Uma leva de ex-jogadores, técnicos e dirigentes do futebol entra nas urnas e testa sua popularidade na política brasileira. Na contagem final, só o ex-goleiro Danrlei renova mandato com folga, enquanto nomes como Edmundo, Luís Fabiano e Vanderlei Luxemburgo esbarram no limite da própria fama.
Das arquibancadas ao plenário, com resultados desiguais
A eleição deste domingo coloca o futebol no centro da disputa por votos em vários estados e no Distrito Federal. As candidaturas usam a visibilidade construída em campo para tentar ocupar espaços em Câmara dos Deputados, assembleias legislativas, Câmara Legislativa do DF e até governos estaduais.
No Rio Grande do Sul, Danrlei confirma o favoritismo e mantém passagem firme pela política. O ex-goleiro, ídolo do Grêmio e deputado federal, recebe 105.000 votos e garante mais quatro anos em Brasília. A votação o consolida como principal exceção em um cenário majoritariamente de derrotas para ex-atletas.
No Rio de Janeiro, o ex-atacante Edmundo, ídolo de Vasco e Palmeiras, tenta transformar o carisma em votos para deputado federal pelo PSDB. Sai das urnas com 35.725 votos, 0,40% dos válidos no estado, insuficientes para entrar pela regra da eleição proporcional. O número mostra que a memória afetiva do torcedor não se converte, automaticamente, em capital político.
Também no Rio, dois nomes ligados à gestão do Flamengo ficam pelo caminho. Eduardo Bandeira de Mello, ex-presidente do clube e deputado que tentava novo mandato pelo PV, soma 37.535 votos e não se reelege. Marcos Braz, dirigente com passagens por Flamengo e Remo, registra 18.289 votos e também fica fora da Câmara.
Luxemburgo estreia, Kalil se mede e Leila mantém força
No Tocantins, Vanderlei Luxemburgo faz sua primeira tentativa nas urnas mirando uma das duas cadeiras do Senado. O ex-técnico, multicampeão em grandes clubes, recebe 67.987 votos, 4,11% do total, e termina em sétimo lugar na disputa majoritária. A votação expressiva para um estreante não chega perto, porém, de ameaçar os favoritos.
Em Minas Gerais, Alexandre Kalil usa uma trajetória que mistura arquibancada e gabinete. Ex-presidente do Atlético Mineiro e ex-prefeito de Belo Horizonte, ele concorre ao governo do estado pelo PDT, numa campanha que tenta vender experiência em gestão e proximidade com o torcedor-eleitor. Sai das urnas com 402.405 votos, o equivalente a 3,56%, e fica distante da briga direta pelo comando mineiro. O desempenho, ainda assim, o mantém como nome conhecido para futuras articulações.
No Distrito Federal, a ex-jogadora de vôlei Leila Barros confirma presença relevante no cenário local, mesmo sem vitória. Candidata ao Senado pelo PDT, ela recebe 686.000 votos, 21,25% dos válidos, e termina em terceiro lugar, atrás de Michelle Bolsonaro e Bia Kicis. A votação a coloca como uma das atletas mais influentes da política atual, ainda que fora do mandato.
A mesma eleição no DF é dura com os ex-jogadores de futebol. Washington Coração Valente, ex-atacante de Seleção e ídolo de clubes como Fluminense e Athletico-PR, tenta vaga de deputado federal, mas não se elege. Marcelinho Carioca, ídolo do Corinthians e candidato a deputado distrital pelo Republicanos, encerra a disputa com 2.494 votos, 0,15% do total, e fica muito distante das 24 cadeiras da Câmara Legislativa.
São Paulo, Bahia, Paraná e o limite da lembrança
Em São Paulo, o contraste entre o tamanho das camisas e o resultado nas urnas fica evidente. Luís Fabiano, um dos maiores artilheiros da história recente do São Paulo, disputa vaga de deputado federal pelo MDB. Fecha a contagem com 9.611 votos e não entra na Câmara. A cifra mostra que o apelido “Fabuloso” não basta para romper a barreira do quociente eleitoral.
