”, segundo nota da Comunicação Social no estado.

No interior da Bahia, em Irecê, a cena se repete em menor escala e confirma o padrão que acende o alerta de órgãos de controle. Após aviso de movimentação atípica, agentes apreendem R$ 200 mil retirados em espécie, também logo depois de um saque elevado em agência bancária.

“Após o recebimento de informações sobre movimentação financeira suspeita, com apoio de informações da Controladoria Geral da União – CGU, os policiais federais realizaram diligências e confirmaram o saque”, informa a PF na Bahia. Além das notas, aparelhos celulares são recolhidos e seguem para perícia, em busca de mensagens, contatos e comprovantes digitais que expliquem a operação.

Esquema bilionário com fundos, fintechs e fraudes em combustíveis

Enquanto interrompe a circulação de grandes somas em espécie, a PF também fecha uma etapa de uma investigação mais ambiciosa: o rastreio de uma estrutura financeira que teria movimentado entre R$ 52 bilhões e R$ 53 bilhões em quatro anos, em grande parte por meio de empresas de fachada, fundos de investimento e fintechs.

A Operação Quasar, desdobramento da Carbono Oculto e articulada com a Operação Tank no Paraná, mira fraudes no setor de combustíveis ligadas a sonegação fiscal. Segundo os investigadores, recursos desviados desse mercado foram despejados em contas e fundos para ganhar aparência lícita.

No centro do caso está o grupo econômico ligado à Aster Petróleo e à Copape Produtos de Petróleo. A PF descreve uma teia de “múltiplas camadas societárias e financeiras”, em que fundos participam de outros fundos e empresas, dificultando o rastreio de quem realmente manda no dinheiro.

O relatório reúne mensagens, contratos, planilhas, perícias contábeis e extratos bancários obtidos com autorização judicial. As operações incluiriam simulações de compra e venda de imóveis e títulos sem finalidade econômica real, usadas apenas para deslocar valores e confundir o caminho do capital.

Nesse ambiente se movimentam os 13 executivos agora indiciados. Eles ocupam cargos em fundos de investimento, corretoras e fintechs que, segundo a PF, aderem a um modelo de “bancos paralelos”. Em uma única instituição de fachada, as investigações identificam R$ 46 bilhões transitando no período de 2020 a 2024.

Contas-bolsão, camadas e a conexão com o PCC

O mecanismo-chave, de acordo com o inquérito, são as chamadas “contas-bolsão”, usadas para reunir depósitos de vários clientes, fracionar transferências e esconder o verdadeiro dono dos recursos. Dessa forma, a estrutura faz a ponte entre o dinheiro de origem criminosa e o sistema bancário regular.

A PF associa esse fluxo às fraudes em combustíveis e à sonegação, mas o caso também tangencia o financiamento do crime organizado. O relatório final indica suspeita de ligação com o Primeiro Comando da Capital, embora a prova desse elo ainda não esteja consolidada.

Em trecho do documento, a própria PF ressalta que “a vinculação do grupo de origem a facção criminosa determinada, embora reiteradamente noticiada e, inclusive, objeto do dossiê reputacional encomendado pela própria administradora investigada e examinado no item 15.11, não é afirmada neste relatório como fato provado nestes autos”. A indicação, na prática, afasta o vínculo automático com a facção, ao menos neste estágio.

Mesmo assim, o bloqueio de cerca de R$ 1,2 bilhão, determinado pela Justiça, mostra o alcance da ofensiva financeira. A medida congela parte do patrimônio associado ao grupo, enquanto o Ministério Público Federal avalia se apresenta denúncia, pede novas diligências ou arquiva trechos do inquérito.

Empresários foragidos contestam, PF insiste em padrão criminoso

Do outro lado, empresários vistos pela PF como peças centrais da engrenagem financeira reagiram com notas duras. Mohamad Hussein Mourad, o Primo, e Roberto Augusto Leme da Silva, o Beto Louco, estão foragidos desde o ano passado, mas suas defesas insistem na ausência de lastro probatório robusto.