Outro ex-palmeirense, o goleiro Sérgio, campeão da Copa Libertadores em 1999, tenta vaga de deputado estadual pelo Solidariedade. Recebe 9.565 votos, número que evidencia um nicho fiel de apoiadores, mas insuficiente para levá-lo à Assembleia Legislativa. O ex-atacante Alexandre Finazzi, também candidato a deputado federal por São Paulo, repete o roteiro de frustração e não se elege.
Na Bahia, duas candidaturas ligadas ao futebol medem a dificuldade de sair do vestiário para a política estadual. Marcone Amaral, ex-jogador e ex-prefeito de Itajuípe, busca cadeira de deputado estadual pelo PSD. Sai com 8.159 votos, sem garantir vaga. Jean Goleiro, com passagens por Bahia, Vitória e Cruzeiro, encerra a disputa com 565 votos, mostrando um alcance bem limitado fora do universo do torcedor mais atento.
No Paraná, Dani Pato, ex-jogadora profissional e hoje vereadora, tenta subir um degrau rumo à Assembleia Legislativa pelo MDB. Recebe 4.154 votos e não se elege. O resultado expõe a dificuldade de converter reconhecimento municipal em projeção estadual, mesmo em um estado com tradição forte no futebol.
No Rio de Janeiro, Donizete Pantera, ex-atacante de Vasco, Botafogo e Seleção, mira vaga de deputado estadual pelo PL. Termina com 4.884 votos, também distante do corte. A onda de nomes conhecidos completa o mosaico de celebridades esportivas testando o alcance de sua imagem nas urnas, quase sempre sem sucesso.
Política aproveita a fama, mas cobra aprendizado rápido
A presença de tantos rostos conhecidos do futebol e de outros esportes nas cédulas revela um movimento claro de transição de carreira. Ex-atletas e técnicos tentam usar a notoriedade construída ao longo de anos para acessar estruturas de poder e influenciar políticas públicas em áreas como esporte, juventude e cultura. A eleição de Danrlei, com 105.000 votos, mostra que essa ponte pode funcionar quando há tempo de casa e trabalho contínuo.
A maioria dos candidatos, porém, descobre que o prestígio esportivo não basta. Edmundo, Luís Fabiano, Luxemburgo, Washington, Marcelinho e tantos outros carregam currículos capazes de lotar estádios, mas não encontram o mesmo eco em colégios eleitorais espalhados por estados inteiros. A disputa proporcional, com regras de quociente partidário e coligações, pesa tanto quanto o nome na urna.
O movimento impacta diretamente o meio político e o esportivo. Para os partidos, trazer ex-jogadores é aposta em visibilidade rápida e engajamento nas redes. Para o eleitor, abre-se a possibilidade de ter representantes com experiência concreta em políticas esportivas, formação de base e combate à desigualdade por meio do esporte. Candidatos tradicionais, por outro lado, veem parte da vitrine ocupar-se com novatos célebres, o que aumenta a competição interna.
O balanço deste ciclo eleitoral funciona como termômetro da relação entre bola e política no país. Alguns nomes devem recuar e reavaliar o investimento em campanhas caras e de retorno incerto. Outros tendem a insistir, reforçando bases locais, ocupando secretarias municipais ou estaduais e tentando construir trajetória para além dos gramados. A próxima eleição vai mostrar se a atual safra de ex-atletas aprende o jogo de bastidores com a mesma rapidez com que dominou a bola.
Quem do futebol conseguiu se eleger nestas eleições?
O único nome do futebol que se elege em âmbito nacional nesta eleição é Danrlei, ex-goleiro do Grêmio e deputado federal pelo Rio Grande do Sul, reeleito com 105.000 votos; em outros cargos, ex-jogadores e dirigentes como Edmundo, Luís Fabiano, Vanderlei Luxemburgo, Washington e Marcelinho Carioca não alcançam vaga.
Por que a fama de ex-jogador não garantiu vitória nas urnas?
A fama de ex-jogador não garante vitória porque o sistema eleitoral brasileiro exige construção política, estrutura partidária, base regional e discurso consistente; nomes como Edmundo, Luís Fabiano e Luxemburgo somam dezenas de milhares de votos, mas não atingem o quociente necessário, revelando que memória esportiva não substitui trabalho político contínuo.