“Os investigados têm sido alvos de especulações e acusações desprovidas de suporte fático, notadamente quanto a uma suposta integração ou liderança em facções criminosas”, afirmam os advogados, que também destacam que reportagens e dossiês de mídia “não servem como prova do vínculo em si”.

O contraponto expõe a principal tensão do caso. De um lado, a PF descreve uma estrutura típica de lavagem de dinheiro: fase de colocação, quando o dinheiro entra no sistema; ocultação, com o uso de múltiplas camadas societárias e operações simuladas; e integração, quando os recursos retornam ao circuito formal com aparência legal.

De outro, a defesa tenta desfazer a associação com o crime organizado e reduzir o caso a discussões tributárias e societárias, campo em que a fronteira entre planejamento agressivo e delito nem sempre é nítida. A confirmação ou não de vínculos com facções pode alterar o peso das acusações e o impacto público do processo.

Sistema financeiro sob pressão e próximos passos

Os desdobramentos imediatos já alcançam o sistema financeiro. Fundos, corretoras e fintechs envolvidos na movimentação dos R$ 52 bilhões a R$ 53 bilhões correm o risco de enfrentar processos administrativos, sanções de órgãos reguladores e perda rápida de credibilidade entre investidores.

Órgãos como o Coaf, a Receita Federal e a própria CGU ganham protagonismo ao identificar transações incompatíveis com o perfil de clientes, uso recorrente de contas-bolsão e saques vultosos em espécie. O padrão detectado em Rio Grande e Irecê, com retiradas de R$ 305 mil e R$ 200 mil em dinheiro vivo, reforça a atenção à fase inicial da lavagem, quando valores ilícitos tentam entrar no circuito bancário.

O relatório final da PF já está nas mãos do Ministério Público Federal, que decide agora se transforma o inquérito em denúncia formal contra os 13 executivos e outros investigados. Novas fases da operação são consideradas prováveis, com potencial de alcançar empresas em outros estados e segmentos, especialmente o de combustíveis.

As apurações também abrem espaço para mudanças regulatórias, como exigências mais rígidas de identificação de beneficiários finais, controles sobre fintechs e limites adicionais a operações simuladas entre empresas ligadas. O resultado prático, se confirmado o esquema, será medir quanto do bilhão bloqueado e dos bilhões movimentados volta, de fato, aos cofres públicos – e quanto se perde no labirinto financeiro que a PF tenta desmontar.

Quais são as etapas da lavagem de dinheiro investigadas pela Polícia Federal nos casos recentes?

Nos inquéritos recentes, a Polícia Federal investiga a colocação (ingresso do dinheiro vivo, como nos saques de R$ 305 mil e R$ 200 mil), a ocultação (uso de contas-bolsão, múltiplas camadas societárias e operações simuladas) e a integração, quando os valores retornam ao sistema financeiro formal com aparência legal.

Quais são os sinais que levaram a PF a suspeitar de lavagem de dinheiro em Irecê e Rio Grande?

Os sinais centrais são os saques em espécie de R$ 305 mil em Rio Grande e R$ 200 mil em Irecê, comunicados como movimentações atípicas, aliados ao uso de uma única conta para valores elevados, proximidade temporal entre depósitos e retiradas e ausência imediata de justificativa econômica compatível com o perfil dos sacadores.

Qual a pena prevista no Código Penal para os crimes de lavagem de dinheiro?

A lavagem de dinheiro é punida hoje pela Lei de Lavagem, com pena geralmente entre três e dez anos de reclusão e multa, que pode aumentar quando há organização criminosa, habitualidade ou uso estruturado do sistema financeiro, cabendo ao juiz dos processos concretos fixar a dosimetria conforme a gravidade dos fatos.

Como a PF relaciona a lavagem de dinheiro com o envolvimento de executivos do mercado financeiro e o PCC?

A PF relaciona a lavagem à atuação de 13 executivos ao apontar que fundos, corretoras e fintechs teriam movimentado até R$ 53 bilhões para ocultar recursos de fraudes em combustíveis, com suspeita — ainda não provada no relatório — de ligação com o PCC, que se beneficiaria de estruturas sofisticadas para reciclar ganhos ilícitos.


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